O Cinema (não gay) de ‘Happy Together’

Muitas vezes se fala do crescimento do cinema gay e da importância do mesmo na integração da comunidade LGBT na sociedade. Mas o cinema gay reflecte nada mais que um tipo de cinema melodramático de nicho que só encontra lugar junto da própria comunidade. Frequentemente são histórias em jeito de telenovela centradas num casal homossexual e cuja pretensão artística é tão e somente essa, ignorando totalmente toda a intenção de verdade que ela podia conter. Assim derrota-se um dos maiores propósitos do cinema enquanto arte: o de atingir uma exaltação emocional que se torne universal na sua dimensão e compreensão.

Mas nas décadas passadas a realidade era bem diferente da que se vive hoje e a ambição de um fugaz reflexo em dramas que incluíssem o tema da homossexualidade era muito maior do que as vezes que ele conseguia singrar num circuito mais comercial. Como tal, essa necessidade de identificação e reflexão era saciada quase exclusivamente pelo circunscrito cinema gay. Contudo, alguns filmes em toda a História do Cinema conseguiam, em épocas em que tal era bastante impopular e menosprezado, simultaneamente retratar a realidade e experiência gay e livrar-se de categorizações desnecessárias e preconceituosas.

Wong Kar Wai, realizador chinês emergente de uma vaga de cinema mais experimental proveniente de Hong Kong nos anos 90, não foi um dos primeiros a abordar a temática gay. Todavia, ‘Happy Together‘, estreado em 1997 e aclamado pela crítica com o prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes, não deixa de ser absolutamente pioneiro. Retrata a vivência de um casal chinês que viaja e emigra para Buenos Aires na esperança de tentar consolidar a sua relação atribulada. Apesar de inúmeros rompimentos e reatamentos, a instabilidade emocional de um dos membros do casal acaba por disromper a ligação que construíram e a traição recorrente acaba por ser fatal.

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O romantismo enaltecido de Wong Kar Wai é um dos seus maiores trunfos enquanto autor e na estilização visual, por vezes isenta de palavras e apenas engrandecida por incisivas composições musicais, constrói aquilo que é a sublimidade do seu cinema, cujo expoente máximo talvez continue a ser ‘In the Mood For Love‘; não esquecendo a sua atípica sequela ‘2046‘ nem ‘Days of Being Wild‘, ‘Chungking Express‘ ou ‘Ashes of Time‘. Em ‘Happy Together’ esses pontos de ligação das suas histórias estão bem patentes e adequadamente inalterados pelo facto do casal principal não corresponder aos padrões tradicionais do que é suposto ser o Amor em Cinema. Existem neles a mesma tragédia de quase todos os seus casais, seres emocionalmente inaptos e incapazes de co-habitar um espaço comum onde ambos possam existir.

Tony Leung, actor fetiche de Wong Kar Wai e uma das mais talentosas estrelas do cinema oriental, é absolutamente perfeito no seu retrato dilacerado do romântico Lai, que tenta a todo o custo lutar por um amor condenado pela volatilidade emocional do auto-destrutivo Ho. Este é protagonizado por Leslie Cheung com o brilhantismo de alguém cuja tragédia pessoal ultrapassava aquela demonstrada em frente à câmara. Cheung, também ele uma estrela maior do cinema e música chineses, suicidou-se com apenas 46 anos e depois de longos e esgotantes períodos de depressão.

A história de Lai e Ho e a relação doentia de dependência e traição que os unia e separava não é estranha ao mundo gay. Mas também não lhe é de todo exclusiva e é nesse tom de universalidade que Wong Kar Wai a filma. A Foz do Iguaçu, representação pictórica e emocional de um sonho não concretizado, aparece ao longo de todo filme como lembrança daquilo que nunca foi, sempre despertada por mais uma ruptura inultrapassável. No início do filme é acompanhada por Caetano Veloso e a sua avassaladora ‘Cucurrucucu Paloma‘, num dos exemplos máximos do seu Cinema.

E assim esta e muitas outras obras-primas perturbam por completo o estereótipo redutor que é o cinema gay. São elas também que irradicam a necessidade desse rótulo sequer existir.

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