Entre o gosto, o nojo e o ódio: uma perspectiva pessoal

“Quem o gosta, o louve, e quem não o gosta, o mofe.”

Quem gosta, come; e quem não gosta, come menos.”

ou, simplesmente, “Gostos não se discutem.”

Assim diz a nossa sabedoria popular.

 

Mas será assim tão simples delimitar o gosto do nojo e do ódio? Os gostos devem mesmo estar isentos de uma análise aberta e de uma discussão franca?

Até que ponto é que os nossos gostos não evoluem de estereótipos, estigma e preconceito? Como podemos separar a descriminação pura das preferências pessoais?

 

Neste site, temos falado muito sobre algumas ideias fixas que existem face à masculinidade, às guerras civis (in)visíveis e à “exuberância” do activismo LGBT. Infelizmente, houve a abertura de novas trincheiras e uma escalada bélica para alguns leitores, especialmente nos comentários do Facebook. Assim sendo, pensei que talvez fosse interessante partilhar a perspectiva pessoal de alguém que esteve nos dois campos de batalha.

 

Acho que o primeiro insulto que ouvi em criança foi “paneleiro”. Talvez “maricas”, não me lembro muito bem. Mas sei que não foi “gordo” ou “feio”, porque isso veio mais tarde. E essas duas belas palavras, em conjunto com outras mais eufemistas (p.ex. “efeminado”) ou mais grosseiras (p. ex. “boiola”), acompanharam-me durante uma vida inteira. Perguntaram-me se gostava de levar no cú antes de perceber sequer o que isso significava e insinuavam que eu gostava era de estar de joelhos quando eu, bolachudo como era, só deveria querer era estar sentado. Depois, tudo era policiado:

  • O tom de voz e como gesticulava enquanto falava;
  • Como cruzava as pernas quando me sentava;
  • O que gostava de fazer nos tempos livres;
  • As minhas notas;
  • Como olhava para as unhas;
  • Como apanhava um objecto do chão;
  • Como coçava o pescoço;
  • Como apagava um fósforo;
  • etc.

Era um jogo merdosito desenvolvido por crianças ranhosas e preconceituosas, provavelmente inspiradas nos papás e nas mamãs ainda mais ranhos@s e preconceituos@s, que acabava com um veredicto: macho ou paneleiro. Geralmente era declarado culpado por paneleirice crónica e condenado a 2h de choro e desilusão em casa (chorar em público era para as meninas, claro).

(In)Felizmente, para além de gordo, feio e, claro, paneleiro, também achava que era inteligente. E comecei a tentar entrar no jogo preconceituoso: passava dias a controlar todos os mais ínfimos pormenores da minha existência, montando uma complexa máscara de masculinidade. Claro está que as criancinhas não eram só ranhosas e preconceituosas, mas também espertas demais para caírem na marosca.

Estava perdido entre duas personalidades: a do rapaz que gostava de raparigas mas que não era masculino e a do rapaz efeminado que não se sentia gay (a atracção por pessoas do mesmo sexo surgiu/foi desbloqueada bastante mais tarde).

Com isto, passei ao plano B: aceitar que nunca me iria integrar a 100% e dedicar um especial ódio aos paneleiros exuberantes com quem não me identificava e que faziam, indirectamente, a minha vida num inferno.

 

Este ódio rapidamente se traduziu em nojo na minha adolescência. Isto porque, enquanto adolescente, comecei a ser alvo de atenção por homens mais velhos. Algo que a minha própria mãe e amigos reparavam.

À semelhança de tantas mulheres, sei bem o que é ser olhado como um naco de carne por alguém que nos dá asco. Sei bem o que é ter 14 anos e perceber que o homem rebarbado não está a olhar para a minha mãe; está a olhar para mim. Ou ter 15 anos numa discoteca e ouvir de uma amiga minha “Está ali um gajo especado a olhar-te para o rabo há uma hora.” E sei bem o que é ser culpado por isso. Afinal, um gajo efeminado está à espera de atrair o quê? Ao contrário da exigente carochinha dos nossos contos de criança, nem todos têm pretendentes que têm de enxotar a cada passo que dão. Ninguém quer casar com bichas ou camionas.

