As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis

As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis
Mulheres em Ravensbrück

Chamavam às mulheres de “anti-sociais”, “criminosas” ou “loucas” nos campos de concentração nazis.

Mas as mulheres lésbicas e bissexuais presas durante o Holocausto em Ravensbrück, o campo de concentração de mulheres, não eram nenhuma dessas coisas.

Muitas vezes esquecidas, durante décadas as suas histórias foram perdidas, dado que a orientação sexual das mulheres permaneceu um tabu e continuou invisibilizada na sociedade. Como resultado, é difícil saber hoje exatamente quantas mulheres foram perseguidas e assassinadas pela sua orientação sexual ou quantas delas estavam noutras categorias de prisões nos campos nazis.

Ficam aqui algumas histórias que podemos contar de mulheres perseguidas sob o período do Terceiro Reich, todas elas passaram por Ravensbrück, o campo de concentração para mulheres a 90 km a norte de Berlim. Para algumas delas, foi também onde elas terminaram a vida.

Eis algumas histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis:

Henny Schermann

Henny Schermann: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis

Henny Schermann nasceu em 19 de fevereiro de 1912 em Frankfurt. No momento da sua prisão, ela era vendedora na cidade. O seu nome era Jenny Sara Schermann, mas preferia ser chamada de Henny. Assume-se que foi presa numa rusga a um bar lésbico, tese apoiada por documentos oficiais que afirmam ela era uma “lésbica lasciva que frequenta apenas aqueles bares“.

Os documentos nazis oficiais afirmavam ser “solteira“, não lhe reconhecendo nenhuma relação estável. Também a registaram como uma “Judia Apátrida” – todas as pessoas judias perderam a nacionalidade alemã.

Foi deportada para Ravensbrück em 1940. Em 1942, foi selecionada por um dos “médicos da morte” nazi, o Dr. Friedrich Mennecke. Ele – junto com outros médicos – controlava a seleção de pessoas consideradas ‘indignas da vida’. As vítimas eram então enviadas para as câmaras de gás. Mennecke também foi responsável pela morte de crianças com deficiência. Henny Schermann foi enviada para a câmara de gás a 30 de maio de 1942 em Bernburg.

Elli Smula

Elli Smula: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis

Elli Smula, nascida em 1914, cresceu com o seu irmão Willi e a sua mãe Martha – depois de o seu pai morrer na Primeira Grande Guerra, a mãe teve de cuidar da família sozinha. Começou por trabalhar como condutora nos comboios em Berlim. Foi denunciada pelo seu empregador, a Berlin Public Transport, e foi presa a 12 de setembro de 1940 e interrogada pela Gestapo que a acusou de ter relações sexuais em festas com colegas e não se apresentar para o trabalho no dia seguinte.

A 30 de novembro de 1940, foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück. A documentação oficial registrou que o motivo da sua prisão era que ela era uma prisioneira “política” e “lésbica“. Pouco se sabe sobre seu tempo no acampamento. Mas depois da guerra, a sua mãe escreveu que a filha tinha morrido “de repente” em Ravensbrück a 8 de julho de 1943.

Inge Scheuer

Inge Scheuer, nascida em 1924, foi recrutada em 1943 para o serviço militar como “Assistente de Fuzileiros”. Ela recebeu alta por causa de seu relacionamento com uma colega e em março de 1944 foi internada no Hospital Psiquiátrico Brandenburg-Görden pelo Escritório de Saúde em Angermünde que avisou o hospital que confirmasse se sua “tendência para o mesmo sexo” tornava necessária uma medida mais severa: ser enviada para o chamado “campo de proteção à juventude” para raparigas em Ravensbrück. Inge foi libertada após seis semanas e sobreviveu à guerra.

Mary Pünjer

Mary Pünjer: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis

Mary Pünjer nasceu Mary Kümmermann em 1904 e trabalhou no negócio de moda da sua família em Wandsbek, um bairro de Hamburgo. A 24 de julho de 1940, foi presa, provavelmente durante uma rusga a um bar de lésbicas.

Passou quase três meses em celas da polícia em Fuhlsbüttel, um campo de concentração nos arredores de Hamburgo, de onde as pessoas eram frequentemente enviadas para outros campos. A 12 de outubro de 1940 foi admitida no Ravensbrück.

Documentos oficiais registaram a sua prisão por diferenças “políticas” e porque era “lésbica“. Nazis decidiram, em 1941, assassinar pessoas prisioneiras no campo de concentração gravemente doentes e que não podiam trabalhar.

Mulheres de Ravensbrück que se enquadravam nessa categoria foram enviadas para o acampamento em Bernburg, perto de Dessau e criado como um “hospital” para assassinar pessoas doentes e com deficiência sob a política nazi de (pseudo-)”eutanásia”.

