Diversidade LGBT nas empresas – a minoria invisível

Há 2 anos tive um momento de clarividência que me surpreendeu e que veio reforçar algo que já tinha aflorado quando vi o filme “The Normal Heart” baseado num argumento de Larry Kramer sobre o início da epidemia da SIDA em Nova Iorque nos anos 80. No filme Ned, um personagem desempenhado de forma extraordinária pelo actor Mark Ruffalo, apercebe-se que algo de muito errado se passa na comunidade gay ao ver dezenas de amigos seus a adoecerem e eventualmente a morrerem. Ele precisa que as autoridades reconheçam que existe um perigo para a saúde pública mas para que isso aconteça teriam de reconhecer que existia um grupo específico que estava a ser largamente afetado – os homens homossexuais. “To win a war, you have to start one” (para ganhar uma guerra é necessário começá-la). Era necessário que algum responsável pela saúde pública reconhecesse que este grupo existia, e os responsáveis estavam todos em negação!

Há 2 anos fui ao desfile anual do Orgulho LGBT em Madrid, como tenho ido todos os anos desde que me assumi perante os meus amigos e família. Mas há 2 anos não fui apenas assistir ao desfile, fui convidada a participar nele como parte de um grupo de empregados da empresa onde trabalho, a IBM, numa das iniciativas anuais do grupo EAGLE (Employee Alliance for Gay, Lesbian, Bisexual and Transgender Empowerment). Um dos motes do desfile desse ano foi precisamente “en el trabajo, no silencies tu orgullo” (no trabalho não silencies o teu orgulho). E foi então que me apercebi que algo está errado nas empresas onde trabalhamos mas que o problema não é só das empresas. Muitos empregados LGBT por inúmeras razões preferem esconder o que são, havendo inclusive alguns que chegam a criar personagens ficcionados chamando-lhes “namorados”/”maridos” ou “namoradas”/”mulheres” de um género distinto daquele que é o do seu companheiro ou companheira. Esta é uma estrada de dois sentidos, as empresas precisam de facilitar o “come out” dos empregados ao demonstrarem que promovem um ambiente de diversidade e inclusão mas por outro lado os próprios empregados precisam de fazer o seu “come out”, precisam de parar de silenciar aquilo que são, precisam de parar de mentir!

A orientação sexual e a identidade de género não são características visíveis. E cada um de nós tem o direito a não partilhar algo que é tão pessoal e privado, chegando mesmo a ser doloroso e traumático em muitos casos. Dizer “sou homossexual” ou “sou transgénero” não é a mesma coisa que dizer “vou casar” ou “vou ter um filho” ou qualquer outra notícia pessoal que toda a gente partilha com os seus colegas de trabalho sem pensar duas ou três vezes.

O meu próprio “come out” no trabalho não se passou duma forma agradável ou descontraída. Estávamos num almoço de trabalho e comentavam-se os rumores sobre a possível homossexualidade do Cristiano Ronaldo. Alguém comentou que hoje em dia parece que está na moda ser-se homossexual e nesse momento saltou-me a tampa. Tentando controlar a raiva perguntei-lhe se achava que era fácil assumir-se homossexual perante os pais, os filhos, o marido, as irmãs, e todos os amigos, tal como eu tinha feito aos 35 anos. Após um momento de estupefação generalizada desculpou-se dizendo que nem fazia ideia que eu fosse lésbica. Ele, assim como todos os outros colegas ali presentes, tinha assumido que eu era heterossexual por ser divorciada e ter filhos. Aproveitei o momento para partilhar com todos a notícia que me iria casar daí a uns meses com a minha namorada e todos se juntaram para me dar os parabéns em relação a esta notícia pessoal que decidi partilhar com eles.

Em Portugal aparentemente não é legal uma empresa possuir informação sobre a orientação sexual de um empregado. A IBM permite que nalguns países onde isso é legal os empregados se identifiquem como homossexuais ou transgénero. Isso permite-lhe em termos globais ter uma maior visibilidade sobre o número de empregados que constituem esta minoria. Em Portugal não temos esses dados estatísticos pelo que não é possível a empresa saber quantos dos seus empregados serão LGBT. Muito facilmente as empresas poderão dizer que como não sabem assumem que esse número será zero. Isto significa que somos de facto invisíveis para as empresas onde trabalhamos. Embora muitos prefiram que se mantenha desta forma, incluindo algumas pessoas LGBT que preferem não se assumir, eu como pessoa LGBT quero falar sobre essa parte da minha vida que é uma parte tão importante daquilo que eu sou. Quero ajudar a criar um ambiente que seja seguro para os meus colegas LGBT, para que sintam que não têm de viver num estado constante de medo. Quero dizer-lhes que não precisam de mentir, a nossa sociedade evoluiu muito na última década em relação aos direitos da minoria LGBT. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 2010, e a discriminação baseada na orientação sexual é ilegal desde 2004. Ainda recentemente foram aprovadas a co-adopção e adoção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo e o acesso à PMA (Procriação Medicamente Assistida).

Assim comecei a falar sobre a inclusão de empregados LGBT na empresa e as minhas dúvidas e questões foram-se dissipando ao aperceber-me que trabalho numa empresa que é líder no tema da diversidade em termos globais. Eu falei e eles ouviram-me, acolheram-me e deram-me ferramentas para poder falar com mais e mais pessoas em vários países da Europa e do mundo. Estamos numa época de mudanças, mudanças ao nível do comportamento, ao nível do respeito por todos os que acolhemos no seio das nossas empresas, incluindo as pessoas que não querem esconder e não querem mentir sobre aquilo que são. Já tanto foi feito no âmbito da igualdade de género, está na altura de se começar a falar também na diversidade e inclusão de pessoas LGBT nas empresas para que possamos partilhar o nosso todo sem medo com aqueles com quem passamos a maior parte do nosso tempo.

 

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Madalena é uma engenheira e gestora de projetos sénior na IBM Portugal tendo trabalhado durante mais de vinte anos no desenvolvimento de aplicações no departamento de TI duma empresa de telecomunicações nacional. Sempre foi uma defensora dos direitos humanos e diversidade nomeadamente nas componentes de género e LGBT. Sente-se muito orgulhosa por trabalhar numa empresa que promove ativamente um ambiente de diversidade e inclusão para tod@s os seus empregad@s. É atualmente líder do grupo EAGLE na área geográfica SPGI (Espanha, Portugal, Grécia e Israel).

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