O “Chamamento às Armas” de Beyoncé

Na passada noite de Sábado, Beyoncé surpreendeu o Mundo novamente com um lançamento surpresa, “Formation“. Mais de dois anos de ter basicamente “inventado” esta forma de estratégia de marketing, voltou a fazê-lo de forma inesperada e arrojada. Mas desta vez com contornos bem diferentes. Não foi um álbum, mas uma canção individual com um objectivo bem definido: um hino com o intuito de capacitar as massas negras continuamente oprimidas nos Estados Unidos da América. Isto acontece numa altura em que as tensões raciais estão a atingir repercussões impensáveis, com Ferguson ainda bem presente e com réplicas de ódio racista quase mensais.

Enquanto entoa palavras de orgulho negro – na sua mistura de preto e criolo, na afro da sua filha, nas narinas proeminentes dos homens que ama – somos inundados por uma maré de imagens recolhidas ou filmadas em Nova Orleães pela realizadora Melina Matsuokas, que não colocam meramente o dedo na ferida. Abrem-na para se deixarem ver os ossos e o sangue que ainda corre pelas ruas. No feminismo negro de Beyoncé aqui tão desavergonhadamente demonstrado está uma chamada às armas. A polémica não tardou e muitos já a apelidaram de perigosa e imprudente quando inunda um carro de polícia num cenário reminiscente da catástrofe do furacão Katrina ou quando mostra uma criança negra de hoodie a obrigar uma brigada de intervenção a render-se. Nas paredes lê-se “Parem de nos alvejar“, num claro grito de apoio pelo movimento #BlackLivesMatter.

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Há uns anos atrás dificilmente se adivinhava o activismo de Beyoncé, que raramente se pronunciava acerca de qualquer tópico mais polémico e que pudesse de alguma forma prejudicar a marca que foi construindo. No entanto a maternidade, em lugar de a ter apaziguado, parece ter dado a Beyoncé uma coragem que nela não existia antes e, desde então, mantendo simultaneamente a aura de mistério e privacidade que continua a cultivar, parece impregnar toda a sua música com uma ideologia social bem vincada. Antes deste explosivo “Formation”, o revolucionário álbum homónimo de 2013 já trazia nele uma componente activista inesperada. Não que no percurso de Beyoncé não se estivesse já escondida essa vontade: existia em canções como “Independent Women“, ainda das Destiny’s Child, “Diva” ou mais recentemente e declaradamente “Run The World (Girls)“, uma intenção clara de dar poder às mulheres e, por osmose, a minorias que nela se reviam.

Contudo, através das palavras ecoadas por Chimamanda Ngozi Adiche, celebrada escritora nigeriana, Beyoncé trouxe para a mesa uma palavra que aterrorizava não só homens mas também as mulheres: Feminista. Quando se apresentou numa actuação dos prémios MTV com essa mesma palavra por trás, rios de tinta virtual correram. Celebrada na generalidade, muitos questionaram e continuam a questionar a legitimidade das intenções por detrás destes e outros actos. No ano passado, alguns membros da comunidade LGBT, fervorosa e devota facção da sua legião de fãs, sentiram-se defraudados pelo silêncio de Beyoncé aquando da iminência da aprovação na sua cidade-natal de Houston no Texas de uma lei que descrimina o acesso a casas de banho público por mulheres transgénero.

Apesar deste e outros episódios menores levarem alguns a negar a sua posição enquanto aliada da comunidade LGBT, Beyoncé tem ao longo dos anos demonstrado o seu apoio à causa nas poucas entrevistas que vai concedendo. Ao PrideSource demonstrou a sua gratidão e inspiração pela coragem dos seus fãs gay no caminho pela procura de uma identidade plena, afirmando posteriormente também à OUT que o objectivo da sua arte, numa luta pela igualdade e direitos humanos, passa por dar força a todas as minorias que se sentem oprimidas. Apoiou imediatamente Frank Ocean quando este se declarou LGBT num género musical ainda demasiado homofóbico, bem como aquando da anulação da Proposição 8 na Califórnia que invalidava do casamento entre pessoas dos mesmo sexo, tendo celebrado o mesmo quando este foi finalmente aprovado a nível nacional em 2015.

O apoio de Beyoncé a esta, e outras causas, é menos recorrente do que outros ícones como Madonna, mas trabalha profundamente numa dimensão menos óbvia e com efeitos tão ou mais fortes. Provavelmente escapou a alguns neste “Formation” que o feminismo negro de Beyoncé não é exclusivo a mulheres cisgénero. O video começa com as palavras de Messy Mya, vítima de uma crime transfóbico ainda por resolver e mostra corpos queer do movimento bounce de Nova Orleães imiscuídos em toda a outra imagética que conjura. Beyoncé parece estar cada vez mais a personificar algo que Nina Simone outrora disse: “O dever de um artista é reflectir os tempos”.

Da especificidade, geológica e cultural, deste intenso protesto visual emerge uma universalidade de mensagem que só pode ser entendido de uma forma: RESPEITEM-NOS… às nossas raízes, à nossa cor de pele, ao nosso sexo, à nossa orientação sexual, à nossa força. Ou sofram as consequências, o tempo do politicamente correcto está a terminar. A linha da frente é o único sítio para se estar. Por isso entrem em formação.

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