O Ziggy Tocava Guitarra!

Daqui a dois dias, 10 de Janeiro, faz um ano desde que David Bowie nos deixou deixou, mais empobrecidos e macambúzios. Coincidência bizarra, mas desde então que o Mundo tem-se tornado cada vez mais alienígena e estranho, dia após dia, da pior forma possível. Mas não. Não. Não vamos chorar novamente a sua morte e pensar no simbolismo da mesma. Hoje David Bowie faria 70 anos, com 50 deles dedicados à Música e a mostrá-la ao Mundo. E o Mundo mudou. Transformou-se. Cada memória e cada momento vividos por alguém desde então é diferente. Será que temos essa noção? De que cada e qualquer canção que ouvimos desde esse dia deve a Ele um pouco da sua ambição. Da sua audácia. Do seu coração.

Também eu sou diferente graças a Ele. Aqueles que hoje comigo conversam dificilmente percebem na máscara que uso, tal como todos usamos uma, um passado de isolamento auto-inflingido. Assim aconteceu durante largos anos, mas, numa tarde dessa prisão, conheci Ziggy Stardust, uma das máscaras que David Bowie quis e soube usar. Porque as máscaras somos nós também. Vislumbrei naquele momento de embate algo novo, naquele alter-ego extravagante e não filtrado. A atração foi imediata e cedo devorei o que consegui encontrar dele.

Foi nessa viagem que vi a mítica actuação de Starman em 1972 no Top of the Pops. Aquela que tudo mudou. No Mundo. E, nesta odisseia, também a mim. Tudo começa com uma guitarra azul a ser dedilhada por uma figura frágil de cabelo escarlate com um macacão caleidoscópico a ela colado. A fragilidade rapidamente sofre uma metamorfose ao longo da performance e revela-se nela o ser mais corajoso em que alguma vez tinha posto os olhos. Nunca tínhamos presenciado ninguém tão feliz. Tão completo. Tão Livre. O Homem das Estrelas. Andrógino. Visualmente. Sexualmente. A rasgar costumes. Do Mundo. E, tantos anos mais tarde, os meus. Aceitei-me um bocadinho mais naquele momento de reconhecimento tão invulgar. Comecei a perceber que nada podia ser verdadeiramente comum ou monocromático. Que existia magia por detrás da diferença. Do que era olhado com desdém e insultado.

Hoje leio a letra daquela música e tudo me parece absolutamente transparente. O Homem das Estrelas aguardava ansiosamente conhecer-nos. Mas sabia que não estávamos preparados. Ainda. Para o aceitar na sua plenitude. Na sua liberdade tão pura e cósmica, sem limites nem prazo de validade. É assim que escolho recordar Bowie. Como Ziggy, de guitarra azul nas costas e a pairar nos limites da Terra à espera. À espera que estejamos preparados para o conhecer. Quando quisermos e sempre que precisarmos.

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