Orgulho LGBT Para Totós: Capítulo I

Na sequência do mês do Orgulho LGBT que se comemora ainda até ao final de Junho, muitos têm sido os comentários que inundam as redes sociais sobre a real necessidade do mesmo. Num tom que se quer humorístico e sardónico, tentamos responder a essas perguntas de forma directa e curta. E jamais pretendemos advogar que estes escritos reflectem outra opinião que não a nossa, individual e única e decerto também falhada e incompleta por natureza. O que nos leva de imediato à primeira balela:

Balela #1 – “Esses gays são todos iguais”

Sim, somos todos iguais. Tal como os heterossexuais são todos iguais: espampanantes, vaidosos, barulhentos e a esfregarem constantemente a sua sexualidade na cara da sociedade. Ou será este um estereótipo absolutamente absurdo atribuído à comunidade LGBT que somente pode ser defendido em jantares de apoio a Marinho e Pinto? Certo que esses “estereótipos” existem e têm tanto direito de exibir a sua identidade como os heterossexuais o fazem diariamente sem se preocupar com rótulos. Mas a população LGBT é tão diversa quanto a heterossexual. E, nem de propósito, vem aí nova balela.

Balela #2 – “Ah mas ele nem tem aspecto gay nem nada”

Pois, pelos vistos existe um guia de comportamento e dress-code homossexual ala Paula Bobone que parece ser entregue a toda a gente menos aos mesmos. Eu pelo menos ainda estou à espera do meu kit de iniciação com as plumas e as lantejoulas. E já passaram uns anos bons desde que a primeira borboleta me saiu das orelhas. Senhores e senhoras, não existe nada que defina fisicamente alguém que seja homossexual, tal como não há quem se aperceba do tipo de roupa interior que determinada pessoa usa pela linda cor dos olhos. Eu próprio até posso ir rua abaixo e só dão conta de que sou uma grande bichona quando começo a dançar Beyoncé agressivamente contra um transeunte.

Balela #3 – “Por que precisam agora os gays de andar a exibir-se e a marchar?”

Porque toda a gente sabe que não resistimos a uma boa festarola e de dançar de rabo ao léu. Não sendo necessariamente uma mentira, estão a falhar o real intuito da Marcha e Arraial Gay promovido, e bem, pela ILGA e pela Câmara Municipal de Lisboa. Estamos a marchar e a “exibir-nos” porque, infelizmente, ainda o precisamos de fazer. Porque somos diariamente discriminados pelas nossas famílias, empregadores, legisladores e sociedade em geral. Somos uma minoria que não quer ser mais invisível e somente quer ter os mesmos direitos legais e humanos que todo o resto da população toma como garantido. Como a de um casal heterossexual andar de mão dada na rua sem receber olhares inquisidores ou de troça. Ou de não ter de mentir por omissão em almoços de família. Ou de sentirmos estar a trair aquele/a que amamos por não podermos reconhecê-lo/la como tal sem represálias. Talvez quando atingirmos o ponto de tal não ser mais necessário deixemos de marchar mais e será um dia feliz para todos. Ou não. Até porque marchar ao Sol ajuda a abater a banhinha para podermos vestir sungas na praia e incomodar toda a gente com os nossos glúteos tão irritantemente bem definidos que parecem desenhados por Michelangelo.

Balela #4 – “Por que não o dia do orgulho heterossexual?”

E por que não o dia do homem caucasiano heterossexual, assim para ser mais específico? Desde que rapem os pêlos das costas para conseguirem andar só de tanga cor-de-rosa pelo Chiado, tudo bem. Não querendo chamar o nosso querido leitor fictício – porque estando aqui se calhar não fará esta pergunta – de energúmeno, isso só irá acontecer quando as mulheres e a comunidade LGBT dominarem por completo os homens heterossexuais e estes passarem a ganhar salários inferiores e ser eles os discriminados da sociedade. Nesse dia serei o primeiro a subscrever uma petição a exigir o “Dia do Orgulho Heterossexual”. E o primeiro a levar a chibata para me desimpedirem as ruas pois tenho mais que fazer que andar a tropeçar em machões quando quero ir ao shopping.

Balela #5 – “Mas nada contra, eu até tenho amigos que são”

Que coincidência! Eu também! Isto é o equivalente a dizer a alguém de raça negra “nada contra o tipo de pele com que nasceste, não faz o meu estilo e até me digno a falar com pessoas da tua laia”. Sim, tal como a raça, ser-se gay/lésbica/ transgénero não é algo que decidamos fazer num dia de Inverno mais aborrecido e cinzento quando não nos apetece mais ver repetições da série “O Sexo e a Cidade”. É algo com que nascemos e que em determinado ponto da nossa vida ta única ESCOLHA que temos é a seguinte: “ou nego a minha identidade e mantenho-me em segurança vivendo até à morte uma mentira ou se necessário morro na plenitude de saber quem sou e não o querer esconder nem conseguir esconder”. Porque não se iludam, se agora na Europa Ocidental e América do Norte gozamos de uma época de mudança lenta mais positiva, em quase todo o resto do mundo ser-se gay equivale a discriminação socialmente aceite, prisão ou até mesmo uma sentença de morte. E se há neste momento pessoas a morrer devido a quem são no seu âmago, acho que podem passar um mês por ano a olhar para bandeiras arco-íris a passearem-se pelas ruas. Na volta podem até pegar numa! São tão coloridas!!!

Balela #6 – “Novamente, nada contra, mas não acho bem deixarem homossexuais estarem nos balneários. Sinto-me incomodado e com medo de ser abordado sexualmente”

Amigo, se tens medo é porque queres qualquer coisa não? Se achas que vamos para balneários como se fosse um peep-show na Baixa ou andar a tentar dar encontrões fortuitos de moda a dar origem à letra de uma música pimba estão muito enganados. Temos tendência até a ser os mais discretos de todos os utilizadores de tais espaços. Ao contrário de certas pessoas que andam a bambolear os ditos enquanto discutem com os amigos os resultados do Sporting e a última “gaja que comeram”. Se se sentem objectificados ainda bem, é aquilo que andam a fazer insistentemente às mulheres durante décadas e a gabarem-se de feitos tão nobres quanto levar “esta e aquela para a cama”. Por isso aguentem-se à bronca ou então desviem-se que estão a obstruir-nos a visão.

Balela #7 – “São lésbicas porque ainda não encontraram o homem certo”

E tu és heterossexual porque ainda não encontraste aquele garanhão que te vai agarrar pelos braços e chamar-te Anita. Cuida-te.

Com esta me fico. Capítulo II para breve.

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