Berlinale e o Cinema Queer: dois (soberbos) exemplos em Kiki e Paris 05:59

Se Cannes tem o estandarte do festival do glamour, a Berlinale rouba-lhe facilmente o ecletismo na programação, tendo-se  a vir a tornar cada vez mais num púlpito onde a arte reflecte uma série de preocupações políticas e sociais do nosso quotidiano enquanto cidadãos globais. Não foi casual certamente que ambos os prémios máximos do festival tenham ido para histórias de asilio político ou discriminação social. Concretamente, o Urso de Ouro para Melhor Curta Metragem foi atribuído à jovem realizadora portuguesa Leonor Teles, pela forma como desmascarou o racismo contra a etnia cigana que acontece no nosso país.

A exposição das histórias LGBT também sempre tiveram um lugar fixo e de destaque na Berlinale. Na passada Sexta-Feira comemoraram-se inclusivamente os 30 anos dos Teddy Awards, uma atribuição paralela de prémios aos filmes exibidos no certame focados na temática LGBT. O primeiro foi nada menos que A Lei do Desejo de Pedro Almodóvar em 1987 e este ano foi premiado o austríaco Tomcat.

LGBT Berlinale Cinema Kiki

Não tendo tido a oportunidade de ver este último, foi com sorte que acabei fortuitamente por assistir no Sábado a exibição de dois outros vencedores dos Teddy Awards. O primeiro foi Kiki, um documentário inserido na Secção Panorama, que relata a vivência de um conjunto de jovens negros queer e trans na cena kiki de Nova Iorque. Trata-se de uma série de competições no Harlem que resultam de uma revolução baseada no movimento de dança vogue que começou no anos 70 e explodiu nos subsequentes anos 80 e 90. Nele se baseiam o desfile de uma série de casas (Houses), encabeçadas pela mãe ou pai (espiritual e na comunidade) de cada um dos bailarinos e bailarinas. Na realidade trata-se de muito mais do que um movimento artístico, arrojado e absolutamente impressionante na modelação dos corpos ao ritmo da música em jeitos fluidos quase serpentinícos. É um refúgio para dezenas e dezenas de jovens abandonados, pelos pais e pela sociedade, que encontram ali um lugar onde podem livremente encontrar a sua identidade e explorar tudo o que ela contem. Um trabalho absolutamente impressionante e isento da realizadora sueca Sara Jördeno.

Paris 0559 Berlinale Cinema LGBT

O segundo foi o vencedor do Prémio da Audiência, um romance também da secção Panorama: Théo et Hugo dans le même bateau, agora com o nome Paris 05:59, dos franceses Olivier Ducastel e Jacques Martineau. O filme, que acontece em tempo real, começa com uma intensa cena de sexo explícito em grupo com mais de vinte minutos, encenada com um bom gosto surpreendente na forma como expõe os corpos de dezenas de homens a perderem-se numa cave de um clube parisiense. É neste cenário que inesperadamente os olhares e corpos de Théo e Hugo se cruzam e a atracção prolonga-se para além desta sessão de sexo que se esperava inconsequente. A paixão brota mas cedo é interrompida por uma revelação que traz à terra os dois príncipes deste conto de fadas. Mas é enternecedor e comovente ver os doces protagonistas, interpretados pelos corajosos Geoffrey Cauet e François Nambot, serem levados pela inocência de um amor à primeira vista transfigurado pela realidade que imediatamente lhes toca à porta. Será interessante ver se algum distribuidor português tem a bravura de agarrar este filme e olhá-lo para além do seu início mais desinibidamente pornográfico e encontrar no seu cerne uma extraordinária história de Amor.

Assim se vê que Berlim, também na forma como se apresenta ao Mundo nesta montra de cinema é mesmo a cidade onde, historicamente e na actualidade, muitas pessoas LGBT encontram um porto de abrigo para a exploração plena das suas identidades e sonhos. Curioso que a cidade mais gay da Europa se encontre num país ainda tão atrasado nas leis que protegem os seus cidadãos LGBT e se deixa ainda amedrontar por um conservadorismo religioso cáustico e promotor da intolerância. Que a Alemanha aprenda mais com a sua capital. E que o resto da Europa a acompanhe.

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