Liberdade para quem? A Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto e o dilema do 25 de Abril

Liberdade para quem? A Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto e o dilema do 25 de Abril

A 21ª edição da Marcha do Orgulho do Porto, tradicionalmente realizada entre junho e julho como parte das celebrações do Mês do Orgulho LGBTI+, foi este ano agendada para o dia 25 de Abril. Uma decisão anunciada com apenas quatro dias de antecedência e que gerou ondas de reação na comunidade.

O anúncio foi feito no dia 21 com a publicação do cartaz da marcha que inclui a imagem de Gisberta e a legenda Desculpa, Gisberta.

A Comissão Organizadora justificou esta decisão como uma resposta à necessidade de reafirmar a luta pelos direitos LGBTI+ no contexto das comemorações do 25 de Abril, o Dia da Liberdade e um dia que celebra a queda do regime autoritário em Portugal.

Importa notar que a decisão não foi unânime, tendo algumas entidades chegado a manifestar publicamente o seu distanciamento, sublinhando que a data escolhida corre o risco de diluir a mensagem da marcha num dia já de si carregado de simbolismo político e social.

Gisberta, memória da liberdade ainda por cumprir

O texto do cartaz é explícito na crítica: “Disseram-nos que Abril trouxe liberdade, mas não disseram para quem.” A referência a Gisberta, mulher trans assassinada há 20 anos em circunstâncias que revelaram a violência sistemática contra pessoas LGBTI+, serve como memória de que a liberdade prometida em 1974 não chegou a todas as pessoas. A marcha, assim, assume um caráter de protesto contra o apagamento histórico e a falta de justiça para vítimas de violência estrutural.

As comemorações oficiais do 25 de Abril no Porto, que incluem concertos, o Desfile da Liberdade e homenagens a resistentes antifascistas, contrastam com a mensagem da marcha. Enquanto estas celebrações reforçam a narrativa da liberdade conquistada, a Marcha do Orgulho do Porto questiona: liberdade para quem? A pergunta é um apelo à reflexão sobre quem ainda fica para trás, mesmo num país tem avançado em matéria de direitos humanos nas últimas décadas. E isto sem minorar os ataques mais recentes de que é alvo.

Abandonar o Mês do Orgulho é um tremendo risco, até para a segunda maior Marcha do país

Mas há um enorme mas nesta mudança de última hora. Ao entrar numa lógica de declarada competição por espaço e visibilidade no 25 de Abril (há quem lhe chame contramanifestação), esta decisão corre o risco de criar um vazio nos meses tradicionalmente dedicados ao Orgulho. Junho é o Mês do Orgulho LGBTI+, um período de celebração e reivindicação que, ao longo dos anos, tem servido para unir a comunidade em torno de objetivos comuns. Qual o plano para garantir que a voz da comunidade LGBTI+ não se perde no Porto?

Quando a Marcha do Orgulho do Porto é deslocada, ainda por cima à última da hora, para abril, não só corre o perigo de diluir apressadamente a sua mensagem num dia já cheio de simbolismo político, como também o de esvaziar junho e julho de uma das suas lutas mais visíveis.

Em vez de se unir às celebrações do 25 de Abril, juntando a sua força e luta às do Dia da Liberdade, a Comissão escolhe realizar um outro momento. Mas esta divisão implica também uma escolha para quem quiser celebrar o dia: 25 de Abril ou Marcha do Orgulho. Esta é uma decisão que ninguém deveria ter de fazer.

É certo que a luta contra a opressão não é sazonal, mas arrisca-se assim a ser empurrada para segundo plano e a dividir a comunidade. E isso é algo que ninguém – pelo menos quem celebra a liberdade e a democracia – poderá defender.

Num ambiente cada vez mais hostil contra os direitos de minorias e contra organizações ativistas, talvez haja uma justificação de bastidores para esta escolha que ainda desconheçamos. Até lá, aguardemos a devida resposta.


Subscreve à nossa Newsletter Semanal Maravilha Aqui! 🙂
Todos os sábados de manhã receberás um resumo de todos os artigos publicados durante a semana. Sem stress, sem spam, a nossa orgulhosa Newsletter Semanal pode ser cancelada a qualquer momento! 🏳️‍🌈


A esQrever no teu email

Subscreve e recebe os artigos mais recentes na tua caixa de email

Deixa uma resposta

Apoia a esQrever

Este é um projeto comunitário, voluntário e sem fins lucrativos, criado em 2014, e nunca vamos cobrar pelo conteúdo produzido, nem aceitar patrocínios que nos possam condicionar de alguma forma. Mas este é também um projeto que tem um custo financeiro pelas várias ferramentas que precisa usar – como o site, o domínio ou equipamento para a gravação do Podcast. Por isso, e caso possas, ajuda-nos a colmatar parte desses custos. Oferece-nos um café, um chá, ou outro valor que te faça sentido. Estes apoios são sempre bem-vindos 🌈

Buy Me a Coffee at ko-fi.com