“Jornalismo” coloca em perigo a vida de atletas LGBT nos Jogos Olímpicos do Rio

Muitas vezes falámos neste espaço da importância do coming out e do direito incontornável de cada pessoa LGBT de o ter nos seus termos e na altura que considerar apropriada. E naturalmente achamos criminoso quando a “imprensa livre” decide roubar esse direito fundamental e expôr sem consciência a sexualidade de alguém com exposição mediática em busca de “cliques” e “likes. Mas o que o Daily Beast fez no final desta semana consegue ser bem pior. Este corpo online de jornalistas, que se tem como sério e que se rege pelos valores do meio (que entretanto se perderam), tem como abordagem “a procura de exclusivos, escândalos e histórias de mundos secretos e o confronto de bullies, intolerantes e hipócritas.

Duas linhas que se querem paralelas mas que Nico Hines, jornalista do Daily Beast destacado aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, conseguiu deturpar na sua essência e apenas obedecer à primeira, tornando-se efectivamente num desses hipócritas que proclamam tentar combater. Hines, sob a chancela do editor John Avlon, achou boa ideia ver como as apps de engates e encontros estavam a ser utilizadas pelos atletas olímpicos. Uma premissa já por si sensacionalista, mas que só piora. O “jornalista” explora o Tinder mas (alucinantemente) faz a descoberta que o Grindr, direccionada para a comunidade gay masculina, é muito mais imediata e profícua no que toca a conseguir interacções favoráveis. E depois de reprovar os atletas de se quererem encontrar somente com outros atletas, enumera uma lista de países dos quais originaram os seus quase-engates. Claro que Hines, um heterossexual casado e com filhos, não está só a violar todos os códigos de conduta jornalística, está efectivamente a cometer um crime punível com prisão nas sociedades que valorizam a democracia e igualdade de direitos.

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Mas não faz só isto, obviamente. Ao emitir uma lista de naturalidades de atletas gay não assumidos está a iniciar uma caça às bruxas nesses países, muitos deles ostensivamente homofóbicos e cuja punição por tais actos pode ser a morte por ordem judicial. Portanto Hines não só comete o crime social de gay baiting ao tentar a fazer sair do armário pessoas homossexuais por razões por demais duvidosas, como também põe em risco de vida dezenas de pessoas. Jornalismo do século XXI no seu melhor, apenas interessado em obter o máximo número de visualizações e aprovações nas redes sociais, sem qualquer preocupação com a verdade e com a consequência. John Oliver, do Last Week Tonight, num programa recente discursou eloquentemente sobre o final do verdadeiro jornalismo e como isso ia comprometer a liberdade democrática que todos nós tomamos como garantida. Neste caso particular as reacções da comunidade foram imediatas na condenação do acto e atletas assumidos como Gus Kensworthy dos Estados Unidos e Amini Fonua do Tonga fizeram a sua parte em expôr a vilania do acto. Consequentemente, o Daily Beast, num acto absolutamente inédito, retirou o artigo e desculpou-se do mal que emergiu do mesmo. Tarde demais.

Na sua posição privilegiada de normatividade socialmente vangloriada, Hines não considerava que pudesse haver alguma consequência perniciosa em expôr a homossexualidade de pessoas que sofrem e lutam diariamente com a intolerância contra tudo aquilo que são e representam. Pior, mostrou em várias instâncias que não só não queria saber como também ia mais além na sua ignorância e hipocrisia ao condenar os atletas pelas suas preferências. Hoje em dia a luta assume muitas formas e nem sempre são as mais declaradamente horríficas as que lesam mais as pessoas LGBT. São as que partem de organismos que deveriam defender a liberdade e igualdade e não pô-la em causa de forma tão nojenta e egoísta. Isto aconteceu nos Estados Unidos, mas acontece diariamente nos pasquins Portugueses que cada vez mais transfiguram o rigor jornalístico que precisamos e merecemos. E não hajam ilusões, só vai ficar pior.

Nota: Obrigado ao Underworld King pela dica 🙂

Fontes: 1, 2, 3

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