“Viver e deixar viver”: novo estudo revela passado inesperado da vivência gay na Irlanda do Norte

Walter Smith e Arthur Fitzsimmons, amigos de David Strain.
Fotografia: Gabinete de Registos Públicos da Irlanda do Norte.

Durante décadas, a Irlanda do Norte construiu uma reputação marcada pela homofobia institucional, religiosa e política. Desde as campanhas moralistas de Ian Paisley contra a despenalização da homossexualidade até às operações policiais encobertas contra homens gays em parques e casas de banho públicas, a região tornou-se símbolo de repressão LGBTQ+ no Reino Unido. O casamento entre pessoas do mesmo sexo só seria legalizado em 2019.

Mas um novo estudo histórico vem desafiar a ideia de que essa hostilidade sempre existiu da mesma forma. O historiador Tom Hulme defende que, entre a era vitoriana e o início do século XX, existia na Irlanda do Norte uma espécie de tolerância silenciosa relativamente a homens gays.

A “tolerância benevolente” antes da libertação gay

No livro Belfastmen: An Intimate History of Life Before Gay Liberation, publicado esta semana, Hulme descreve uma cultura de “benevolente tolerância”, onde muitas famílias, amizades e até empresas reconheciam implicitamente a homossexualidade de alguns homens, desde que esta permanecesse discreta.

Esperava encontrar repressão, mas havia uma espécie de tolerância benevolente”, afirmou o investigador ao The Guardian. Segundo Hulme, existia um entendimento tácito de que certos homens “não eram do tipo de casar”, viviam sozinhos ou mantinham relações masculinas próximas, sem que isso fosse necessariamente transformado em escândalo público.

O silêncio funcionava como mecanismo de sobrevivência. “Enquanto estas coisas permanecessem não ditas, podiam essencialmente existir”, explica. Não se tratava de aceitação aberta ou igualdade social, mas de uma convivência discreta onde o segredo permitia algum espaço de existência queer.

Comunidades que fechavam os olhos

A investigação baseia-se em arquivos públicos, cartas privadas e diários pessoais, incluindo os extensos registos de David Strain, um protestante de classe média que documentou a sua identidade sexual ao longo de décadas. Hulme encontrou também casos de homens acusados de “indecência sexual” cujas famílias ou patrões pagavam fianças, testemunhavam a seu favor em tribunal e os recebiam novamente em casa ou no trabalho após a prisão.

O historiador sublinha que a experiência continuava a ser profundamente marcada pelo medo e pela criminalização. Ainda assim, muitos homens conseguiam reconstruir as suas vidas porque as comunidades locais optavam frequentemente por “fechar os olhos”, desde que houvesse discrição.

Essa lógica de invisibilidade consentida acabaria, contudo, por entrar em choque com as mudanças sociais do pós-guerra. Hulme defende que o verdadeiro “pânico moral” em torno da homossexualidade só ganhou força nas décadas de 1950 e 1960, quando líderes políticos e religiosos começaram a sentir necessidade de afirmar publicamente uma posição moral contra as pessoas LGBTQ+.

O backlash conservador e a luta pelos direitos

Foi nesse contexto que figuras como Ian Paisley transformaram a oposição à homossexualidade numa bandeira política e religiosa. Durante os Troubles, o conflito político e sectário que marcou a Irlanda do Norte durante décadas, as denúncias contra pessoas LGBTQ+ intensificaram-se.

Ainda assim, o ativismo persistiu. O histórico caso de Jeff Dudgeon no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em 1981, acabaria por levar à despenalização das relações sexuais entre homens na Irlanda do Norte.

A investigação de Hulme acaba também por levantar uma questão mais ampla: será que a perseguição às pessoas LGBTQ+ se intensificou precisamente quando estas começaram a exigir visibilidade, reconhecimento e igualdade?

O paralelo com Portugal durante a ditadura

Em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo, existiam mecanismos semelhantes de repressão silenciosa e controlo moral. Tal como recorda a exposição “Adeus Pátria e Família”, muitas pessoas LGBTQ+ viveram durante décadas numa espécie de invisibilidade forçada, toleradas apenas enquanto permanecessem discretas e afastadas do espaço público.

A homossexualidade era associada à “imoralidade”, à “vadiagem” e ao desvio dos valores familiares defendidos pelo regime. A polícia política e as autoridades recorriam à vigilância, perseguição e detenções, enquanto a pressão social empurrava muitas pessoas para vidas duplas, silêncios prolongados e relações escondidas.

Tal como na Irlanda do Norte descrita por Hulme, também em Portugal existia frequentemente uma lógica contraditória: a sociedade podia suspeitar, perceber ou até comentar discretamente determinadas vivências queer, desde que estas não desafiassem publicamente a norma dominante.

Quando o silêncio deixa de ser suficiente

Essa aparente “tolerância” estava, porém, dependente da invisibilidade. Quando pessoas LGBTQ+ reivindicam espaço público, direitos ou reconhecimento coletivo, a reação conservadora tende historicamente a intensificar-se. O padrão repete-se em diferentes contextos: o problema nunca foi apenas a existência queer, mas a recusa em permanecer escondida.

A história da Irlanda do Norte, e também a portuguesa, mostra assim como repressão e tolerância podem coexistir de forma ambígua. E como o silêncio, muitas vezes confundido com aceitação, foi na realidade uma condição imposta para sobreviver.


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