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COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL LET’S LOVE, DE DAVID GUETTA e SIA

Simon Frith, numa análise da música popular, explicava em 1996 que “se as canções pop são narrativas de amor, e nós realmente nos apaixonamos, então as canções são, neste aspeto, narrativas das nossas vidas e dos modos como nos envolvemos e realizamos as nossas fantasias”. Atualmente, com a pandemia de COVID-19, talvez as fantasias onde imaginamos outros mundos estejam mais acesas do que nunca. A onda de arte esperançosa e onde se transmite força à população também chegou à música, mas talvez os limites entre a fantasia e a realidade estejam ligeiramente ténues. Imaginar um mundo onde as pessoas apenas se ligam pela internet já não é ficção científica, é o que muitas pessoas vivem nos dias que correm. 

LET’S LOVE é uma obra do DJ David Guetta e da cantora Sia. Foi produzida para motivar e inspirar as pessoas a ultrapassar a pandemia de COVID-19. Numa entrevista, David Guetta diz que a música surgiu num momento onde sentia que o mundo entrava em depressão, por isso enviou uma mensagem a Sia e, segundo consta, escreveu: “Can we save the world with a happy record and go against the trend?” O vídeo musical foi realizado por Hannah Lux Davis, uma realizadora com uma carreira extensa nesta área. O amor e a felicidade são construídos por uma música inspirada nos sons da década de 1980, e uma narrativa audiovisual centrada na relação entre duas pessoas. Que géneros e sexualidades estão expressas no vídeo musical? Porque será que para ir contra a corrente, David Guetta e Sia adotaram uma estética musical do passado? Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora.

A música está no estilo de synthwave, também conhecido como retrowave ou outrun, que é uma tendência recente de eletrónica onde se usam instrumentos analógicos e técnicas para criar canções que soam como a música de 1980s. Não há como escapar aos estereótipos audiovisuais daquela época, às referências a uma cultura de videojogos e ao cenário fora da realidade virtual com tecnologia holográfica que o faz entrar no mundo de Blade Runner. Apesar de o ciberespaço poder ser libertador, o vídeo deixa muito claro que só existem casais heterossexuais. Surpresa das surpresas, é revelado no vídeo que, afinal, a mulher que aparece na imagem é o avatar de um homem (o que levou muita gente a comparar com o episódio “Stricking Vipers” de Black Mirror, incluindo eu próprio). Sobre isto podemos pensar que é inclusivo, só que o vídeo cai no erro de reforçar a ideia de que na internet podemos ser quem quisermos, incluindo ‘fingir uma pessoa que não se é’. O homem com avatar feminino nunca, em nenhum ponto do vídeo, revela a sua identidade ao parceiro. Outra leitura possível é que o protagonista é uma pessoa trans que não se sente confortável com o seu corpo. Ainda assim, nunca nos fornecem a conclusão, e a audiência pode apenas especular se esta relação amorosa pode ou não resultar no mundo real. Como a letra é sobre a pandemia, a mensagem de que juntos irão ultrapassar tudo pode ser atribuída ao vídeo. Se assim for, fornece uma pista de que para além dos limites do ecrã o espetador pode imaginar que a relação tem o final feliz dos filmes românticos de 1980!   

Os dois protagonistas têm as suas identidades construídas através de música inaudível. O que quero dizer com isto é que existem objetos na imagem que nos apontam para o seu gosto musical. O homem branco vive no local mais pobre, e tem um busto de Beethoven na sua cómoda. Por outro lado, o homem negro é rico e tem uma guitarra elétrica no seu quarto. Encontramos aqui uma reversão nos papéis, porque a representação de uma cultura negra não está ligada à pobreza e a branca à riqueza. Existe um plano onde tudo assume uma conotação mais literal. A família negra está vestida de preto e é servida por um funcionário branco, igualmente vestido pela mesma cor, mas se repararmos no protagonista ele veste preto e branco. Recordo que na minha análise a Janelle Monáe indiquei que ela vestia roupa preta e branca. Na altura não mencionei, mas isso é uma estratégia da artista para desconstruir os estereótipos de raça, porque quando inclui as duas cores constrói um símbolo de união (aqui temos a mesma estratégia). 

