Perfume Genius, Máscaras E Batom

Hoje trazemo-vos mais um texto do Nuno ( ❤ ), onde ele partilha a experiência que viveu no concerto de Perfume Genius, um carismático artista que questiona e provoca a sexualidade na sua obra, a sexualidade sua e a nossa. Leiam:

No family is safe when I sashay.

Poucos viram Perfume Genius aquando da sua primeira passagem por Portugal em 2012. O sol ainda estava longe de se pôr no palco secundário do Super Bock Rock enquanto Mike Hadreas de Seattle se apresentava à (reduzida mas entusiasta) plateia portuguesa. Tímido e introspectivo, percorreu as curtas mas acutilantes e cruas canções de Put Your Back N 2 It e do anterior Learning, e não deixava adivinhar as garras que se escondiam por baixo da sua frágil figura, apenas vislumbradas num caleidoscópio de cores esquizofrénicas que passeava pelas suas unhas.

Mas os que tiveram oportunidade de voltar a encontrar-se com o artista, num dos concertos mais concorridos do Vodafone Mexefest no passado fim-de-semana em Lisboa, terão tido uma estrondosa surpresa. Este Perfume Genius já não é o mesmo e se tal já se fazia adivinhar pela sonoridade mais agressiva e negra do brilhante Too Bright, talvez o seu melhor disco, a realidade é que a postura quase bélica imposta pela sua figura sinuosa e hipnotizante foi totalmente devastadora.

Não que Mike Hadreas alguma vez se tenha escondido. Assumidamente gay desde o início, nunca evitou na sua música temas tão pessoais e trágicos como a violência doméstica ou contemplação do suicídio. Eles eram feridas expostas que transportavam nas canções e na sua voz quebrada uma dor tremenda e traumática. Mas a forma como se apresentava era inevitavelmente constrangida, predominantemente com o intuito de se proteger contra o já habitual e nefasto preconceito.

No entanto é nesta personagem que reside talvez a sua verdadeira identidade. Totalmente de negro – inclusivamente nas reluzentes botas de salto alto – e com um batom vermelho carmim numa androginia quase Lynchiana, movia-se no palco totalmente possuído pela sua própria catárse. Nunca se adulterando. O equilíbrio, dado pela incarnação de temas vorazes como Grid ou Queen – colossal single de apresentação do novo disco cujo vídeo joga inteligentemente com a afirmação de um identidade desconjuntada – e contrapostos pela serenidade inquieta de Dark Parts ou Lookout, lookout, é celebrado na junção dos lados opostos da máscara que se deixa cair. Pela primeira vez não pede respeito, exige-o. As feridas e o sangue são agora parte de uma intensa vulnerabilidade que se tornou na sua maior e mais feroz arma. Contra o preconceito e todos aqueles que o defendem. Ele não os irá tolerar.

 

Anúncios