 

Obviamente que este misto de ódio e nojo não se voltava apenas para os homens homossexuais, mas também para dentro. Perdi a conta do número de vezes em que desejava ser gay, apenas para facilitar a minha vida. Claro está que, quando o meu desejo de atracção por homens se concretizou, entrei em pânico.

Era irónico que, após tantos anos de bullying, desilusão amorosa e autocomiseração, a minha bissexualidade fizesse a sua aparição nas primaveras de uma relação com uma mulher. Apesar de terem sido anos difíceis de luta interior e de avanços e recuos, consegui tornar-me num homem sem vergonha da minha orientação sexual, feliz e relativamente bem-resolvido.

 

Agora perguntam: Onde entra o limite entre gostos, ódio e nojo aqui?

Surge da seguinte frase que entoava inúmeras vezes com confiança, após assumir a minha bissexualidade: “Mas só gosto de raparigas bem femininas e de rapazes bem masculinos”.

 

Uns meses mais tarde sugiram-me algumas perguntas:

“Como é que eu posso ter a certeza que estes gostos são meras preferências e não têm origem no meu próprio preconceito, dada a minha história pessoal?”

“Estes gostos não se baseiam em nojo ou ódio?”

“Porque é que eu fico irritado quando assumem que sou gay e feliz quando me dizem que não o pareço ser?

 

Acho que estas são perguntas fundamentais para qualquer um/uma de nós. É importante discernirmos gostos sem razão aparente, meras preferências físicas ou psicológicas, de conceitos errados, baseados em nojo e ódio, que possamos ter relativamente às características d@ outr@.

 

No meu caso, por exemplo, os meus gostos baseavam-se em ódio e nojo. Foi depois de muita auto-análise e resolução de conflitos interiores que percebi que a identidade de género não estava relacionada com a minha atracção por outr@s e que me identificava como pansexual. Que eu gostava de pessoas  (obviamente adultas e capazes de consentir) cultas, engraçadas e humildes, independentemente do seu género, da roupa que usavam ou dos genitais que tinham.

 

Não quero, com isto, dizer que sou melhor que todos os bissexuais, homossexuais ou lésbicas. Ou que todos os homens gays que gostam de homens “classicamente” masculinos são homofóbicos e misóginos ou que as mulheres lésbicas que gostam de mulheres “classicamente” femininas são anti-butch ou misândricas. Há gostos que são verdadeiramente “gostos” que nascem connosco e que estão fora do nosso controlo.

Quero, sim, dizer que associar “exuberância”, “fraqueza” e “inferioridade” a homens mais femininos ou receptivos na relação anal não é justo e é algo baseado em nojo e ódio. O mesmo aplica-se a uma mulher lésbica que usa maquilhagem, saltos altos e quer ser uma mãe stay-at-home. Ela não é uma “desilusão”, “traição do feminismo” ou “misógina”. Uma pessoa trans não-binári@, bissexual/pansexual ou assexual também não “quer só chamar à atenção” ou “dividir a comunidade LGBT”.

Se não gostamos de pessoas muito extrovertidas e que gostam de ser o centro das atenções, isso não é equivalente a dizermos “não gosto de bichas/mulheres divas”. Se não estamos interessad@s em pessoas que gostam de ir ao ginásio, ver desporto e sem sentido de estilo, dizer “não gosto de camionas/machos discretos” não é a mesma coisa.

 

Os rótulos têm a sua relevância política e são importantes na nossa autodefinição. Mas, em aplicações de namoro e na vida quotidiana, não os devemos confundir com estereótipos.

 

Fonte: Unsplash por Daniel Watson (imagem)

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