Maria E Madalena: A Psicologia Da Má-Fé

Nos últimos dias assistimos à denúncia das declarações da Presidente dos Psicólogos Católicos sobre a homossexualidade e às resultantes reacções que culminaram na abertura de um inquérito por parte da Ordem dos Psicólogos Portugueses sobre tais afirmações. Não esqueçamos que, mais que uma manchete (“Ter um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente“), é o conteúdo de um artigo repleto de ideias preconceituosas sobre uma orientação sexual que não têm qualquer cabimento científico há pelo menos quatro décadas. Não se trata aqui de uma questão de liberdade de expressão, pois que fique claro que a Maria José Vilaça, pessoa, poderá pensar e exprimir-se livremente. Pode, até e obviamente, ser uma pessoa de Fé (o que quer que isso signifique). O que não pode acontecer, pelo menos sem qualquer repercussão, é a Maria José Vilaça, psicóloga, proferir declarações que vão contra o código deontológico da profissão que exerce. O mesmo se exige a outros técnicos da área da Saúde.

Argumentos floreados com palavras como o Amor ou a aceitação servem muitas vezes apenas para escamotear o tremendo preconceito homofóbico que estas pessoas possuem. Maria José Vilaça, em 2008, diante de uma figura da Virgem e de Jesus [acima] e identificada como Psicóloga e Psicoterapeuta, responde a uma voz masculina atrás da câmara que a filma sobre este bizarro enquadramento. E no igualmente bizarro vídeo esta deixa desde logo clara a sua posição sobre a homossexualidade: “Eu entendo que é uma doença“. O problema é que a Maria, não a Virgem, a Psicóloga, não entende ou não aparenta entender como a Psicologia trata a homossexualidade. Mas eu ajudo, citando, mais uma vez, a Ordem dos Psicólogos Portugueses:

Desde há décadas, apoiada pelas evidências e pela comunidade científica, que consideram a homossexualidade como uma expressão adequada da sexualidade humana (…) Desde 1974 existe um consenso nos profissionais e investigadores da saúde mental: a homossexualidade é uma expressão adequada da sexualidade humana e não coloca obstáculos a uma vida feliz, saudável e produtiva.”

Portanto, dificilmente seria mais compreensível, até para um leigo, a ideia que “os homossexuais funcionam saudavelmente nas suas relações interpessoais e na sua participação nas instituições sociais“. Ou seja, não, a homossexualidade não é uma doença e simplesmente a Maria José Vilaça, tendo conhecimento disso – ou teremos que acreditar que não tenha lido sobre um tema que tanto fala nas últimas décadas – não separa os dogmas da sua Fé com o seu exercício profissional e isso não é, simplesmente, admissível. Porque as pessoas “perturbadas pela homossexualidade“, como diz, são antes perturbadas por depoimentos destes. A Maria defende também a existência hoje em dia de “uma cultura que defende – e até incentiva – a utilização da homossexualidade como uma coisa normal“. Talvez a Maria não tenha conhecimento ou não entenda, mais uma vez, que a homofobia e a transfobia são duas das causas principais de violência no mundo. Por isso, o sofrimento que diz necessário para a superação desse estado não vem necessariamente de dentro, mas sim de fora da pessoa, vem de toda a pressão social, vem de todas as expectativas que lhe são impostas, vem de toda a violência verbal e física que sofre no seu dia-a-dia. A sexualidade em si? Peanuts!

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Mas Maria não está obviamente sozinha. Eis que sob o mesmo olhar da Virgem e do menino surge Madalena (escolha de nomes sublime). Mais concretamente a Psicoterapeuta Madalena Fontour que arranca desde logo com seu discurso ao afirmar categoricamente que ela “parte de uma ideia de pessoa que é inspirada na antropologia cristã, sendo que toda a sua experiência clínica funciona como uma evidência de que essa forma de olhar o Homem é mais verdadeira e realista“. Isto promete, não sentia um momento de derrapagem tão eminente desde que o Trump abriu conta no Twitter. Madalena Fontour prossegue declarando que vão ter consigo “pessoas que têm problemas de homossexualidade” – imagino que sejam pessoas com alguma fantasia por concretizar. Mas não, afinal são apenas “pessoas com um problema de relação, são pessoas frias, são pessoas que não estão bem“. Talvez não estejam bem quando a procuram, mas com aquilo que evangeliza certamente não ficarão melhores. Vamos lá trazer a papinha toda à Dra. e ver o que diz a Ordem mais uma vez (e as vezes que forem necessárias):

