Lilly Wachowski: Assume-se Trans (e critica “Buffalo Bill”)

Contra um alegado aproveitamento tabloide da sua identidade de género, Lilly Wachowski anunciou num jornal de Chicago: “Sim, sou transgénero. E, sim, fiz a transição“. Lilly Wachowski disse-o quatro anos depois de a irmã, Lana Wachowski, com quem forma a celebrada dupla de realizadoras de ficção-científica responsável pela trilogia Matrix e a série – já por aqui faladaSense8.

Reconhecidamente avessa à exposição mediática, tal como a irmã – “considero que falar sobre a minha arte é frustrantemente entediante e falar sobre mim um tormento”, escreveu no comunicado –, Lilly Wachowski, nascida Andy, decidiu comunicar à imprensa ser uma mulher transgénero depois de ser abordada à porta de casa por um repórter do jornal britânico Daily Mail, que lhe propôs encontrarem-se nos dias seguintes para lhe tirar uma fotografia e contar a sua história “tão inspiradora”. O jornal já veio negar estas alegações:

Como a própria Wachowski diz, não fomos os primeiros a contactá-la e deixámos absolutamente claro em vários pontos na conversa que estávamos interessados apenas em relatar a história se e quando ela estivesse feliz por nós o fazermos e com a sua cooperação.

No entanto, Lilly explicou o seu receio:

Este é o grupo noticioso que desempenhou um grande papel no assumir público de Lucy Meadows, uma professora primária e mulher trans no Reino Unido [que se suicidaria meses depois de a história ter sido publicada]. E agora aqui estavam eles, à porta de minha casa, quase que a dizer – ‘Cá está outra! Vamos arrastá-la para cá para fora para que todos possam dar uma espreitadela’.

O jornal negou responsabilidade no caso de Lucy e, independentemente da responsabilidade das atitudes jornalísticas perante estes tópicos, importa entender como ainda são vistas as pessoas transgénero na sociedade. E no cinema, área em que as irmãs estão à vontade para falar.

No comunicado, Lilly refere, numa clara alusão ao vilão do cinema Buffalo Bill, que, “embora já tenhamos percorrido um longo caminho desde “O Silêncio dos Inocentes”“, as pessoas transgénero “continuam a ser demonizadas e vilipendiadas nos média, onde anúncios pagos”, denuncia, as “retratam como potenciais predadores” para as “impedir até de usar o raio da casa-de-banho. Nós não somos predadores , somos presas!”.

Este é um argumento que já abordámos e existe, efectivamente, um sem-número de exemplos de vilões Queer no cinema que só ajudam a perpetuar o estigma que as pessoas LGBTQ – e especificamente as Trans – sofrem no seu dia-a-dia. Chega, portanto, de diabolizar e desumanizar as pessoas LGBTQ no cinema e de criar uma ligação desonesta entre a maldade e a orientação sexual de alguém, seja ela qual for.

Lilly conclui:

A minha realidade é que tenho estado em transição e continuarei em transição toda a minha vida, através do infinito que existe entre o masculino e o feminino, tal como acontece no infinito entre o binário de zero e um. Precisamos de elevar o diálogo além da simplicidade do binário.

Fontes: Público, Pink News e The Hollywood Reporter.

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