Porque O Holocausto Também Passou Por Aqui

Comemora-se hoje o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, dia que pretende lembrar as vítimas do genocídio cometido pelos nazis e seus adeptos que ceifaram a vida, estima-se, a 6 milhões de judeus, 1 milhão de ciganos, 250 mil pessoas portadoras de deficiência física e mental e 9 mil homossexuais. Foi há setenta anos que neste dia se deu a libertação de Auschwitz, a maior rede de campos de concentração e símbolo maior do Holocausto.

Tendo visitado Berlim há dois anos, não deixa de ser surpreendente como a cidade conseguiu recuperar da destruição de há décadas e, com o Holocausto sempre presente em todos os bairros, monumentos, jardins, a cidade não o esqueceu e tornou-se num dos sítios na Europa que mais aposta na diversidade cultural e social.

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Memorial às vítimas LGBT do Holocausto num jardim berlinense.

Nessa semana visitei a Topografia dos Terrores. Trata-se de um museu, parcialmente ao ar livre, que apresenta a história politico-social da Alemanha e a propaganda praticada desde os anos anteriores à chegada de Hitler ao poder até ao final da Segunda Grande Guerra, passando, obviamente, pelo Holocausto. Durante a visita houve algo que me chamou a atenção e que, até à altura, não tinha ganho consciência. No meio de toda aquela lição de história absolutamente doentia, quando cheguei à secção da perseguição dos homossexuais pelos nazis senti-me um ignorante.  É certo que sabia da existência desta perseguição, é certo também que vem mencionada, mesmo que apenas brevemente, em documentários e em peças jornalísticas sobre o tema, mas a verdade é que, no momento em que cheguei àquela parte da exposição, senti um vazio e, confesso, uma vergonha por não saber mais. Apercebi-me naquele instante, visualizando aquelas fotografias de homens de cara perdida, que pouco ou nada sabia sobre as atrocidades que lhes foram cometidas na altura, por serem homossexuais. Tentando contrariar essa maldita sensação de ignorância, é esta a sua história:

Após a Primeira Grande Guerra, na primeira metade do século passado, Berlim era uma das cidades mais liberais do mundo e os homossexuais, em particular, disfrutavam de maior aceitação e liberdade para os padrões da época. Foi nessa altura que o pioneiro médico sexólogo e alemão Magnus Hirschfeld defendeu ativamente os direitos das pessoas LGBT.

A ideologia nazi sustentava que a homossexualidade era incompatível com o Nacional Socialismo. No entanto, de início, Hitler encerrou os olhos à questão, protegendo assim um dos seus homens de confiança, o homossexual assumido Ernst Röhm, líder da Sturmabteilung, a milícia paramilitar nazi, e que ajudou Hitler a ascender ao poder. Mas a partir de 1933 as organizações gay foram banidas e  livros académicos sobre a homossexualidade foram queimados.

Mais tarde, Hitler, ao considerar que ignorar a existência de homossexuais próximos do seu núcleo podia, de facto, ser uma ameaça à consolidação do partido no poder, autorizou a execução de Röhm na chamada Noite das Facas Longas, noite do dia 30 de Junho para o dia 1 de Julho de 1934, em que foram executados dezenas de filiados do Partido Nazi, numa ação de limpeza a esta e outras ameaças contra a liderança de Hitler.

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Em 28 de junho de 1935, o Ministério da Justiça fez uma emenda ao Parágrafo 175, fornecendo uma base legal para estender a perseguição nazi aos homossexuais. Os oficiais do ministério expandiram a categoria “atividades criminalmente indecentes entre homens” para incluir qualquer acto que pudesse ser interpretado como sendo homossexual. Posteriormente, os tribunais decidiram que mesmo a simples intenção ou pensamento sobre actos homossexuais já era razão suficiente para aprisionamento. Entre 1933 e 1945 foram registados 100 mil homens como sendo homossexuais pela polícia nazi nas chamadas Listas Rosa. Destes, 50 mil foram oficialmente condenados, sendo que a maioria foi aprisionada e estima-se que entre 5 e 15 mil tenham sido enviados, efetivamente, para os campos de concentração. Estes homens eram forçados a vestir roupa de prisoneiro e identificados com triângulos invertidos rosa e as mulheres lésbicas usavam os mesmos triângulos invertidos mas de cor negra.

