Conhecer A Exposição Fotográfica “antes de ser TRANS, é ser Pessoa”

No passado dia 22 foi Dia Internacional da Despatologização Trans e foi também nesse dia que se deu a abertura da exposição “antes de ser TRANS, é ser Pessoa” da autoria do António Pedro Almeida e com a nossa Daniela Bento.

Numa noite que se adivinha chuvosa o Centro LGBT foi-se enchendo de pessoas curiosas pelas fotografias do António e pelos textos da Dani que acompanham cada uma das dez fotografias penduradas nas paredes. Entre olhares, beijos e abraços, a exposição assim se anunciava:

Com a crescente notoriedade dos direitos LGBT na sociedade portuguesa, caminha-se no sentido de uma sociedade aberta e igual entre todos. Este ano assinala-se também o décimo aniversário do assassinato de Gisberta Salice Júnior, brasileira e transexual, que foi morta por um grupo de adolescentes na cidade do Porto.

É desta contextualização que surge a intenção de realizar este projecto sobre a comunidade LGBT, com os objectivos de documentar a relação entre uma pessoa transexual e a sociedade actual, evidenciando a identidade e o reconhecimento como indivíduo pleno de direitos; e de promover a igualdade, o reconhecimento, a reflexão, e combater a discriminação, a prisão, a injustiça e o silêncio.

“antes de ser Trans, é ser Pessoa” é um trabalho de fotografia documental e de intervenção que permite “reflectir, deitar ao chão preconceitos e máscaras, romper o cerco de silêncio em que vive boa parte daqueles a quem a expressão livre da sua identidade é negada“. Documenta, em retratos, o dia-a-dia da Daniela Filipe Bento, durante os 4 meses de envolvência e de trabalho. A Daniela Bento é engenheira de software e estudante de astronomia. Apaixonada por arte e amante do mundo, é também uma rapariga trans não binária, pansexual e poliamorosa. O trabalho de fotografia é acompanhado por textos pessoais sobre a sua vida e o seu processo em género de diário.

[clicar nas fotografias para ver em tamanho original e ler respectivas legendas]

Aproximavam-se das 22h quando, por fim, o Paulo Rainho reuniu as pessoas presentes e as convidou a assistir à apresentação da exposição e posterior tertúlia sobre a temática Trans. Visivelmente nervoso, o António agradeceu então a presença daquelas pessoas e deixou desde logo claro que as suas fotografias eram complementadas pelos textos da Dani. Explicou depois que o projecto – final do Curso de Fotografia na Escola Tecnologias Inovação e Criação (ETIC) – foi motivado pela existência de “uma lacuna na temática da identidade de género“. E aprofundou:

Todos os temas que pesquisei para projecto focavam-se numa perspectiva negativa do processo [da pessoa Trans] e eu quis dar-lhe uma perspectiva positiva. Foi também uma necessidade minha e fui fazendo parte desta comunidade, senti uma necessidade de mudar, de tentar obter mais informação sobre o tema e tentar quebrar conceitos e barreiras.

Para isso, acompanhou durante quatro meses a Dani no seu dia-a-dia com o objectivo de dignificar a pessoa e de “reflectir, deitar ao chão preconceitos e máscaras, romper o cerco de silêncio em que vivem boa parte daquel@s a quem a expressão livre da sua identidade é negada“.

[clicar nas imagens para as ver em tamanho original]

Depois foi a vez da Dani tomar a palavra e, com o seu jeito e humor, confessou lembrar-se do dia em que conheceu o António, como ele se apresentou formalmente com um “olá, eu sou o António e quero fazer um projecto“, ao que ela lhe respondeu, quebrando assim o gelo, que “se a quisesse fotografar nua na banheira não havia problema” [risos]. E continuou:

Vi  apenas hoje, quando entrei há uma hora por aquela porta, a exposição final e o António conseguiu criá-la numa perspectiva diferente, de forma a enquadrar pessoas. Não é por eu estar nesta fotografia [aponta para uma das fotos], porque o António focou-se no que é ter uma vida comum, tal como toda a gente tem. Existem momentos de festa, momentos de marcha, momentos em que estou em tronco nu, momentos em que estou com quem gosto, momentos em que estou a fazer teatro.

Para mim foi empoderador, não foi um trabalho em que apenas nos focamos no sofrimento alheio. Nesse aspecto gostei bastante de trabalhar com o António e espero continuar a trabalhar com ele neste sentido, porque isto é na realidade um projecto contínuo e que não pára aqui.

Aplausos recebidos, a Dani deu então seguimento à tertúlia sobre o tema que marcava o dia, a despatologização Trans, que se prolongou até perto da meia-noite com a chuva lá fora a marcar presença e cujo conteúdo pode ser explicado de forma clara no seu texto aqui publicado. O público ali se manteve, interessado e curioso, questionando-se sobre o que era ser-se Trans e como estas pessoas vivem os desafios e as micro-agressões constantes do seu dia-a-dia.

A exposição poderá ser visitada até ao dia 12 de Novembro no Centro LGBT na Rua dos Fanqueiros em Lisboa.

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