Lua Cheia: Uma Curta Sobre A (des)Continuidade Do Amor

Nunca na minha vida alguma vez pensei em fazer um filme, quanto mais em âmbito académico.

Ter ido para Geografia aquando da minha entrada no ensino superior fez-me acreditar que o meu futuro profissional começaria a formar-se a partir desse momento. Estava enganado.

Conheci pessoas, fiz amigos e apesar de gostar de algumas coisas do curso cedo me apercebi que o mesmo não me preenchia. Quis mudar mas o primeiro ano correu razoavelmente bem, estava no segundo e só faltava um. O que é que custava aguentar só mais um ano?

Chegada a altura da mudança para onde me havia de virar? Tantos interesses, só poder escolher um… O peso de ter que fazer a escolha certa, de só ter mais uma oportunidade.

Na impossibilidade nesse ano de concorrer para uma Licenciatura em Música cometi talvez a maior atrocidade de todas, inscrever-me num Mestrado em Geografia para me “manter ocupado” enquanto esperava um ano para poder concorrer para aquele que pensava ser O MEU CURSO!

Sempre a pensar que seria uma mais-valia obter um ano de conhecimentos que me dariam uma pós-graduação. De nada valeu, apesar de fazer algumas cadeiras mais era a vontade de ficar em casa que ir “aturar” aquelas aulas.

O ano passou, o Mestrado lá se aguentou e chegado o momento veio também um balde de água fria. Nunca são bons, ainda menos quando não estamos preparados para eles.

Os meus conhecimentos musicais não eram suficientes, por muito que me tivesse aplicado para obter o melhor resultado na prova de pré-requisitos, por muitas aulas de piano que tivesse tido e por muita predisposição para a música que eu tenha.

É como chegar a um abismo em que não vemos o fundo e não vemos para além dele. Todos os caminhos imaginados, todas as esperanças, escorrem como a água pelo rio abaixo, com força, como correntes que se entrelaçam para serem as mais rápidas. As mais rápidas a quererem chegar ao fim e eu no início (ou no meio?) sem saber para onde me virar.

Foram precisos um a dois meses, conselhos e uma voz amiga. Corria listas de coisas à procura de algo que não sabia o quê e estava à frente dos meus olhos mas eu não conseguia ver. É impressionante como ficamos cegos!

Acabei por agarrar na minha oportunidade e vir para Som e Imagem. O nome suava-me bem, Som e Imagem.

Juntava vários dos meus interesses num só curso. Não me limitava a ficar só pela fotografia caso fosse para uma Licenciatura nessa área. Não me limitava a ficar só pelo som caso fosse para uma Licenciatura de Música, se bem que som e música sejam coisas distintas.

Tinha também o vídeo, e por que não experimentar?

Nunca na minha vida alguma vez pensei em fazer um filme, quanto mais em âmbito académico. Foi para a cadeira de Desenho, aquela que mais me assustava, quando olhei para o plano de estudos por pensar que não sabia desenhar e por esse motivo acreditar que seria aquela onde teria maiores dificuldades. Curiosamente foi aquela onde obtive melhor nota e foi das que mais gostei neste semestre. Quem havia de dizer?

Quando soube que teria que fazer uma curta tenho que admitir que tive algum medo (receio, talvez?) por pisar territórios nunca antes navegados, mas lá comecei a pensar no que havia de fazer.

Com a chegada do inverno em que anoitece mais cedo e ao sair às 18 uma vez por semana comecei a reparar na beleza da minha escola à noite, nos seus tons de verde e amarelo. Pensei em filmar isso, assim sem mais nada. Mas essa beleza de verdes e amarelos à noite nos corredores desertos remetia-me para a melancolia e solidão. Decidi então que deveria filmar uma pessoa de costas a andar pelos corredores e num processo orgânico constatar que esta estaria a ser seguida/observada por outra e assim haveria uma trama amorosa.

E como é que arranjaria então essa pessoa? Viria a ser apresentado à Tânia umas semanas mais tarde após o começo das aulas por um amigo em comum, numa ida ao Centro Comercial onde ela mais a namorada, a Daniela, tinham ido jantar nesse dia. Com naturalidade e à-vontade as suas palavras foram: “Eu sou a Tânia e esta é a Daniela, a minha namorada.

E assim é que as coisas devem ser. Não devia de haver o receio de “fugir à norma“, sabemos que a norma para uns não é a mesma para outros, mas neste caso falando num conceito de minoria face a uma maioria. Devia ser tão natural um individuo dizer esta é a minha namorada ou este é o meu namorado assim como dirigir-se a alguém e dizer eu gosto de ti e isso não significar uma onda de insultos ou agressões por não ser correspondido quando basta apenas dar um sinal vermelho nesse assunto e seguir em frente.

Os dias foram-se passando e íamos falando quer com simples “bons dias” quer nos almoços. E chegado o dia de escolher uma actriz para o meu filme lembrei-me dela. Fiz-lhe a pergunta com algum receio de receber um NÃO mas acabou por ser um grande SIM e à pergunta se ela se importaria de contracenar com alguém ela disse que não e até sugeriu a namorada por se sentir mais à vontade na cena íntima.

Chegado o dia das filmagens é que pude conhecer verdadeiramente a Daniela pois da outra vez tinha sido apenas de “raspão“, um “olá, adeus“. E o que eu posso dizer da Daniela? A Daniela é um doce de pessoa, é uma excelente rapariga com a mesma naturalidade e o mesmo à vontade que a Tânia e tenho pena que não frequente a mesma instituição de ensino assim como tenho pena de não conviver e de não a ver muitas vezes.

Nós somos o resultado das nossas experiências e vivências, tudo o que está para trás forma o presente. Também nos vamos conhecendo e no fim nunca nos conheceremos a 100%.

Talvez este filme acabe por ser tão autobiográfico como este texto. Talvez este filme retrate algo pelo qual já passei. Talvez este filme retrate o quanto eu gostaria que alguém me pusesse a mão no ombro. E talvez este filme retrate a continuidade de algo que gostaria que não tivesse terminado.

 

João Ferreira

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