A normalização de George W. Bush e a gentileza de Ellen DeGeneres

A popular comediante e ativista LGBTI Ellen DeGeneres assistiu a um jogo com George W. Bush no início de outubro e, após receber críticas que a acusaram de estar envolvida na normalização da imagem do antigo presidente norte-americano, respondeu com um discurso onde pede para que as pessoas “sejam gentis com todas as pessoas“. Mas este pedido implica uma simples e óbvia falácia: é impossível sermos gentis com todas as pessoas. Passo a explicar:

Primeiro importa entender que, após o final do seu mandato, George W. Bush retirou-se do mundo da política e, aparentemente, esteve a desenvolver os seus dotes de pintura no seu retiro. Aproveitou o seu tempo também para escrever uma biografia que tem sido o culminar de um regresso à atenção mundial com aparições em programas e entrevistas – o da Ellen incluído. Tornou-se igualmente uma das vozes críticas à administração de Donald Trump, posicionando-se como um ‘verdadeiro republicano’. A projeção bem-disposta, aliada a momentos virais em que sai com uma imagem renovada na opinião pública – como quando foi fotografado enquanto a popular Michelle Obama o abraçava – tem, no entanto, um macabro problema: apaga e faz esquecer tudo aquilo que a sua administração cometeu enquanto ele foi o homem mais poderoso do mundo. E também um dos maiores responsáveis por crimes contra países, comunidades civis e presos. Os direitos humanos foram redondamente linchados por Bush nos anos da sua presidência (2001-2009).

Então por que não podemos ser gentis com todas as pessoas?

Porque se formos gentis com George W. Bush não seremos gentis com as pessoas que continuaram a ser impedidas de se casar quando ele tentou mudar a constituição norte-americana de forma a impedir, de vez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Direito que, ironicamente numa derrota do então presidente, permitiu que Ellen se casasse com a esposa Portia de Rossi uns anos mais tarde.

Porque se formos gentis com George W. Bush não seremos gentis com as pessoas que terão as vidas dificultadas quando um dos juízes do Supremo Tribunal, com visões homo e transfóbicas e ainda acusado de assédio sexual antes da sua eleição, foi recomendado e apadrinhado pelo antigo presidente. Também ironicamente, no dia seguinte à polémica, o Supremo Tribunal ponderou se empresas podem legalmente despedir pessoas por serem LGBTI. Felizmente ainda sem consequências na lei, mas ter alguém com o cunho de Bush favorável a este tipo de leis apenas irá dificultar imensamente o trabalho de quem protege os direitos das pessoas LGBTI nos Estados Unidos.

Porque se formos gentis com George W. Bush não seremos gentis com os presos ilegais em Guantanamo, vítimas de tortura por “técnicas avançadas de interrogação“, levados em vários casos à morte. Prisões indefinidas, sem julgamento e um atentado aos mais básicos direitos humanos.

Porque se formos gentis com George W. Bush não seremos gentis com as centenas de milhares de iraquianos e pelo menos 150.000 afegãos que morreram na chamada ‘guerra contra o terrorismo’, baseada em mentiras – alguém sabe das armas de destruição maciça iraquiana? – e contra as regras internacionais defendidas pela ONU. O uso de armas químicas e bombardeamentos de alvos civis foram autorizados pelo mesmo Bush que hoje vemos sorridente a passear-se por entrevistas nos talk-shows norte-americanos de horário nobre.

Bush deve ser tratado com tudo isto em mente, não porque ele seja republicano ou conservador – como Ellen tentou justificar como mera discordância política – mas porque é o principal responsável pela morte de milhares de pessoas inocentes e pela tortura de centenas outras. Ser crítico de Trump não lhe dá carta-branca ao branqueamento das suas ações, ainda para mais quando o mais certo é nunca vir a ser julgado pelas mesmas.

Não devemos esquecer a coragem demonstrada por DeGeneres em 1997 e como a decisão dela de sair do armário mudou as vidas de milhões de pessoas LGBTI, devemos-lhe isso. No entanto, é criticável quando decide embarcar neste tipo de discursos fáceis que escamoteiam as atrocidades cometidas por um homem há 18 anos. Não tendo ela sequer o peso e a responsabilidade de uma administração como no caso de Michelle Obama, e não significando que não possamos criar pontes com quem divergimos, importa especialmente a quem tem tanto poder e influência escolher melhor onde dirigir a sua gentileza. Porque George W. Bush dificilmente alguma vez a merecerá.

Para quem quiser ver aprofundado o tema recomendo o seguinte vídeo:


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