Texto: Existi Em Ti

Tenho saudades de ser jovem. De viver sem o teu peso amarrado, criado de memórias que se prendem nesta terra me abrandam o passo e me impedem de ser. Para quem nunca teve, ter ultrapassa o querer. É intrínseco ao ser, é a inércia com que luto ao pertencer. Tenho saudades de me conhecer sem ti, de saber se sou. Tive-te sem te ter, quebraste o que nunca fomos mas que existiu. A ilusão. Passas a vida a isolar o futuro num pensamento, e o silêncio. O silêncio exterior das noites em que foges, corres e te viras para o que nunca consegues, adormecer. Lembro-me do teu colo, de ouvir o teu coração bater e pensar que o fazia tremer. Ajudaste-me a gritar mas nunca te ouvi, o amo-te como se um eco do resto do que nunca fomos e do que te tornaste.

Custa respirar o ar em que não te encontro. Saber de ti, que consegues. Este inchaço que me sufoca a alma, este peso do que não és. Esta vida não é arte, mas os teus olhos eram a minha tela. Aquela em que fui. Na qual podia sempre ser. Pertencer.

Tão frágil, o toque da tua voz em mim, a maneira com que me abraças sem me tocares. Sem estares. A tua voz. A firmeza das tuas mãos. As lágrimas. Os teus lábios que me fugiram. Tive-te sem te ter e entristece-me o saber viver sem te querer.

Não sei como estou, nem conjugar o que sinto.

Tiraste de mim o que não sabia ter e eu estou a aprender. Conhecer antes de te entregar, amar-te antes que te roubem.

A tua memória é a dor que em mim rasgaste, a que luto por calar. Desistir do que nunca foi, do que não eras e do que eu fui. A insanidade nasce da memória que ficou por morrer. Morre em mim, peço. Agora.

Existi em ti.

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