Ala de extermínio em Berburg: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis
Ala de extermínio em Berburg.

Pünjer foi gaseada na ala da morte do lar para pessoas idosas e convalescentes em Bernburg, provavelmente na primavera de 1942.

Marie Glawitsch

Marie Glawitsch nasceu em 1920 na cidade austríaca de Graz. Em setembro de 1939 foi condenada a seis meses de prisão por roubo e por violar o parágrafo 129 do Código Penal Austríaco. A Seção 129 era a parte do código legal da Áustria que punia relações homossexuais. A lei descrevia-o como uma “fornicação“. Seguiram-se outras sentenças por roubo.

A 31 de outubro de 1942, aos 22 anos, Marie foi internada no campo de concentração para mulheres de Ravensbrück e rotulada como uma “criminosa profissional“. Sobreviveu ao acampamento e morreu em 1966 aos 46 anos.

Rosa Jochmann

Rosa Jochmann: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis

Rosa Jochmann nasceu em 1901 na capital austríaca de Viena. A sua mãe, uma lavadora chamada Josephine, morreu quando Rosa tinha apenas 14 anos. O seu pai, um moldador de ferro, morreu em 1920. Nesse mesmo ano, ela tornou-se representante sindical numa fábrica que fabricava tampas de vidro para lâmpadas a gás. Ajudou a criar o movimento sindical e juntou-se ao Partido Operário Social Democrata (SDLP).

No início da década de 1930, Jochmann era um membro sénior do SDLP e a sua política colocou-a em rota de colisão com o nazismo. Quando a Alemanha nazi anexou a Áustria no Anschluss em 1938 ela recusou-se a fugir.

Quando a guerra eclodiu no verão de 1939, ela já havia sido presa várias vezes. A 22 de agosto de 1939, foi presa novamente e passou meses na prisão da Gestapo antes de ser enviada para Ravensbrück em março de 1940.

Mesmo no campo de concentração, Rosa recusou-se a parar de defender as restantes pessoas e tornou-se numa mediadora entre as pessoas prisioneiras e as autoridades do acampamento. Arriscou assim um tratamento ainda mais severo, mas sobreviveu.

Quando as tropas soviéticas libertaram o campo em 1945, Jochmann ficou para trás para cuidar das pessoas doentes. Mais tarde, foi nomeada cidadã honorária de Viena. Quando morreu em 1994 de um ataque cardíaco, foi premiada com um túmulo de honra na cidade.

A sua sexualidade permaneceu secreta ao longo da sua vida, mas numa exposição de 2005 sobre a perseguição a gays, lésbicas e bissexuais, foi identificada como lésbica.


Grupos ativistas de mulheres lésbicas e bissexuais e historiadoras feministas investigam o que aconteceu em Ravensbrück desde pelo menos a década de 1980. No 70º aniversário da libertação do campo de concentração de mulheres em Ravensbrück, colocaram uma pedra memorial para as mulheres perseguidas e assassinadas, um lembrete de uma história que permaneceu escondida por décadas e das mulheres cujas histórias trágicas ainda estão perdidas na névoa do tempo.

Memorial às vítimas LGBTI do Holocausto em Berlim: As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis
Memorial às vítimas LGBTI do Holocausto em Berlim.

As histórias destas mulheres nos campos nazis não serão esquecidas.


Ep. 260 – ESPECIAL Autodeterminação de género: comunidade, famílias e especialistas no Parlamento – Dar Voz a esQrever: Notícias, Cultura e Opinião LGBT 🎙🏳️‍🌈

