O Pecado De César Das Neves

No mundo das opiniões é normal e até saudável encontrarmos aquelas que vão contra aquilo que acreditamos. É um conceito que está no seio da democracia e liberdade de expressão. Mas depois há aquelas opiniões que além de não fazerem sentido algum, nem com o maior esforço conseguimos descortinar a sua génese, não têm pés nem cabeça. Foi isso que aconteceu com o último artigo de opinião de João César das Neves no Diário de Notícias.

Analisemos algumas passagens do mesmo, mas sem antes avisar que é possível termos que recuar uns séculos de avanço civilizacional para conseguirmos entender a sua perspectiva arcaica. Assim começa:

A imprensa parece inebriada com a homossexualidade. Este fascínio ressurgiu agora nas discussões sobre adopção por casais do mesmo sexo: a generalidade dos jornalistas assumiu implicitamente apenas uma possibilidade válida, desprezando as alternativas como obscurantismo, numa promoção aberta da sodomia.

Tive que repetir este primeiro parágrafo para confirmar que tinha percebido. Mas, sim, alguém escreveu isto em pleno século XXI e, ainda para mais, num jornal dito sério. Então César das Neves abre a discussão da adopção com pormenores do que os pais ou mães, heterossexuais, ou não, fazem, ou não, na sua privacidade? Mas desde quando é que isso é critério para um casal se propor a adoptar, e amar, uma criança? Alguém que explique ao senhor que aquilo a que chama de sodomia é completamente irrevelante para o caso, seja por casais do mesmo sexo ou não.

Independentemente da posição sobre o polémico assunto, este unanimismo surpreende. Primeiro por se tratar de questão insignificante. Os homossexuais são minoria minúscula, e casados, só poucas centenas. O problema é, pois, simplesmente irrelevante. Porquê tanto ruído e paixão, no meio dos graves dramas nacionais?

A partir deste ponto, ao ler o artigo, já me encontrava em delírio e os suores frios escorriam-me pela cara. Este tipo de argumento – o que tenta desvalorizar um tema porque existem outras alegadas questões fundamentais que devem ser discutidas em vez destas supostas irrelevâncias – já foi aqui debatido. Ora, César das Neves, para além de ofender e desprezar a vida de milhares de portugueses, não compreende que em democracia discutem-se vários temas, alguns até no mesmo dia, imagine-se!, e que muitas vezes são os pequenos assuntos que fazem um país sobressair e avançar para uma sociedade mais justa para todos os seus.

Embora a posição se justifique a partir da justiça e direitos humanos, fica sempre omisso o elemento que deveria ser a prioridade: as crianças. Não existe um direito a adoptar, mas o benefício infantil em ser adoptado. Centrar a questão no casal, não na criança, é perverter a discussão.

Este é, facilmente, um dos argumentos que as pessoas que se opõem à adopção por casais do mesmo sexo mais dão. Repito-me, o interesse dos casais, hetero ou homoparentais, que se propõem a adoptar uma criança é o mesmíssimo superior interesse da criança. Não centramos a questão no casal, quem se opõe é que o costuma fazer. O foco de toda esta questão deve ser o da adopção, de uns por outros.

As explicações simplistas não colhem. Não existem conspirações surdas e maléficas, nem se vê uma opção unívoca pela perversão sexual, permanecendo abominadas outras formas, como a pedofilia. Mas deve ter-se em conta que a catequização mediática se estende a mais elementos: união de facto, divórcio, aborto, entre outros.

É a partir deste ponto, talvez por mera ingenuidade, que desisto e concluo que esta pessoa age de má-fé. Não posso compreendê-lo de outra forma quando alguém insinua comparações entre a homossexualidade e a pedofilia. César das Neves certamente perceberá que nesta última há uma vítima e numa relação homossexual saudável não. Perceberá também que a pedofilia não está associada à orientação sexual. É também por isso que são escrutinados os casais, hetero ou homoparentais, que se propõem a adoptar uma criança.

Esta atitude [liberal] também teve resultados excelentes, eliminando velhas discriminações e bloqueios, mas os abusos estão à vista. Colapso de casamentos e natalidade, solidão nas famílias desfeitas, abandono de jovens e idosos e tantos outros dramas têm terríveis impactos nacionais, não só evidentes, mas muito mais devastadores que os que ocupam os jornais.

César das Neves culpabiliza, portanto, a luta pelos direitos humanos do colapso de casamentos. Talvez não perceba que, no caso particular das pessoas LGBT, o Estado, ao reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a oferecer segurança na Lei, está na realidade a defender o casamento. Porque, pela primeira vez em Portugal, mesmo com a pressão da Igreja e de pessoas preconceituosas, o casamento pode finalmente ser um compromisso em que mais pessoas se desejam verdadeiramente. A tendência é que os casamentos por conveniência, para esconder a homossexualidade de um dos elementos, por exemplo, diminuam. E as pessoas podem finalmente viver juntas com quem realmente desejam, protegidas pelo Estado. Por isso, não, não posso ver associação de sodomias e famílias desfeitas. Em relação ao abandono de jovens, César das Neves volta a falhar. Pena que esta pessoa com opinião impressa não saiba, por exemplo, que nos Estados Unidos a maioria dos sem-abrigo jovens (40%) são-no por serem metidos fora de casa após a familia descobrir a sua orientação sexual ou por razões socioeconómicas.

Este mito da emancipação sexual está tão entranhado que é difícil de abdicar…*

Finalmente César das Neves diz algo em que me revejo, mesmo não lhe chamando emancipação mas sim liberdade. Menos mal, senhor opinador, menos mal.

*… mesmo diante do desastre.

Ah, esteve tão perto…!

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