Porque é que tenho de deixar de procurar a aprovação dos meus bullies

Ontem escrevi um texto em resposta à piada #hitlerilas usada por Ricardo Araújo Pereira no Isto É Gozar Com Quem Trabalha e da autoria de Guilherme Fonseca. Apesar de conceder que o alvo da piada foi André Ventura, tentei explicar porque é que “larilas” nunca podia ser só a ele dirigido. Inocentemente pensei que teria conseguido passar a mensagem e que não estava a chamar ninguém de homofóbico. Estava simplesmente a tentar chamar a atenção das pessoas que iam ser dano colateral da utilização de um insulto com aquela carga histórica de violência. O que recebi de volta foi uma catadupa de homens heterossexuais a dizerem-me que não devia estar ofendido com a piada porque a ela não me era a mim dirigida e, quando disse que a violência associada à utilização daquela palavra como insulto não podia ser ignorada, fui acusado de não ter sentido de humor e de escolher conscientemente ficar ofendido com algo que não tinha nada a ver comigo.

Tudo isto teve origem nos suspeitos do costume, os que ficam ofendidos quando lhes tentamos fazer ver que são privilegiados, mas também dos homens heterossexuais que considerava serem aliados e que várias vezes pensei que estavam do nosso lado. Do meu lado. Daí ter-me levado a analisar o porquê de tudo isto me ter afetado tanto. E a resposta é simples: ainda hoje tento fervorosamente ter a aprovação de homens heterossexuais no meu quotidiano, aquilo que jamais consegui ter na infância e adolescência. Ainda quero fazer parte do grupo de rapazes e não ser o saco de pancada deles. Figurativamente e literalmente. 

Porque todas as histórias, tal como as piadas aparentemente, carecem de contexto, durante os cerca de cinco anos do meu ensino básico fui perseguido por um grupo de rapazes da minha idade ou pouco mais velhos. Um deles, o Nuno Cavaleiro, tentava sempre partir para além da ofensa verbal e para alguma violência física. Por isso não foram poucas as vezes que ouvi as palavras “paneleiro” e “larilas” no meio de socos no estômago e nas costas. Isto muito antes de me aperceber o que quer que fosse da minha orientação sexual, era simplesmente… diferente. E nos intervalos do pequeno-almoço, o Nuno também me fazia abrir a carteirinha de moedas e dar-lhe o dinheiro que a minha mãe me tinha dado para comprar um bolo no bar. Por isso evitava os recreios, escondia-me durante pausas entre aulas na casa de banho ou tentava ficar com as raparigas no intervalo mais extenso depois de almoço. Algo que não me era permitido pelos contínuos do colégio Manuel Bernardes, católico claro, que sabiam do bullying que eu estava a sofrer e continuavam a atirar-me para o covil dos lobos e ser alvo preferencial dos remates cruéis de bola de futebol no recreio. 

Por isso nunca disse nada a ninguém, nunca me queixei aos meus pais, nem a ninguém responsável na escola. Isto porque muitas vezes alguns professores, como o saudoso professor Melo, de Educação Física, faziam questão de me dirigir insultos homofóbicos e dar carta branca a que todos o fizessem. Por isso permaneci em silêncio durante anos, a refugiar-me em sítios onde dificilmente seria encontrado e evitar confrontos. Tanto que o chefe de disciplina do colégio não sabia de todo o meu nome depois de quase 10 anos lá passados. Tinha boas notas. Nunca causei problemas. Tornei-me, literalmente, invisível. 


A violência da piada homofóbica esteve em discussão, na primeira pessoa, no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈, oiçam:


Passados estes anos todos, sei que não queria ser invisível. Continuo a não querer. Por isso deixo-me frequentemente cair no erro de procurar a aprovação de homens heterossexuais, fora e dentro das redes sociais, para sentir finalmente alguma pertença num grupo que anteriormente me desprezava. Cada vez mais sinto que isso nunca irá acontecer. A reação deles, homens hétero, à minha tentativa de fazer entender o porquê da violência do uso de insultos como “larilas”, mesmo que não me sejam pessoalmente dirigidos e usados na forma de piada com fins humorísticos específicos, foi perentoriamente desconsiderada. Não querem mesmo perceber porque é que existe violência real por detrás daquela palavra. Violência, essa sim, a mim dirigida. Porque querem continuar a usá-la e a rirem-se dela. E a rirem-se de nós. E a rirem-se de mim.

