O Binarismo do Bacalhau

Não deixa de ser curioso que a ideia para este texto tenha surgido aquando de uma discussão que nunca imaginei que pudesse ser tão acesa, mas se calhar estava a ser apenas inocente: a melhor receita de Bacalhau à Brás. Numa conversa animada no Twitter, rapidamente deparei com uma divisão entre pessoas que usavam batata palha na confeção do prato típico português e as que usavam batatas caseiras. Se para algumas pessoas era inadmissível a utilização de batatas de pacote, para outras era uma alternativa à falta de tempo ou jeito. O que me suscitou especial curiosidade foi que nessa mesma conversa não houve ninguém a afirmar que preferia bacalhau com batatas de pacote, mas, mesmo assim, os ânimos exaltaram-se. E que tem isto a ver com binarismo? Então, vejamos:

Nos últimos anos temos estado a assistir a uma polarização das ideias, cada vez menos existe cinzento, ou és branco ou és preto, que é como quem diz és azul ou cor-de-rosa, encarnado ou verde, direita ou esquerda. Tudo o que existir entre estes conceitos não tem hipótese de existir em ambos, somos forçados e forçadas a escolher o lado, sem nuance, sem degradê. És isto. Ou és aquilo. Nunca aqueloutro.

Tal como o bacalhau em Portugal, o modo como usamos as redes sociais tem alimentado este tipo de binarismo, criámos alter-egos que servem para vincar o quão gostamos de algo. E ainda mais para sublinhar, insistentemente, o quão não gostamos de algo. E isto criou, pelo menos de início, uma justa sensação de liberdade e de democracia. Em poucos anos, aquilo que antes estava recluso de um restrito e privilegiado grupo, estava agora acessível a todas as pessoas. Bastava ter um telemóvel, acesso à internet e um teclado onde bater umas teclas. Depois era só publicar no botão de publicar ou send ou like ou retweetar et voilá, o bacalhau sai do forno.

Quase de um momento para o outro, ganhámos forma fácil de nos fazer ouvir e contrapor o que era dito pelos membros com voz na comunicação social clássica e ter algum impacto na discussão que nos era vedada até há poucos anos. Já não precisávamos de um 24Kitchen para ver chefs a preparar bacalhau.

E isto, tenhamos essa consciência também, trouxe inúmeras virtudes, nomeadamente a visibilidade a grupos e pessoas que outrora dificilmente teriam hipótese de contar a sua história, de denunciar qualquer injustiça que sofriam ou simplesmente partilhar a sua arte. A singularidade democratizou-se. Adeus, pastel de bacalhau enfadonho. Olá, pastel de bacalhau com queijo da ilha gourmet!

Este desvio de poder – sim, porque ter voz é ter poder – irritou alguns elementos habituados ao seu púlpito sem contraponto. Então agora têm de prestar contas ao que dizem?! Não basta dizer e lacrar? Se dantes tínhamos reis e rainhas cuja palavra era lei, passámos depois para uma maior distribuição desse poder para um punhado de opinion makers – uma evolução, é certo – mas ainda assim nada comparável ao atual surgimento, que nem cogumelos, de influencers.

O ser humano é um animal fascinante, moldado pelo freudiano ego. Tal como o sal do bacalhau, se bem doseado, serve para nos emanciparmos, para superarmos quem nos armadilha, mas é terrivelmente fácil perdermos mão dos seus impulsos. Sem darmos conta, facilmente vivemos para ele, cegando-nos e secando tudo em nosso redor. Numa cultura de aprovação constante, o ego mingua sempre que deixa de ser alimentado e quanto mais o alimentamos, mais ele pede para ser alimentado. Tornamo-nos pequenos ditadores por trás de um ecrã. Mesmo não chegando a estes extremos, terei de admitir que pode ser viciante. Procuramos os likes, as partilhas e tudo aquilo que nos alimenta o ego. Quando entramos numa dessas espirais esquecemo-nos do conteúdo e favorecemos o imediatismo de uma publicação de sucesso pela sensação, cada vez mais breve, de sacio. Quando damos conta estamos enrolados e a comermo-nos a nós próprios.

