Texto: Dar-Te A Mão

Hoje partilhamos convosco um texto da jornalista do El País, Rita Indiana, sobre a partilha de afectos em público. Vale a pena ler:

A tua mão, uma mão tão pequena que é quase uma mão de uma menina e cujo polegar aperta o meu quando atravessamos a rua. A tua mão de mulher, unhas ligeiramente longas e sem pinturas, dedos que surgem de montes atravessados por linhas que lidas uma vez foram em Valencia, num mercado, anunciando um escandaloso e sublime futuro.

A tua mão decide pegar a minha. Desliza ela contra o tecido que é o meu casaco, meu abrigo, do qual emerge a outra, fria e tímida de um bolso, como que a retornar a casa que nem uma toupeira num buraco. Então, dez dedos dividem as águas de uma piscina de onde emergem orgulhosamente as suas cabeças para descansarem intercalados e felizes uns com os outros.

Mas o medo chega com a precisão insistente de uma gastrite a encher de vento húmido a fogueira que alguns pequenos navegadores acabam de acender nas nossas palmas. Retiro a minha mão com medo de outras que fazem sinais obscenos nas varandas e que jogam, a partir daí, uma embalagem de leite podre ou uma chave-inglesa contra a minha cabeça. Mãos da senhora ou de jovem, mãos que têm agarrado pelos tomates o desempenho afectivo das minhas.

Esta reação é já em mim uma reflexo imediato. Não que seja covarde. Conheço o aperto que de tarde surge após um insulto homofóbico e quero evitar que passes um mau momento. Retiro a minha mão para que o nosso passeio gere o menor ódio possível.

Rita Indiana

Fonte: El País.

Nota: Obrigado ao Luciano pela dica 🙂

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