Reconhecer A Homossexualidade Brasileira Pré-Colonial

Não é raro ouvir-se dizer que a homossexualidade é uma moda moderna e ocidental, que estas relações não existiam, por exemplo, quando os europeus chegavam a novos mundos. Ora, como já aqui foi mostrado para o caso africano, também os índios brasileiros apresentavam comportamentos homoafectivos e para lá do binómio homem-mulher antes dos portugueses alcançarem as suas terras.

À época da colonização da América Latina, no século XVI, viajantes europeus relataram a presença de índios e índias sodomitas no Novo Mundo. Os actos cometidos por estes eram vistos pelos colonizadores como pecaminosos e selvagens, e junto com a catequização dos nativos vieram também as tentativas de apagamento do histórico dessas práticas. Essa limpeza cultural persiste até aos dias de hoje, havendo quem insista que a homossexualidade é coisa de europeus. Ora, existem inúmeros relatos sobre este tipo de relações entre os índios brasileiros aquando da chegada dos primeiros portugueses às suas terras. Por exemplo, Gabriel Soares de Souza, agricultor e empresário português, na sua obra “O Tratado Descritivo do Brasil”, de 1587, refere-se à homossexualidade como um “pecado bem aceite” entre os indígenas. Descreve igualmente uma espécie de “casa de prostituição”, uma tenda pública, onde os homens iam ter relações. Segundo vários documentos, os colonizadores instauraram diversos processos para punir os nativos, que eram considerados execráveis, devido à prática livre da homossexualidade.

No Brasil, a diversidade dos papéis de género também existiu, a exemplo dos tibira (que seriam os índios “gays”) e das çacoaimbeguira (as índias “lésbicas”), entre os Tupinambá. As çacoaimbeguira eram índias extremamente masculinizadas, que exerciam funções usualmente delegadas aos homens, vivendo com uma mulher, além de exibirem os tradicionais cortes de cabelo masculinos.

Entre os índios Guaicuru e Xamicos, existiam os cudinhos, que adotavam vestes e adornos femininos e serviam a seus maridos.

Entre os Kadiwéu, o hábito da pintura corporal é reconhecido como uma arte feminina. Os complexos padrões da tribo são pintados pelas mulheres mais velhas e pelos kudína, homens efeminados que incorporavam todos os atributos da mulher e assumiam papéis femininos naquela sociedade.

Dentro do chamado baito (casa de varões onde só era permitido a entrada de homens após severas provas de iniciação), “os mancebos da tribo Bororó relacionavam-se sexualmente entre si, com toda a naturalidade”, segundo relatos do missionário francês, Jean de Léry.

Ainda hoje a prática persiste entre os indígenas. Sobre o assunto, numa reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista Kátia Brasil fez um retrato da discriminação sofrida por índios gays da etnia Ticuna, a mais populosa da Amazónia brasileira. São contados relatados em que jovens gays são agredidos com pedras e garrafas por recusarem casamentos combinados na juventude ou por recusarem exprimir a sua orientação sexual, tal como a sua tribo fez livremente até à chegada dos colonos europeus.

Não deixa de ser irónico que foram as sociedades europeias, consideradas mais evoluídas, que impuseram leis contra a liberdade e os direitos das pessoas e dos seus rituais homoafectivos, tentando apagar da sua história essa cultura. Baseando-se em dogmas religiosos, os europeus infligiram leis homofóbicas, a vergonha, o medo e a perseguição a pessoas que desde sempre estiveram presentes e foram abraçadas pelas tribos. Há lições que a história nos ensina e, se vivemos numa sociedade muito virada para o seu umbigo, talvez este seja um bom exemplo para aprendermos nós com estas sociedades e não tentar rescrever a sua história.

Fontes: Nada Errado, Antropologia Geral, Folha de S. Paulo.

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