As Injustiças Da Heteronormatividade

A heteronormatividade é, de forma muito resumida, o partir do princípio que todas as pessoas são heterossexuais e aderem a determinadas normas de comportamento sexual e relacional.

Estima-se que 10% da população não se enquadre dentro da heterossexualidade (eu pessoalmente penso que esta percentagem é bastante mais alta, mas isso fica para outro dia). Será então natural que a heterossexualidade seja o padrão.

Isso só por si não é grave, mas o assumir o que quer que seja sobre as preferências, ideologias, cultura, religião e sexualidade de pessoas que não conhecemos é arrogante e pretensioso, cria constrangimentos e de certa forma “obriga” a que a pessoa em questão tenha de nos esclarecer ou tenha de suportar as nossas ideias erradas.

Dou um exemplo: a maioria da população portuguesa é católica. Portanto, eu ao dirigir-me a quem quer que seja, posso assumir que essa pessoa é católica e que vai à missa ao domingo. Se a pessoa não for católica tem duas alternativas: ou tem de se assumir como sendo de outra religião ou – caso não ache que tem de me dar satisfações sobre um assunto que é privado -deixa-me ficar com os meus pré-conceitos e pode ter de ser forçada a inventar uma desculpa quando eu a convido para ir comigo à missa. O simples facto de eu ter assumido que essa pessoa se enquadra na maioria, cria uma situação constrangedora. Que poderia ser evitada se eu pura e simplesmente não tivesse assumido coisa nenhuma sobre um assunto que, ao fim e ao cabo, não me diz respeito.

Há uns meses acompanhei a minha filha adolescente a uma consulta.

 A médica de família – que é um doce de pessoa, diga-se de passagem – fez-lhe uma série de perguntas de rotina e depois abordou ao de leve a sexualidade, como é normal em consultas com adolescentes desta idade. A certa altura diz-lhe algo como “é normal começares a sentir coisas quando olhas para os rapazes giros”. Isto foi dito com a maior ternura e compreensão, entendam, mas não pude deixar de pensar “e se a minha filha não for heterossexual?”

Este é o tipo de abordagem que, embora feita com a melhor das intenções, pode ter efeitos nocivos e muito graves na mente de um adolescente mais vulnerável, confuso e desapoiado. Uma consulta médica em que o objectivo é criar confiança entre o médico e o paciente, pode num segundo transformar-se numa situação de angústia e sofrimento.

A não-heterossexualidade é encarada pela sociedade e pelos meios de comunicação como não apropriada e inerentemente mais sexual que os relacionamentos heterossexuais. Isto, por sua vez, cria a ideia que as relações entre duas pessoas que não são entre um homem e uma mulher devem ser mantidas privadas, fazendo com que as pessoas não-heterossexuais se sintam sujas e envergonhadas por não estarem “dentro da norma”.

Os exemplos multiplicam-se no nosso dia-a-dia e é fácil não dar por eles a não ser que estejamos atentos.

O adulto que vê um menino e uma menina de 3 anos a brincar e diz “ah, tão queridos, ainda vão ser namorados”. Ou quando se pergunta ao menino de 5 anos que acabou de entrar para o infantário “se já arranjou uma namorada”. Isto é sexualização, mas é aceite porque é heteronormativa. Mas quando um/a adolescente afirma que se sente atraído por pessoas do mesmo sexo “é uma fase” e “és demasiado jovem para saberes do que gostas”.

O assumir que todas as mulheres querem casar e ter filhos é heteronormativo e nem sequer tem a ver com sexualidade, tem a ver com comportamentos heteronormativos esperados, mas cria precisamente a mesma situação em que a mulher tem de “justificar” porque é que é diferente das outras.

De uma coisa tenho a certeza: se me dirigir a uma pessoa heterossexual em termos neutros (“então não tens ninguém?” em vez de “então não tens namorado/a?”, por exemplo), o mais provável é que a pessoa nem dê por isso. Mas uma pessoa não-hetero vai imediatamente perceber que lhe estou a dar espaço para não ter de me dar explicações e que estou disposta a aceitá-la como quer que seja.

Podemos não nos aperceber, mas exibições claras de heterossexualidade estão por todo o lado: a foto de família numa secretária, o homem e a mulher de mãos dadas na praia ou um casal de pessoas de sexos opostos beijando-se num bar. Ninguém acusa estes casais de “exibirem” a sua sexualidade, mas se forem dois homens ou duas mulheres na fotografia de mãos dadas ou a dar um beijo, há um limite que foi ultrapassado. Isso são dois pesos e duas medidas.” Steven Petrow em “What’s so upsetting about a gay couple kissing in public?

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