Quando as expectativas parentais traem o bem-estar das crianças

Pais e mães, desejem, fervorosamente, que as vossas crianças sejam saudáveis, felizes, justas. Quanto a outros desejos, abstenham-se, especialmente daqueles que as possam impedir de ser saudáveis, felizes e justas.

Lembrei-me do poder, por vezes cego, que as expectativas de pais e mães exercem sobre os seus filhos e filhas aquando do estudo que afirma que 42% das pessoas inquiridas em Portugal sentir-se-ia extremamente desconfortável se uma das suas crianças desenvolvesse uma relação homossexual. Houve quem afirmasse que esse desconforto não era símbolo de homofobia, que simplesmente desejariam que as suas crianças pertencessem a uma maioria, pela sua felicidade, pela facilidade com que poderiam ultrapassar obstáculos, por terem melhores hipóteses de não serem alvo de bullying sobre a sua identidade (as pessoas percepcionadas como LGBTI também sofrem de bullying homo/transfóbico). Enfim, porque simplesmente desejam o melhor para os seus filhos e filhas.

Mas este raciocínio, ainda que possa ser de boa fé, carece de uma visão afastada perante a realidade: o mundo é também aquilo que fazemos dele. Ora, preferir uma determinada identidade é escolher um dos lados e ao escolhê-lo está a tomar posição perante tudo aquilo que não se encaixa no mesmo. E isto, podendo ser aplicado a identidades sexuais, de género, religiosos, ou – por que não? – raciais, é menosprezar todas essas realidades, descredibilizá-las, desumanizá-las até. É colocar uma fronteira entre um nós e um eles, é responsabilizar quem se atreva a ser de outra forma que não aquela que cumpra as expectativas criadas pela família.

Há hoje quem explique – neste caso um pai observador – a uma criança “que quem nasceu rapariga é rapariga e quem nasceu rapaz é rapaz”, ou que “ser rapariga é diferente de ser rapaz e que isto se materializa não apenas nos órgãos sexuais, mas também no tipo de comportamentos que são próprios de cada um”. Como tal, há quem conclua que “não deixaria o filho usar vestidos de “princesa””. A cegueira ideológica destas pessoas é tanta que nem se apercebem da monstruosidade do que dizem: “Que o facto de serem raparigas ou rapazes é uma realidade da sua substância que não é alterada por outras realidades acidentais, tais como os seus sentimentos ou pensamentos.”

Podemos então concluir por estas palavras que os sentimentos e pensamentos dos filhos e das filhas são “realidades acidentais”, meros caprichos, meras birras que devem ser combatidas e (re)educadas. Não fosse isso contra todas as indicações da Organização Mundial de Saúde ou das Nações Unidas, claro. Insistir na ignorância não pode servir de desculpa, porque estas são visões efetivamente perigosas, que tornam a vida de crianças e adolescentes – trans ou cis – um pouco mais difíceis, um pouco mais limitadas através da validação parental de ideias transfóbicas ou misóginas.

Pobres crianças as daquele pai. Ai delas se se reconhecerem trans um dia. Ai delas se quiserem brincar com vestidos, póneis, carrinhos ou jogar à bola e não poderem por não serem “comportamentos próprios” para meninas ou meninos. Tamanha limitação nas suas vidas, tamanha irresponsabilidade por parte de quem educa. Importa aqui ser e, mais importante ainda, deixar ser livre.

Fotografia por Jelleke Vanooteghem.


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