De acordo com muitos relatos de sobreviventes, os homossexuais estavam entre os grupos mais abusados nos campos. Segundo o investigador Ruediger Lautman, a taxa de mortalidade dos homossexuais nos campos de concentração poderá ter atingido os 60%. Estes condenados foram tratados de forma extraordinariamente cruel pelos guardas que usavam os triângulos invertidos das suas roupas  como alvos para prática de tiro; espancavam-nos e violavam-nos com réguas de madeira, perfurando-lhes os intestinos; castravam-nos para os controlar, tratar ou simplesmente castigar; executavam-nos, diante de outros prisioneiros, despidos e mortos pelos cães atiçados dos guardas. Estes homens, a juntar a isto tudo, eram também perseguidos por outros prisioneiros. Alguns deles morreram às mãos dos médicos nazis em experiências científicas destinadas a localizar o gene gay, de forma a encontrar curas para as futuras crianças arianas que nascessem gay. Estes casos explicam porque os prisioneiros homossexuais tinham taxas de mortalidade nos campos de concentração superiores a outros grupos (60% contra, por exemplo, 41% no caso de presos políticos ou 35% no caso de Testemunhas de Jeová). Até elementos da Schutztaffel (SS) que fossem suspeitos de serem homossexuais eram enviados para campos de concentração onde muitos seriam mortos.

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Depois do final da guerra, o sofrimento dos homossexuais nos campos de concentração nazis não foi reconhecido em vários países, tendo, inclusive, algumas das potências aliadas recusado a libertação e a repatriação destes homens. Alguns deles foram novamente presos dadas as políticas homofóbicas que os consideravam criminosos sexuais, políticas estas que permaneceram activas na Europa durante longos anos.

Foi apenas a partir das décadas de 1970 e 1980 que, finalmente, começaram a surgir Governos a reconhecer os homossexuais como vítimas do Holocausto. Historiadores e estudos académicos sobre o assunto ignoraram por completo a questão da perseguição aos homossexuais  até essa altura. Só nesses anos começou a surgir alguma visibilidade baseada, também, nas memórias publicadas por sobreviventes. Apenas em 2002 é que um Governo alemão pediu formalmente desculpa à comunidade gay.

O Parlamento Europeu, em 2005, aquando do 60º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, fez um minuto de silêncio e aprovou uma resolução que incluía o texto:

(…)27 de Janeiro de 2005, o sexagésimo aniversário da libertação do campo de morte de Auschwitz-Birkenau na Alemanha Nazi, onde um total de até 1,5 milhões de judeus, ciganos, polacos, russos e prisioneiros de outras nacionalidades, e homossexuais, foram assassinados, é não só uma ocasião suprema para que os cidadãos europeus relembrem e condenem o enorme horror e tragédia do Holocausto, mas também para salientar o perturbador aumento do antissemitismo, e especialmente dos incidentes antissemitas na Europa, e para aprender de novo as abrangentes lições sobre os perigos de discriminar pessoas com base na raça, na etnia, na religião, na posição social, nas opções políticas ou na orientação sexual(…)

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Rudolf Brazda [acima] foi considerado o último sobrevivente Triangulo Rosa do Holocausto. Faleceu aos 98 anos em 2011, mas não sem antes contar a sua história. De ascendência checa, nasceu em Meuselwitz na Alemanha, sendo o filho mais novo no total de oito irmãos. Viveu numa zona rural, pouco vigiada pela Gestapo, e pôde assim viver com o seu namorado. No entanto, as cartas e poemas que trocavam acabaram por denunciá-lo e foram usados como prova dos seus crimes. Foi preso duas vezes e, por fim, enviado para Buchenwald a 8 de Agosto de 1942. Vale a pena ouvir as suas próprias palavras sobre a experiência e como conseguiu escapar do campo de concentração:

Numa altura em que, um pouco por toda a Europa, as políticas se extremam, é importante olharmos para trás e perceber o caminho que outras gerações fizeram. Perceber onde as suas convicções as levaram. Porque desta vez não temos desculpa. Porque sabemos. Este tipo de ideologias não podem vingar. De forma alguma. Defendem a segregação religiosa, étnica, sexual ou política baseando-se numa alegada verdade absoluta. Em nome dela são abertas portas para que ocorram perseguições e, em última instância, genocídios. E é isto que a História nos diz. Aprendamos com ela.

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Pintura de Gabriel Stoia

Fontes: link 1, link 2, link 3, link 4, link 5 e link 6.

Nota: Obrigado, mais uma vez, ao Filipe e ao Nuno pela ajuda e revisão do texto 🙂

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