“I did get the joke of the toast oven”

20 anos do melhor coming out de sempre

Faz hoje precisamente 20 anos que a personagem Ellen Morgan (da sitcom Ellen) se assumiu como “gay”, seguindo-se de imediato a saída oficial do armário de Ellen DeGeneres que a protagonizava.

O impacto deste coming out pode ser avaliado no episódio de 28 de abril do The Ellen Show, o famoso talkshow de Ellen DeGeneres e que a catapultou a nível global e que a torna hoje numa das maiores estrelas mundiais. Mas, em 1997, Ellen era uma comediante com um estatuto médio, longe de saber o impacto que iria ter na vida de tanta gente em todo o mundo, na própria indústria e nas portas que derrubou para toda a comunidade LGBT. A sua sitcom durou pouco tempo depois desse coming out. À euforia e aos recordes de audiência, seguiu-se a dura perseguição, fulminando a sua carreira durante alguns anos. Arriscou tudo, perdeu tudo, mas depois logo se ergueu para um estatuto hoje dificilmente equiparável. Terá mesmo alcançado (ultrapassado?) Oprah Winfrey, a referência estelar de tantas outras minorias e lutas, que esteve ao lado de Ellen nesse coming out, mantendo-se hoje e sempre como uma forte aliada.

“The puppy episode”, o nome de código deste histórico episódio duplo, mudou tudo. Mudou para os milhões que o viram em todo o mundo e também para mim. Ao vermos os testemunhos das pessoas a falarem sobre este “I’m gay”, todas dizem o mesmo: deu-me força, percebi que não estava sozinh@, deixei de ter medo,… Ninguém falava de ser gay ou lésbica. Era um não assunto. Ellen ensinou-nos a visibilidade, o orgulho, a dificuldade de lá chegar e a autenticidade e liberdade de sair do armário.

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Ensinou-me também a mim a rir-me com ela. Aqui, do outro lado do oceano, talvez há 18, 19 anos, possibilitou-me um espelho onde, até então, não havia absolutamente nenhum. Hoje, revi as duas partes deste episódio (aqui e aqui), e apercebi-me que sabia todas as falas. Vi este episódio tantas vezes que ficou gravado na minha mente, e acho que o usei em conversas (e cantadas) tantas mas tantas vezes quantas provavelmente o vi. A piada da tostadeira, usei-a com um orgulho desmedido. A do gelo, a da recruta gay, a das vibrações, e tantas outras piadas que se colaram à minha maneira de ser e perceber esta coisa de ser lésbica, mas sobretudo essa tremenda experiência de sair do armário para as outras pessoas, para o mundo.

Quando via este episódio sem parar numa cassete VHS que infelizmente se perdeu, ainda não me tinha assumido como lésbica para a minha mãe e para o meu pai, e sei que foi também graças a essa cassete que consegui dar esse passo. Compreendi rapidamente que seria para sempre um ensinamento, porque todos os dias são dias de sair do armário para uma lésbica ou para qualquer outra pessoa LGBT.

Que a Ellen se tivesse transformado numa estrela incomparável, mainstream, com um programa simpático da tarde televisiva que oferece presentes, é a maior das recompensas. Um sonho que ninguém será capaz de terminar, porque o amor, a gentileza (como ela sempre diz), venceu o ódio.

Para comemorar estes 20 anos, o melhor é mesmo rirmo-nos com o episódio, apreciando a qualidade e a coragem deste “The Puppy episode”. Saudemos este passo gigantesco, que salvou a vida a tanta gente, que iluminou tantos pensamentos negros, que trouxe a primeira alegria ao assumir da homossexualidade. A Ellen, para mim, será sempre maior que qualquer outra estrela, será sempre a mais engraçada, a mais gira, a que dança melhor, a intocável, porque a ela devo as primeiras gargalhadas sobre o lado meu que mais achava que me iria fazer chorar para sempre. E agora rio-me com alegria.

I did get the joke of the toast oven. Obrigada, Ellen.

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