A vitória de Måns Zelmerlöw na Eurovisão: um herói dos nossos tempos?

Ontem, não surpreendentemente, a Suécia venceu mais uma edição do Eurovision Song Contest, o sexagésimo desde o seu início em 1956 e o sexto galardão arrecadado pelo país escandinavo, aproximando-se cada vez mais do recorde de sete vitórias atingidas pela Irlanda, que este ano, à semelhança de Portugal, não participou na grande final. O tema deste ano foi “Building Bridges“, reforçando o intuito de construir pontes entre os vários países constituintes, mesmo que as suas políticas internas sejam altamente discordantes.

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Ainda assim, a jovem talentosa Polina Gagarina, representante da Rússia e que com uma música unificadora esteve perto de ganhar, sofreu represálias por parte do público presente, maioritariamente LGBT, incapaz de separar a identidade cultural e artística de um país das práticas sociais bárbaras que nele se praticam. Uma atitude compreensível mas que acaba por ser ela própria extremamente discriminatória. Não conhecemos Gagarina nem as suas posições pessoais acerca do assunto, logo não a devemos julgar como se fosse um peão da política de Putin. O apoio dado a Gagarina durante as votações por Conchita Wurst, a grande vencedora do ano passado, e o encontro das duas durante as festividades reflectem exactamente esse espírito de abertura que devemos compartilhar.

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Em relação ao vencedor, o sueco Måns Zelmerlöw com o tema “Heroes“, também foi alvo de acusações homofóbicas desde a sua vitória nacional até hoje devido a um infeliz e mal entendido comentário feito há mais de um ano na televisão sueca em que na tradução soou a “não é igualmente natural que homens queiram dormir um com os outros” e que a homossexualidade é uma “anormalidade”. Uma palavra que em sueco significa “algo que foge à estatística e ao mais comum” irou e continua a irar a comunidade LGBT mesmo em meios de informação como o PinkNews, a Attitude e, hoje, até surgiu na New Musical Express.

A realidade é que Zelmerlöw é tudo menos homófobo. Desde esse desentendimento já pediu desculpa inúmeras vezes, em entrevistas, participações em eventos e em comunicados pessoais, e reforçou tratar-se de um péssimo uso de linguagem da qual o próprio, tendo inúmeros amigos gay, se envergonha. Essas fontes omitem também que Zelmerlöw é na realidade um forte aliado da causa LGBT na Suécia, tendo inclusivamente apresentado a QX Gay Gala do ano passado, previamente à sua vitória nacional. Muitos podem alegar que se trata de controlo de danos, mas ontem depois de um abraço efusivo e sentido a Wurst aquando da sua vitória discursou “Só quero dizer que independentemente de quem amamos, quem somos e no que acreditamos, todos somos heróis”.

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É importante, diria mesmo crucial, que não percamos tempo em procurar inimigos onde eles não existem e reconhecer os nossos aliados. A luta é longa e as batalhas contra políticas instauradas em certos países da Europa, especialmente fora dela, cada vez mais extenuantes. Por isso vamos celebrar o herói Måns Zelmerlöw pelo que ele é e assume ser e não por uma gaffe passada.

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