McDonald’s, Happy Meals e Brinquedos (sem género predefinido)

A McDonald’s Portugal anunciou que irá deixar de promover os populares brinquedos das suas Happy Meals como sendo para menino” ou “para menina. A empresa segue assim a casa-mãe norte-americana que parou de fazer essa distinção desde 2014. E isto importa porquê mesmo?

Importa porque é um passo dado contra a educação de estereótipos que discriminam as crianças e os seus gostos, envergonhando-as sempre que estes tentam explorar o mundo que não seja aprovado por uma sociedade machista. As meninas brincam com bonecas, os meninos com carrinhos. As meninas têm brincadeiras delicadas, os meninos são diabretes. E tudo o que fuja desta percepção altamente enraizada na sociedade é considerado estranho e de evitar. A menina que goste de brincar com carrinhos é desde logo rotulada “maria-rapaz”, o menino que brinque com boneca é considerado “efeminado”. Como se um ou outro fossem problemáticos; como se uma miúda mostrar interesse por um carro fosse perigoso, como se um miúdo gostar de brincar com princesas fosse um claro sinal de que algo está errado com ele.

A exploração do mundo por parte das crianças, quando feito em segurança, é absolutamente essencial ao seu desenvolvimento e é algo que lhes é natural. A curiosidade é uma qualidade que não lhes deverá ser negada, muito menos porque possa ser mal-vista, ou porque os pais possam ter o receio que os filhos cresçam de uma outra forma que não a idealizada por eles.

Pois tenho novidades para todos aqueles que sentem estes receios: os miúdos irão crescer. E a proibição de uma brincadeira apenas os afectará pela ideia formada de que algo estará errado com ela. Por isso, se há pais que explicam aos filhos que não podem brincar com bonecas porque “bonecas não são para meninos”, estão a ensinar-lhes que as bonecas são objectos errados, que eles estão acima delas. Delas as bonecas e, fazendo a transposição, eles são acima delas, as miúdas que com elas brincam. E isso, obviamente, não é aceitável educar. A mesma lógica funciona para as raparigas: não, não há qualquer problema que as vossas filhas possam gostar de carrinhos. A única parte da sociedade que o poderá temer é aquela que se baseia na ideia da “família tradicional portuguesa”, uma família patriarcal em que ser mulher é menos que ser homem e ambo os mundos jamais se poderão sobrepor, porque isso colocaria em causa a liderança do homem. Tão simples como isto.

Por isso, descansem, os vossos filhos não se tornarão gays ou lésbicas, não se tornarão menos do que são, nem serão uma ameaça à sociedade, eles apenas estarão a explorar o seu mundo, livres de ideias pré-concebidas. E se muitos continuarão a preferir brincar com os seus carrinhos ou com as suas princesas: óptimo! Que assim seja, mas porque é isso que eles realmente desejam explorar, sem a influência preconceituosa de famílias e educadores. E aqueles que gostem de brincar com outros brinquedos: igualmente óptimo! Que explorem aquilo que lhes desperta interesse e prazer. Só assim conseguirão tornar-se adultos saudáveis e desenvolvidos. E até lá que brinquem e se divirtam. Muito!

Fonte: Boston Globe (imagem).

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