É neste sentido que importa perceber em que ponto da cozedura estamos, se tendemos para o ridículo de um bacalhau seco e sem piada. Ora, quando achamos que agora temos, finalmente, uma oportunidade para defendermos de forma pública discurso de ódio, é irmos no sentido oposto ao que a liberdade por que lutámos nas últimas décadas nos ofereceu. Querer regressar ao ‘antigamente é que era’, é querer regressar ao fascismo que nos empobreceu e limitou na era salazarista, à romantização e branqueamento de uma História responsável pela exploração, escravidão, violação e morte de milhões de pessoas, é regressar ao armário de uma altura em que a homossexualidade ou identidades trans eram criminalizadas, é ver a mulher como subproduto do homem, é esquecer aquilo que aprendemos no caminho desta liberdade que, ainda que imperfeita, usufruímos. É, se pensarmos bem nas coisas, como usarmos coentros em vez de salsa no Bacalhau à Brás. Simplesmente não se faz.

Não deixa de ser extremamente irónico que numa altura em que, no que toca à temática Queer, estejamos a desconstruir estereótipos de género, quer seja em termos identitários como de expressão e, no entanto, assistimos ao oposto no que toca ao posicionamento social e político. Há um binarismo forçado na política portuguesa, no qual  os direitos humanos são vistos como uma temática de esquerda. Pior, são vistos como uma ameaça por parte de alguma direita com receio de ser vista como traidora de alegados valores mais conservadores. Pergunto, por que raio a direita portuguesa, em pleno 2020, continua a ter receio de ser uma direita moderna? Sim, existe todo um historial de resistências contra os direitos das pessoas LGBTI, das mulheres e dos seus corpos, mas porque acha boa parte da direita que não vale a pena o esforço de alterar isso? Ao não se modernizar está precisamente a ser cúmplice na polarização dos discursos, ao alimentar uma direita mais extremada e conservadora, precisamente um regresso ao passado em que minorias são instrumentalizadas para chamar ao populismo fácil e virar a população contra as mesmas.

Conhecemos bem esta técnica de tempero e no que ela pode resvalar. Quando assistimos a fenómenos como o de Trump, Bolsonaro ou, à nossa escala, Ventura, conseguimos seguir, quase ponto por ponto, o guião que os levaram ao poder. E, ainda assim, é-lhes permitido o discurso de ódio e a desinformação, escudados por uma alegada liberdade de expressão. Como se a liberdade de expressão, para existir verdadeiramente, tivesse que ser universal e absoluta, sem quaisquer limites de dignidade, ofensa ou incentivo à violência ou morte. Tem e está, aliás, na Constituição Portuguesa, por isso é ainda mais questionável que, entre tantas violações de um partido desde a sua criação, o Tribunal Constitucional continue a fechar olhos e a permitir que este atentado à democracia persista.

Este binarismo, no entanto e tal como a inocente discussão sobre Bacalhau à Brás, empola as pessoas para a sua própria polarização, mesmo que haja pontos de acordo entre vários lados. Ora, é na hesitação e no receio, que populistas se aproveitam de semânticas e significados para – uh – puxar a brasa à sua sardinha. Isto porque não se trata aqui de bacalhau, e é esse mesmo o ponto.

Quando tudo isto não passa de uma longa e mais aprofundada conversa sobre a melhor forma de confecionar Bacalhau à Brás, importa termos consciência de quem nela participa, mas, em boa verdade, não está a falar no mesmo que nós e usa esse truque para virar a conversa e, pior, virar-nos umas contra as outras. Importa também reagir, social, política e ativamente, contra quem destrói aquilo que nos une, para impedirmos que o bacalhau acabe salgado como pilha. E se torne assim irremediavelmente intragável.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.


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