A maior parte das evidências científicas sugere que, tal como os heterossexuais, a maior parte dos homossexuais (masculinos ou femininos) quer relações românticas duradouras e estáveis (…) Os homossexuais têm, na realidade, relações a longo-prazo, estáveis e comprometidas (…) A investigação empírica demonstra ainda que os aspectos psicológicos e sociais destes relacionamentos entre casais do mesmo sexo são muito semelhantes aos dos relacionamentos heterossexuais. Tal como os casais heterossexuais, os casais homossexuais desenvolvem laços de vinculação emocional e compromisso. Os casais homossexuais lidam com assuntos relativos à intimidade, amor, equidade, lealdade e estabilidade através de processos bastante similares aos dos casais heterossexuais.

É realmente uma chatice quando o preconceito religioso se imiscui com dados científicos, porque, e mais uma vez aqui se mostra, a Madalena está profundamente errada quando diz tamanhas barbaridades. Mas a Psicoterapeuta prossegue afirmando que hoje em dia “a sociedade começa a entender a heterossexualidade como uma coisa opcional“. Ora, aqui está aquele chavão medonho da opcionalidade que não é mais que uma repetição do já nosso conhecido “já não lhes passa pela cabeça serem heterossexuais“. Uma criança ou adolescente que vive numa sociedade altamente hostil para a população LGBTI escolhe, seguindo o raciocínio destas duas psicólogas e de forma mais ou menos explícita e mais ou menos violenta, ser vítima de todo o bullying. Pois…

Como reflexo de uma “sociedade vazia“, continua, “estas pessoas quando tiveram um momento de fragilidade encontraram uma voz que se disse amiga – mas que considera profundamente inimiga – que lhes disse: se calhar é porque és; se calhar é porque no fundo tens outra tendência!” Já cá faltava a imagem da tentação do diabo para compor todo este ramalhete profano, é realmente difícil levar uma argumentação clínica seriamente quando estamos neste nível. Não será o retrato oposto mais próximo de uma realidade satânica (só para manter a imagem religiosa, entenda-se)? Haver alguém que, num momento de fragilidade, encontrou uma voz que se lhe disse clínica – mas que considero profundamente pseudocientífica – e lhe disse: se calhar é porque não és; se calhar é porque no fundo tens esta tendência!, é que é errado e perigoso, por tudo aquilo que referi acima. Ao contrário das crianças e adolescentes mais impressionáveis – e respectivos pais e mães, já agora – não vamos em histórias do bicho papão.

Mas Madalena continua: “A homossexualidade é um engano em cadeia” e denuncia que o meio homossexual (novamente, o que quer que isso seja) “é persecutório onde há muita chantagem emocional, em que a pessoa se sente a trair um conjunto de pessoas com quem conviveu se hesitar nesse caminho da homossexualidade“. Talvez a pseudopsicoterapeuta (!) não tenha percebido a ironia do que disse, porque na realidade a perseguição que fala é feita àqueles e àquelas que hesitem o caminho da heterossexualidade! E mais, nesta afirmação é flagrante o seu profundo desconhecimento sobre a população LGBTI que, em vez de se cerrar sobre si mesma como aliás algumas faixas da sociedade, vive o seu dia-a-dia na companhia de pessoas cuja orientação sexual é distinta da sua. Havendo laços genuínos, todas as pessoas são bem-vindas a partilhar e a unir-se numa vida e luta pela liberdade e igualdade universais.

E depois culpam-se as famílias monoparentais, os pais ausentes, as mães super-protectoras e obsessivas que tiram partido dos filhos, culpam-se as pessoas que tiveram experiências heterossexuais sucessivas e incontidas e que vão à procura de novas experiências, culpam-se os lobbies gays, culpa-se a comunidade científica, culpam-se ideologias militantes, culpa-se tudo, todos e todas. Culpa-se tudo menos a irresponsabilidade gritante do impacto que afirmações como estas têm em quem procura ajuda, diante destas pessoas ou por trás de um ecrã. E isto, que fique bem claro, não é uma questão de Fé, mas sim de má-fé. Porque duas psicólogas podem não matar, mas “podem deixar morrer“. E nisso não há defesa possível. Absolutamente nenhuma.

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