Nos dias 22, 25 e 26 de setembro, a Assembleia da República ouviu associações, famílias, pessoas trans e especialistas no âmbito da discussão, na especialidade, de três projetos de lei sobre autodeterminação de género apresentados por Chega, PSD e CDS-PP que pretendem reverter a lei de 2018.Neste episódio especial do Podcast Dar Voz a esQrever, reunimos algumas dessas intervenções.O foco está nas vozes da comunidade, de quem trabalha diariamente no terreno, de mães e pais de jovens trans e de especialistas das áreas da sociologia, psicologia, psiquiatria, pedopsiquiatria e endocrinologia.Optámos por não incluir intervenções que reproduzam discursos LGBTIfóbicos ou coloquem em causa a dignidade e os direitos das pessoas trans. O objetivo deste episódio é dar espaço a quem vive estas realidades, acompanha pessoas e famílias ou trabalha e investiga nestas áreas. As sessões completas estão disponíveis no site do Canal Parlamento.Artigos mencionados no episódio:Lei Histórica de Autodeterminação de Género Aprovada no Parlamento PortuguêsReino Unido: suicídios entre jovens trans aumentaram durante restrições aos cuidados de saúdeRelatório Cass: Entre a evidência científica e a instrumentalização da saúde de jovens TransPSD, Chega e CDS aprovam retrocesso na autodeterminação de género: Lei atual mantém-se por agora, mas futuro é incertoAlterações de nome e género aumentam em Portugal num ano marcado pela ameaça à lei da autodeterminaçãoAté onde nos trouxe o movimento de conquista de direitos para pessoas trans?Ordem dos Médicos critica projetos da direita sobre identidade de género: “não refletem o conhecimento médico atual”ONU pede retirada de projetos do PSD, Chega e CDS que alteram lei da autodeterminação de géneroMais de 60 entidades subscrevem comunicado que denuncia retrocesso nos direitos trans e intersexo: “A nossa autonomia não é debatível”Nenhum direito vive sozinho: porque a luta LGBTQIA+ precisa de ser interseccionalCAPÍTULOSComunidade e associações00:04:18 — Jo Matos, rede ex aequo00:06:29 — Tiago Sampaio, rede ex aequo00:10:29 — António Vale, AMPLOS00:12:55 — Patrícia Almeida, AMPLOS00:17:39 — Rita Paulos, Casa Qui00:22:49 — Beatriz Flores, ILGA Portugal00:26:57 — Daniela Bento, ILGA Portugal00:30:12 — Jo Rodrigues, Anémona00:36:40 — Helder Bértolo, Opus DiversidadesEspecialistas — intervenções iniciais00:43:35 — Sandra Saleiro, socióloga e professora universitária00:52:50 — Carla Moleiro, psicóloga clínica e professora universitária01:00:13 — Zélia Figueiredo, médica psiquiatra01:07:32 — Rui Ferreira Carvalho, médico especialista em pedopsiquiatria01:15:00 — Miguel Saraiva, médico endocrinologistaEspecialistas — respostas às questões colocadas01:22:12 — Sandra Saleiro01:30:03 — Carla Moleiro01:37:38 — Zélia Figueiredo01:43:28 — Rui Ferreira Carvalho01:49:01 — Miguel Saraiva#LGBTQ #DireitosLGBTQ #DireitosTrans #Intersexo #Autodeterminação #Portugal
  1. Ep. 260 – ESPECIAL Autodeterminação de género: comunidade, famílias e especialistas no Parlamento
  2. Ep. 259 – ESPECIAL: A luta pela autodeterminação de género e contra as práticas de conversão em Portugal
  3. Ep. 258 – UE protege mulheres trans, Chicão muda de opinião & Women Talking + Young Hearts

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4 respostas a “As histórias das mulheres lésbicas e bissexuais nos campos nazis”

  1. […] a história do triângulo cor-de-rosa nos campos de concentração e também da invisibilidade das mulheres lésbicas assassinadas pelo regime nazi. Acabamos com a celebração do não-binarismo no Drag Race inglês e […]

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  2. […] O espaço ocupado pelo instituto foi uma instalação para quem desejou fazer a transição médica há quase um século, mas também um refúgio para quem viveu sob perseguição do Parágrafo 175 da lei que tornava a homossexualidade um crime na Alemanha. Para melhor enquadramento atual, importa referir que a lei esteve em vigor de 15 de maio de 1871 a 11 de junho de 1994, com um pico de condenações durante o regime nazi. Ao todo, cerca de 140.000 homens foram condenados pela dita lei. De notar igualmente que, do outro lado do espectro, é difícil saber hoje exatamente quantas mulheres foram perseguidas e assassinadas pela sua orienta…. […]

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  3. […] Até cerca de 15.000 homens gays foram enviados para campos de concentração durante o Holocausto devido à sua sexualidade. Foram assassinados, castrados ou usados em horrendas experiências médicas em campos de concentração. Também nesses campos, milhares de lésbicas, pessoas trans e profissionais do sexo foram detidas em condições brutais. Nazis chamavam-nas de “anti-sociais”, “criminosas” ou “loucas”. […]

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  4. […] O espaço ocupado pelo instituto foi uma instalação para quem desejou fazer a transição médica há quase um século, mas também um refúgio para quem viveu sob perseguição do Parágrafo 175 da lei que tornava a homossexualidade um crime na Alemanha. Para melhor enquadramento atual, importa referir que a lei esteve em vigor de 15 de maio de 1871 a 11 de junho de 1994, com um pico de condenações durante o regime nazi. Ao todo, cerca de 140.000 homens foram condenados pela dita lei. De notar igualmente que, do outro lado do espectro, é difícil saber hoje exatamente quantas mulheres foram perseguidas e assassinadas pela sua orienta…. […]

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