Tirar Férias Em Portugal: Vá Para Fora (do armário) Cá Dentro

Quando marcamos uma viagem, seja uma semana tipicamente no Verão ou uma escapadela de fim-de-semana, criamos expectativas quanto ao descanso, ao convívio, a descoberta de novos espaços e novas pessoas. Quando tiramos férias com a nossa cara-metade deparamo-nos igualmente com uma decisão que nos vemos obrigados a fazer: assumirmos a nossa relação – e, como consequência, a nossa orientação não-heterossexual. Mais, vemo-nos obrigados a fazê-lo a pessoas estranhas. E isso tende a ser cada vez menos um problema. E ainda bem.

Porque ao contrário do que alguns nos querem fazer crer, o coming out não requer beijos linguados em público e muito menos obscenidades. O coming out faz-se de mil e uma formas, seja quando levamos os nossos filhos e filhas à escola, seja quando reservamos um hotel – e, sim, quarto com cama de casal, obrigado! Ou seja, assumimo-nos como qualquer outra pessoa heterossexual o faz todos os dias. A diferença é que muitas vezes esta última nem se dá conta que o faz, a sociedade está formatada para que tudo o que ela faça lhe pareça natural e expectável. Uma pessoa homo ou bissexual dificilmente não tem consciência dos inúmeros coming outs que vê diante de si, por vezes espelhada em escolhas que tem que fazer todos os dias. Em alguma fase das nossas vidas todos e todas passamos por isto. Mas não tem que ser sempre assim.

Em Portugal, apesar de alguns contra-tempos, temos notado avanços políticos e sociais que, pouco a pouco, começam a imiscuir-se na população. São décadas de luta e de educação que têm hoje os seus resultados. Casais de pessoas do mesmo sexo e famílias homoparentais podem hoje desfrutar as suas férias sem problemas de maior, tal como os restantes casais e famílias. É certo que poderão ainda existir alguns olhares, mas quantos desses, tirada a curiosidade inicial, cessam? Quantos desses, ao perceberem que não somos nem mais nem menos (escreva-se “estranhos”, “ruidosos”, “simpáticos”, “exigentes”, tudo o que quem presta serviços turísticos possam dizer sobre os seus clientes) que as restantes pessoas começam a ver-nos como às outras? Estes olhares são situações que deverão tender para o irrisório e o processo depende também de nós. A nossa visibilidade é ponto fulcral para que o que outrora era visto com desconfiança e estranheza seja hoje uma realidade aceite, próxima e – mais importante ainda – bem-vinda.

Porque não quero ter de passar férias em sítios que se intitulam gay friendly, como se os restantes sítios não tivessem a obrigação de também o ser. Não quero que a escolha de uma viagem ou estadia tenha como factor de decisão se vou ser ou não tratado com dignidade pelo que sou. Bem sei que é fácil vivermos numa redoma – afinal de contas desde cedo percebemos que muitas, demasiadas vezes precisamos fugir de pessoas e sítios para sobreviver – e é por isso que entendo a existência e até a importâncias dos tais sítios gay friendly, mas não deixo de lutar por uma sociedade em que cada vez menos façam sentido existir. Não quero segregação, não quero bunkers, quero estar onde me sinta bem, partilhando o espaço com outras pessoas, outras famílias. Porque é difícil resistir – com namorado, noivo ou marido ao lado – à alegria de uma criança que, numa piscina com o seu pai e mãe, nos dá os bons-dias com o maior sorriso do mundo como se nada fosse. Porque um sorriso é um sorriso e um convite para entrar na água também.

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