Na música que as personagens ouvem e praticam observamos a mesma lógica de inversão. Beethoven simboliza a cultura erudita, mas está nos hábitos de escuta da família de classe baixa, enquanto a guitarra elétrica significa a cultura popular, mas aqui pertence à prática musical da classe alta. A ideia geral do vídeo seria que não interessam as diferenças culturais, nem género ou a etnia, pois todos são capazes de se amar. 

O ciberespaço tem também algumas conotações interessantes. Durante a pandemia existe o dever de ficar em casa, e o isolamento levanta uma importante questão social. As pessoas confinadas deixaram de realizar atividades como sair à noite e conviver com os amigos, e o vídeo espetaculariza o mundo de relações interpessoais por meio da internet. Isso tem um caracter positivo porque demonstram uma realidade onde é possível levar uma vida ‘normal’. O problema surge quando verificamos que a única coisa que fazem na simulação é celebrar, e de uma forma muito típica do synthwave: a representação de um mundo de festas noturnas ou ao pôr do sol, bebidas, carros, e verão 24h por dia!  

Para quem gosta de música eletrónica que forneça um ambiente de descontração, esta obra está, sem dúvida, no ponto. No meu encontro com o vídeo musical, o que criou um verdadeiro embate, quase diríamos guilty pleasure, foi sentir que aprecio a música e a estética geral do vídeo ao mesmo tempo que sou incapaz de silenciar o meu sentido crítico. Afinal de contas, se a música vai (de acordo com David Guetta) contra a corrente depressiva e melancólica do momento, porque é que as imagens nem sempre vão? É verdade que o espaço virtual de LET’S LOVE está cheio de vivacidade, cor e carisma, e que os avatares procuram representar apenas o que existe de melhor no ser humano. Contudo, a carga simbólica dos papéis de género, muito vincados no cinema da década de 80, e trazidos pelo estilo musical synthwave, não apaga um momento cultural cheio de problemas que o vídeo parece nem sempre ser capaz de ultrapassar. Qual é a mensagem geral do vídeo? Que agora, durante a época do COVID, devemos abraçar a tecnologia e viver aquilo que não somos capazes no mundo real? O que isso significa para a nossa autoaceitação? Não tenho respostas, apenas estímulo a reflexão e forneço pistas para que todos possamos pensar sobre a construção desta identidade sonora.   


T7 | Ep.12 – BONEKINHA: UÉ, Autárquicas, Gloria Groove e Queer Lisboa Dar Voz a esQrever: Pluralidade, Diversidade e Inclusão LGBTI 🎙🏳️‍🌈

O nonagésimo sexto episódio do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙️🏳️‍🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Falamos do artigo do Diogo Pereira sobre a iniciativa anti-homofobia na União Europeia, do feito pelo André Malhado a analisar o novo video de Gloria Groove e ainda falamos das Autárquicas desta semana e das nossas idas ao Queer Lisboa. No Dar Voz A… destacamos Star Crossed, o novo álbum da Kacey Musgraves e o regresso de Sex Education. https://open.spotify.com/episode/3oZ3gCsKRFi6dGnVwD6ovH Para participarem e enviar perguntas que queiram ver respondidas no podcast contactem-nos via Twitter e Instagram (@esqrever) e para o e-mail geral@esqrever.com. E nudes já agora, prometemos responder a essas com prioridade máxima. Podem deixar-nos mensagens de voz utilizando o seguinte link, aproveitem para nos fazer questões, contar-nos experiências e histórias de embalar: https://anchor.fm/esqrever/message 🗣 – Até já unicórnios 🦄 Música por Gloria Groove; Jingle por Hélder Baptista 🎧 Este Podcast faz parte do movimento #LGBTPodcasters 🏳️‍🌈
  1. T7 | Ep.12 – BONEKINHA: UÉ, Autárquicas, Gloria Groove e Queer Lisboa
  2. T7 | Ep.11 – Birthday Cake: Homofobia nas Autárquicas, 'Preferência Sexual', Queer Lisboa e The White Lotus
  3. T7 | Ep.10 – Whole Lotta History: Paulo Rangel, Robyn Lambird, Kylie Sonique Love e Sarah Harding

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