LGBT versus LGBT: A Guerra (in)Visível

A população LGBT confronta há décadas o preconceito e homofobia das pessoas fora da comunidade. Fervorosamente mostramos quem somos sem reservas para combater a intolerância e condenamos publicamente os que nos atormentaram o passado e minam o presente. No entanto muitas vezes ignoramos os nossos maiores antagonistas, aqueles que se encontram muitas vezes ao nosso lado nas lutas que definem o nosso lugar na sociedade. Resumindo, nós mesmos. Em muitas conversas surge essa contradição e não é de estranhar encontrar algum espanto ao descobrir que os discriminados são demasiadas vezes os primeiros a discriminar.

É, primeiro de tudo, a natureza humana. Os traumas induzidos estão entranhados demais para serem dissipados pela passagem do tempo e conduzem ao mesmo tipo de comportamentos nocivos que desencadearam esta espiral de ódio. Mas a população LGBT parece sofrer de um mal ainda maior: um terrível complexo de inferioridade. Talvez tal seja ainda mais notório aqui no nosso país, Portugal, tão notoriamente incapaz de celebrar os seus sucessos sem denegrir de alguma forma aqueles que tiveram a capacidade de os alcançar. Tudo isto se acresce a um silencioso, mas tóxico, conservadorismo de direita que ainda polui as mentalidades até dos mais jovens e um medo tremendo que o vizinho descubra quem somos: lésbicas, gay, bi, trans.

Por isso é simultaneamente triste e revoltante que a reação a uma figura mais ou menos pública a assumir-se LGBT, ou meramente esteja a viver da forma que assumiu verdadeira para si própria, seja de escárnio venenoso, repleto de insultos viperinos e sempre mal-intencionados. Quantas vezes ouvimos ou lemos comentários trágicos acerca de alguém que se apresenta de forma menos normativa como “aquela bicha nojenta, só vai dar mau nome à comunidade”; ou “que puta execrável, assim pensam que andamos todos a comer o primeiro que nos aparece à frente”? Poderia prosseguir, pois a desculpa da perceção externa para discriminar internamente é recorrente, cáustica e talvez a mais cruel e destrutiva de todas. Quando somos atacados de um local que pensamos seguro, quando deixamos as nossas defesas em baixo porque nos sentimos rodeados de pares e pessoas que nos deveriam compreender, é efetivamente o crime capital.

Esta atitude dissemina-se depois por todo o lado. Coletividades e organizações – sejam elas políticas, sociais, culturais ou mesmo de lazer e entretenimento – batalham muitas vezes em trincheiras opostas, tantas vezes motivadas por ódios e desentendimentos antigos que a luta pela afirmação dos nossos direitos se transforma numa guerra de interesses dúbios e de mesquinhez da qual ninguém sai vitorioso, ainda que assim não aparente. Antes de qualquer ignóbil da Juventude Popular disparar balas sobre nós, já estamos completamente mutilados por fogo “amigo”. Em pleno século XXI, quando temos armas tão poderosas como as redes sociais para comunicação e interligação global que podem ser empenhadas em prol do combate pelos direitos humanos, continuamos a usá-las para disferir profundos golpes sobre nós próprios.

Correndo gravemente o risco de cair numa série de lugares comuns, não consigo deixar de os enumerar: nenhuma batalha é ganha quando aqueles que a travam se encontram ou de costas voltadas ou com elas apunhaladas por alguém que deveriam confiar. Estamos condenados a perdê-la vezes sem conta enquanto não nos apercebermos desse aviltante terrorismo interno e interior. O sangue continuará a correr e serão as nossas mãos as mais manchadas de vermelho. Sem futuro ao alcance.

Imagem de “A Barreira Invisível” de Terrence Malick 

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