Pensei longamente antes de escrever estas palavras porque sempre tentei passar despercebido e nunca me colocar no papel de vítima, isso só me tornaria mais fraco, e vulnerabilidade era um defeito que não me podia permitir ter. Mas creio que estou num ponto em que tenho de deixar de refrear estes sentimentos que antes fechava dentro de mim para me consumirem do interior e me transformarem num fantasma. Perceber que vulnerabilidade também é uma forma de força — e também estou a chegar a um momento em que tenho finalmente de deixar de procurar validação dos que nunca me quiseram ter do lado deles. Dos que me assediavam diariamente e continuam a fazê-lo de uma forma ou outra. Sei que o Nuno Cavaleiro jamais estará do meu lado e terá sempre algo contra o mero e simples facto de eu (ainda) existir. Mas garanto-lhe que vou continuar a existir. Sem a vergonha de antigamente. E agora de olhos abertos e punhos cerrados. 

Imagem: The Daily Beast

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.


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5 comments

  1. Peço imensa desculpa. Sou branco cis hetero, e só isso desqualifica-me, aparentemente, para debater este tema. Poderia dizer-lhe que tenho um irmão trans, mas isso não me dá mais qualificações. Pelo contrário, ainda me tornará mais ofensivo por não compreender o ponto de vista de quem me é próximo. Aliás, há quem diga que os trans nem deveriam fazer parte da comunidade LGBT. É o que defende o movimento Drop the T, certo?

    Todavia, acontece que na internet não nos conhecemos de lado nenhum. O que interessa não é a minha identidade, se sou branco cis hetero ou não: são os factos e os argumentos que apresento. Você não sabe se eu sou heterossexual ou não. Você não sabe se eu tenho um irmão trans ou não. Nem tem de acreditar ou deixar de acreditar. Tem de considerar os argumentos que lhe apresento.

    E isto é a prova de que as políticas identitárias têm sempre um limite. Eu tenho o direito democrático de debater este tema, apesar de ser branco, cis e hetero. Você não me pode retirar esse direito com base na minha identidade.

    O seu sofrimento é inteiramente válido e justifica que queiramos uma sociedade livre de discriminação por orientação sexual ou identidade de género. Dá-lhe o direito de falar sobre isso, em seu nome individual. Mas não lhe dá o direito de falar em nome de uma comunidade. E também não lhe dá o direito de limitar a forma como o Ricardo Araújo Pereira quer lutar por si.

    “Porque querem continuar a usá-la e a rirem-se dela. E a rirem-se de nós. E a rirem-se de mim.” Errado. E sinto-me bastante ofendido! Nunca na vida chamei larilas a ninguém que não fosse notoriamente hetero. (E agora, como é que lido com a ofensa que sofri? Fico com ela, evidentemente.)

    Não é por acaso que no seu longo texto de resposta você ignora a pergunta que lhe deixei sobre o assumir do termo “queer”. Se fosse você a mandar, o termo “queer” nunca teria sido assumido porque “existe violência real por detrás daquela palavra”. Repito e concluo: você pode falar em seu nome mas não fala em nome da comunidade. Eu espero que continue a existir, e sem vergonha, porque não tem nada de que ter vergonha; mas se vai estar de punhos cerrados, sugiro que seja à maneira dos “queer”. A sua postura de hostilizar aliados como o Ricardo Araújo Pereira só favorece os Cocós (ver Diogo Batáguas).

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  2. Acho que você está certíssimo em parar de buscar validação dos héteros. Primeiro porque acredito que a nossa validação tem que vir de dentro de nós e não dos outros. E dentro aqui significa da nossa própria consciência sobre as qualidades que possuímos, os dramas que superamos, os princípios que temos e principalmente, da convicção que precisamos desenvolver de que, independentemente de como a sociedade nos trata e classifica, nós temos sim dignidade e merecemos respeito. Segundo, porque infelizmente, a sociedade é universalmente uma pirâmide. E se você nasce com certas características será visto por muitos automaticamente como “a base da pirâmide”, não importa o que faça ou conquiste na vida. No topo desta pirâmide estão os homens héteros, brancos. Lá na base estão as mulheres negras e os gays também. Esse é o mundo que criamos, mas podemos mudá-lo com a nossa conduta e postura interna, ainda que seja apenas no nosso meio.

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  3. “E se você nasce com certas características será visto por muitos automaticamente como “a base da pirâmide”, não importa o que faça ou conquiste na vida. No topo desta pirâmide estão os homens héteros, brancos. Lá na base estão as mulheres negras e os gays também.”

    A isto chama-se “identity politics”. “Não importa o que faça”, os homens héteros, brancos são o inimigo.
    https://www.foreignaffairs.com/articles/americas/2018-08-14/against-identity-politics-tribalism-francis-fukuyama

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