Uma Questão de Hábito

No outro dia, estava a passar por um casal (heterossexual) de mãos dadas. É algo que vejo todos os dias, que é “normal” e que passa despercebido. Excepcionalmente, nesse dia e a essa hora, reparei nesse gesto de carinho e uma única frase passou-me pela cabeça:

Porque é que já não me faz confusão não dar a mão ao meu namorado na rua?

É que, tendo já namorado com uma rapariga por um par de anos, a adaptação ao meu primeiro namorado foi muito complicada. Fazia-me confusão o misto de vergonha e medo que tinha. Tinha vergonha de, afinal, “ser o paneleiro” após tantos anos de acusação reiterada por muitos e de poder chocar a sociedade à minha volta com comportamentos “fora do normal”. Tinha medo das bocas mesquinhas, de ser rejeitado pelos meus amigos e família ou, pior ainda, de ser agredido. Tinha-me decidido, há dois anos atrás: “Nunca vou contar a ninguém; não vou jantar ou almoçar fora com ele; não vou dar a mão nem beijos em público. Nunca vou sair do armário. E este vai ser o último rapaz, que isto dá muito trabalho”.

Mas, dois anos depois, cá estou: novo namorado, a maioria das pessoas que me são próximas sabem (até a minha avó!) e já jantei, almocei, pequeno-almocei e passei férias com um homem. Sem vergonhas e sem medos. Mas continuo a não dar a mão na rua, pelo menos de forma sistemática e inconsciente. E o grande choque foi isso, até àquele dia, não me incomodar.

Mesmo após toda a transparência, ativismo e saída do armário, habituei-me a ver a minha relação como diferente das heterossexuais. Como inferior. Como indigna das mesmas demonstrações de afectos. Beijos, abraços e dar a mão é em casa ou no carro. No máximo, numa discoteca gay ou numa rua deserta. Quando ultrapasso estas “regras”, sinto-me desconfortável e alvo de chacota, nojo, raiva ou interesse excessivo. Em suma, uma aberração da sociedade.

E, nesse dia, julguei compreender o porquê desta dicotomia. É que sempre achei que “o Armário” era um lugar desconfortável e sufocante que empurrava as pessoas para fora ao longo dos vários anos. Mas agora, acho precisamente o oposto: “o Armário” é um lugar reconfortante e habitual, como uma prisão à qual nos habituamos lentamente e que, com o passar dos anos, chamamos de casa. As mentiras aos familiares, amigos e colegas tornam-se mais fáceis; o sexo anónimo e o celibato (atenção: não por escolha, mas sim por vergonha) ganham mais sentido e a dicotomia vida privada vs. vida pública ou, em honra do programa de televisão, bichas antigas vs. bichas modernas, extrema-se. A ansiedade de sair do “Armário”, tem, com toda a certeza, uma relação com a frustração que sentimos com a falta de honestidade, para connosco e para com os outros, mas, em grande parte dos casos, acredito agora, deve-se à demolição dessa ponte com a restante sociedade.

Habituamo-nos “ao Armário” como nos habituámos a equiparar (e)feminidade à inferioridade ou fraqueza, a usar orientações sexuais como insultos, a definir papéis de género (sempre obrigatórios, claro) nas mais diversas relações, a usar meias palavras como “amigo” ou “companheiro de casa” em vez de “namorado” e ao uso das definições de normal e natural como sinónimos para moral e ético (spoiler alert: não são).

Habituamo-nos a ser invisíveis. Pelo caminho fica só a nossa felicidade e paz de espírito.

Fonte: News Cult (imagem).

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