2016: Memórias De Um Ano Arco-Íris

2016 foi mais um ano que trouxe à população LGBT em Portugal uma evolução nos seus direitos que apenas se desejam iguais aos da restante população, como, aliás, não podia deixar de ser. Não é pequice ou radicalismo, é mesmo uma questão de princípio pela igualdade entre todas as pessoas que por aqui vivem. No ano que agora finda deparámo-nos com momentos de grande celebração, mas também com outros que nos obrigaram a questionar aquilo que nos motiva. Assim foi (um pouco) de 2016:

Janeiro
2016 começou com a campanha para a Presidência em que levantámos algumas questões sobre Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Belém em relação às suas posições em relação aos direitos da população LGBT. Janeiro foi também o mês em que nos despedimos de um ícone: David Bowie falecia dias depois do lançamento do seu derradeiro álbum, Blackstar. Gisberta foi igualmente lembrada, porque não pode ser esquecida.

Fevereiro
Este foi o mês em que a Assembleia da República, após o veto do Presidente Cavaco Silva, voltou a confirmar a aprovação do direito à adopção por casais do mesmo sexo. Foi também em Fevereiro que assistimos a TAP Portugal a premiar, entre outros, um casal de mulheres num concurso promocional à marca no Facebook. Mas mais que isso, foi a resposta exemplar da empresa aos comentários homofóbicos que surgiram. Uma marca do lado certo e a lembrar a Constituição ao seu público.

Março
Março começou com polémica sobre os brinquedos sem género predefinido do McDonald’s. E foi também neste mês que lançámos um desafio a deputad@s dos vários partidos da Assembleia: escreverem sobre o que para eles e elas significa a nova lei da adopção em Portugal. Assim surgiu a rubrica “Escrever A Adopção” onde podem ser lidos os vários testemunhos que nos foram enviados.

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Abril
Foi neste mês que foi denunciado pela jornalista Catarina Marques Rodrigues o caso de homofobia no Colégio Militar que colocou o País a discutir sobre bullying e Educação. E sobre bullying também cantaram Carlão e Boss AC no tema “E Se Fosse Contigo?“. Foi também em Abril que se deu início a um projecto de lei para a despatologização da diversidade de género. E, claro, em Abril descemos a Avenida da Liberdade, porque esta também é nossa!

Maio
Foi já em Maio que passou o episódio sobre a homofobia de “E Se Fosse Consigo?“, programa que tinha como banda-sonora a canção apresentada no mês anterior. Ironicamente, no ‘santo’ dia 13 a Procriação Medicamente Assistida tenha sido aprovada em votação final global com aplausos de muitos deputados e deputadas, tal como das bancadas. Já no dia 17 foi comemorado, embora com alguns percalços, o primeiro dia nacional contra a homofobia e transfobia. Foi também neste mês que denunciámos as declarações homofóbicas do jornalista Filipe Santos Costa em relação a Adam Lambert e o seu concerto com os Queen no Rock In Rio.

Junho
Junho foi mês repleto de momentos históricos: o Primeiro Ministro Canadiano Justin Trudeau hasteou pela primeira vez uma bandeira do Orgulho LGBT; um hotel em Portugal vedava a entrada a pessoas homossexuais gerando tremenda polémica e Marcelo promulgou a nova lei da Procriação Medicamente Assistida. Mas o momento que tudo mudou à escala global foi o atentado à discoteca de Orlando que provocou a morte a 49 vítimas, maioritariamente LGBT, onde por um beijo se matou e que trouxe um silencio em relação às motivações do atentado por boa parte dos meios de comunicação. E quem o denunciava, reivindicava, chorava era insultad@ e menosprezad@. Mas foi tudo isto que nos fez reagir e permitiu que a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa se transformasse e transfigurasse na maior de sempre.

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Julho
Na primeira semana de Julho aconteceu o Orgullo 2016 em Madrid, uma lição daquilo a que podemos – e devemos – ambicionar ter um dia por cá. A associação Tudo Vai Melhorar lançou a websérie “Já Melhorou!” com testemunhos de várias personalidades LGBT. E porque Portugal, ao consagrar-se Campeão Europeu de Futebol Masculino, fez história, nós celebrá-mo-la com um beijo!

Agosto
O mês mais quente por excelência foi inundado pelos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro e aí aconteceu a participação LGBT mais forte – e visível – de sempre. Foi também lá que Telma Monteiro se consagrou bronze no Judo e inspirou Portugal. Foi igualmente em Agosto que Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular, afirmou que o casamento era “entre um homem e uma mulher“, entrando assim – e não pela última vez – em desnorte político.

Setembro
Este mês começou com um Rei a incluir toda a população LGB norueguesa no seu discurso. O final da discriminação na dádiva de sangue celebrou-se igualmente nos últimos dias do Verão, falta, contudo, ainda colocar em prática as alterações aprovadas.

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Outubro
E o Outono trouxe-nos um atleta olímpico canadiano, John Fennell, que nos falou do seu coming out e da homofobia inerente à prática desportiva. Foi também neste mês que Anderson Cooper se tornou no primeiro jornalista assumidamente LGBT a moderar um debate presidencial nos EUA.

Novembro
Foi numa madrugada de Novembro que Donald Trump foi eleito Presidente e o dia seguinte não foi melhor. E logo a seguir denunciámos uma Psicóloga, Católica, que afirmava que “ter um filho homossexual era como ter um filho toxicodependente” e, pior, não estava ela obviamente sozinha. O País incendiou-se em movimentos e discussões sobre a defesa da liberdade de expressão e os dados científicos que contrapunham, unanimemente, Maria José Vilaça. Aguardamos, pois, ainda o resultado do inquérito da Ordem dos Psicólogos Portugueses que se afastou das declarações da psicóloga. Foi ainda neste longo mês que um dos autores que mais vende em Portugal, Gustavo Santos, afirmou em entrevista que a homofobia permite crescer através da dor, invertendo assim – e não pela primeira vez – a culpabilidade para a vítima.

Dezembro
No último mês do ano de 2016 fomos prenúncio do debate sobre ofensas e liberdade de expressão que dias depois assolou Portugal devido a uma entrevista que colocou a opinião sobre o poder da palavra – e respectivo insulto – de Ricardo Araújo Pereira contra a de Paulo Côrte-Real. E para isso viajámos também uns séculos para descobrir a génese de alguns insultos usados diariamente. Mudando de ares, este foi o mês em que a National Geographic colocou uma rapariga trans na iconográfica capa e em que, ironicamente, o João Miguel Tavares declarou-nos um site de opinião respeitável. E deixaram-nos George Michael e Carrie Fisher, ambos ícones dos movimentos LGBT e feminista. E por falar em ícones, mesmo a tempo do seu concerto de final de ano no Terreiro do Paço, Rui Veloso revelou-se, mais uma vez, um homofóbico.

2016 não foi um ano fácil, mas foi um ano em que mostrámos que de perto somos realmente mais fortes e conseguimos ultrapassar os obstáculos que, quer por ódio, ignorância ou simples má-fé, nos tentam colocar no caminho para uma igualdade universal. O sentido está traçado, venha pois 2017!

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