Henrique Raposo: “O Casamento Gay Matou A Amizade Masculina?”, Desconstruindo A Questão

O Henrique Raposo publicou ontem um artigo de opinião no semanário Expresso que lançava a questão “O casamento gay matou a amizade masculina?” Importa tomar nota de alguns dos pontos que levanta:

Um grande amigo considera que o casamento gay matou a velha pureza da fraternidade masculina, nunca mais haverá bandos de irmãos como antigamente, nunca mais entraremos num balneário ou caserna da mesma forma, alguma coisa se quebrou.

O Henrique deveria explicar ao seu “grande amigo” que o que se quebrou foi a relação que ele impõe entre o casamento gay e o de não conseguir entrar num balneário da mesma forma que antigamente (seja lá o que isso significar). Caberia ao informado comentador explicar ao seu grande amigo que o casamento entre pessoas do mesmo sexo apenas protege essas pessoas perante a lei, não as faz nascer como cogumelos. Ora, o número de homossexuais que existem nos balneários não deverá ter mudado em Portugal desde 2010, ano em que o casamento se tornou livre. O que pode acontecer é que agora há pessoas que não se escondem como antes fariam. E isso, seja em balneário ou na rua, é algo que esse grande amigo deveria entender como uma vitória para todos os homens. Continua:

Confesso-me dividido. Por um lado, uma certa agenda gay convocou uma absurda carga de cinismo para as proximidades de qualquer relação entre homens. Por exemplo, não é possível pesquisar artigos sobre “Moby Dick” sem encontrarmos lixo homoerótico que transforma Ishmael num amante de Queequeg.

Não sei exactamente o que quer dizer com “agenda gay” (mas desconfio), mas posso garantir que ao pesquisar por “Moby Dick” não encontro nenhum “lixo homoerótico” nas primeiras três páginas de resultados (e não vi mais). Por isso das duas uma: ou o Henrique lançou apenas uma graçola para tentar provar o seu ponto; ou o Google deu-lhe os resultados que achou mais relevantes para lhe mostrar consoante a sua utilização do mesmo. Das duas, acho a primeira opção a mais grave. Já a segunda será lá consigo, mas continuando:

Dois homens sozinhos à mesa é um cenário que deixa margem para dúvidas, logo muitos acionam mecanismos de controlo de reputação – até porque há sempre o empregado marialva que lança aquele olharzinho reprovador. Um mano a mano à mesa só mesmo para falar de negócios. Se não for para tratar do vil metal, não pode ser.

 Chegando a este ponto, pondero se este artigo de opinião do Henrique não é, afinal de contas, uma sátira. E aí, confesso, a piada seria em mim,  mas prossigo a desconstrução caso esteja redondamente errada esta dúvida momentânea. Há que ser forte! Portanto, dois homens jantarem sozinhos levanta suspeitas, mas de quê? E por que haveria alguém de pressupor que seriam homossexuais? Não era isto que reclamava no ponto anterior? Se houver empregado marialva que lance “olharzinho reprovador”, o Henrique tem também aqui duas opções: ou ignora e concentra-se na conversa com o seu amigo (e até pode ser o seu “grande amigo” se ele não se incomodar); ou questiona o empregado se há algum problema.

Não creio que o assunto se desenvolva a mais que um pedido de desculpas ou, se não houver coragem, uma negação do “olharzinho reprovador”. Na realidade existe uma terceira opção e essa, parece-me, é de grande persuasão a quem oferece um serviço e age assim com os seus clientes: não voltar a esse restaurante. Simples.

Para resolver o assunto, ando a pensar num protocolo para impor a estes receosos amigos, a saber: entrar no restaurante acompanhado com as tailandesas das massagens (classe alta), passar por casa e trazer a empregada tailandesa que está clandestina (classe média), pedir um escarrador à saloon de cowboy, que deve ser colocado mesmo ao lado da mesa (classe baixa). Não podemos correr riscos, não é verdade?

É a partir deste ponto que percebo que este texto só pode ser, efectivamente, uma enorme sátira e o Henrique está, a bem da verdade, a dar uma enorme lição ao seu “grande amigo”. Porque só isso fará sentido quando pega em dois exemplos da iconografia LGBT: a Tailândia e a sua população transgénero e, claro está, os cowboys e as suas calças de ganga justas.

Quer isto dizer que concordo com a tese? Sim e não. O clima, de facto, não é o mesmo. A sociedade que vê sexo entre Ishmael e Queequeg já está corrompida. Mas, por outro lado, tenho de dizer que tenho amigos gays – o que por si só invalida a tese. As conversas que mantenho com amigos gays são em tudo idênticas às conversas hetero, com uma óbvia exceção: mulheres. De resto, falamos de filmes, de livros, da vidinha, da pátria, da família que eu tenho e da família que eles querem construir.

O Henrique certamente que entenderá que, mesmo que haja um grupo de pessoas que veja Ishmael e Queequeg como dois grandes amantes insaciáveis, não significa que toda a sociedade (e em particular todas as pessoas LGBT) os veja assim. Mas só posso agradecer-lhe por me ter despertado para a ideia!

Curioso como, tal como o Henrique, mas do outro lado da questão – tenho amigos heterossexuais e -imagine-se! – também falamos de tudo, mas acredite que até de mulheres falamos! E até pode ter alguma marotice pelo meio, descanse, mulheres como a Teresa Morais estarão sempre debaixo de olho!

Moral da história? O problema mais uma vez está nos extremos. De um lado, temos uma ideologia gay que procura reescrever a História do mundo pelo ângulo do homoerotismo. Do outro lado, temos a cautela defensiva da agenda que recusa encarar o gay como qualquer outro filho de Deus. Se calhar, tenho de combinar almoço a três.

Nisso terei que dar o braço a torcer ao Henrique, o problema – como aliás quase sempre – está nos extremos. Imagine uma sociedade que é estigmatizada por uma doutrina que persegue e condena as pessoas LGBT desde há milénios, que as tenta apagar da História até aos dias de hoje. Imagine o Henrique que em alguns países do mundo alguém luta contra o preconceito e a discriminação das pessoas. Não é reescrever a história, é contá-la! E se é verdade quando diz que somos constantemente recusados a ser vistos como qualquer outro filho de Deus (ou outrem), um passo contra essa recusa seria, precisamente, evitar escrever este tipo de textos. Isso e arranjar novos “grandes amigos”.

Fontes: Expresso e RR (fotografia).

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