O inesquecível Freddie Mercury

Sempre fui uma mulher de vários homens. Acabei de fazer uma confissão tão estrondosa que agora tenho que a justificar. Para mim estes homens, que vou referir, são únicos e continuarão a ser uma referência que nunca abandonarei. David Bowie, Freddie Mercury e Prince.

O primeiro, o senhor música, já teve direito a artigo e a mágoa enorme por nos ter deixado, será constante. Simplesmente é o ritmo natural da vida, que não gostamos mesmo nada mas temos de aceitar. Os outros também já se foram para outras paragens, para outros compromissos mas as suas heranças continuam vivas e serão para sempre.

O primeiro a embarcar nessa nave danada foi Freddie Mercury, o inigualável cantor que, ainda hoje, arrasta milhões de pessoas. Passaram 25 anos mas nunca o esqueceremos. Juntamente com outros músicos, formaram um grupo, como se dizia na altura, que tem o nome no estrelado universal: Queen. Uma bomba em palco que explodia vezes sem conta!

Nasce no dia 5 de Setembro de 1946, em Zanzibar, numa família tradicional. O seu pai era funcionário do Banco Colonial Inglês. Aos 8 anos vai estudar para Bombaim, numa escola de rapazes, onde começa a mostrar os seus dotes musicais. É neste mesmo local que sofre os primeiros medos e terrores porque a sua personalidade, dita efeminada, não é entendida pelos seus pares. Torna-se uma pessoa tímida e reservada, afastando-se dos demais.

Farrokh Bulsara, nome de nascimento, muda-se, com a família, aos 17 anos para Londres onde concluirá os seus estudos superiores, obtendo o diploma de Designer Gráfico. Inicia o seu percurso profissional onde conhece Mary Austin, a mulher que o marcará para toda a vida. Iniciam um relacionamento pessoal que nunca será danificado. A música “Love of my life” é-lhe dedicada e, nas suas palavras, Mary foi a maior amiga que uma pessoa poderá ter.

Em 1970 conhece Brian May e Roger Taylor. É o início de uma banda com o peculiar nome de Smile, mudando-o, posteriormente, para Queen. Em 1971 John Deacon reforça o grupo e os êxitos não se fizeram esperar. Como a música era a sua vida, enceta uma carreira a solo que o leva a grandes sucessos chegando a cantar com Montserrat Caballé, um sonho tornado realidade.

A sua figura, apesar de ter sido trabalhada com o exercício físico adequado, já que inicialmente era esquelético, nunca superará a sua voz única e extraordinária. Tinha o dom de nos transportar, de nos elevar e de a fazer invejar. Os seus dentes, muito pouco atraentes, passaram sempre despercebidos numa boca que emitia sons tão fabulosos. Nunca os quis modificar, com receio que o seu poderoso instrumento pudesse sofrer alguma alteração.

A sua vida privada foi bastante atribulada, com episódios variados, vivendo em pleno a sua bissexualidade. Teve várias relações sendo a mais relevante a que manteve com Mary Austin, namorada de toda uma vida. O último relacionamento, que ficou até ao seu derradeiro suspiro, foi com Jim Hutton, um cabeleireiro que o acompanhou na sua doença e nunca saiu da sua beira.

Como se pode escrever sobre uma pessoa tão ímpar? Tanto que se poderá dizer e nunca será suficiente para a enaltecer. A sua carreira musical, de 1969 a 1991, foram 22 anos gigantes, jamais passará despercebida e as gerações futuras encontram nele uma referência, um modelo a seguir. Bohemian Rhapsody foi escrita na sua cama mas considerava-a menor, aliás o nome inicial era The cowboy song. Como estava enganado e ainda bem!

A imagem final que nos deixou foi de um homem muito doente, consciente da sua finitude e do seu final muito próximo. Para se conseguir fazer uma filmagem, a equipa de maquilhadores esteve durante horas a tentar disfarçar as mazelas terríveis. O resultado teve de ficar a preto e branco, já antecipando o que se previa. É assim que nos chega These are the days of our lifes, em 1991, agoirando a sua morte. Um vídeo tão doloroso quanto belo, uma mensagem de esperança e de amor que passa numa voz que sabe que está no seu beco sem saída.

Poucas manias se lhe conhecem pois vivia de modo bem discreto. Além do amor pelos gatos e do gosto pelo champanhe, pouco mais se pode apontar. Uma vez alugou um avião e viveu o seu momento de loucura total. Era noite de passagem de ano e sobrevoou todos os fusos horários, festejando várias vezes o final do ano e a chegada do seguinte. Caprichos só acessíveis a quem tem grande poder económico.

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Temos uma responsabilidade que ele nos deixou mas que não nos importamos de acartar: a sua música. Complicado é escolher a que mais se pode gostar. É uma opção que descarto. We are the champions, Don´t stop me now, Crazy little thing called love, I want to break free, I was born to love you, A kind of magic e Radio Ga Ga são títulos que todos conhecem e cantam mesmo sem se darem conta. Esta última estava a tocar quando, uma certa rapariga, aguardava na sala de espera da editora e se inspirou para o nome artístico: Lady GaGa.

Morreu com 45 anos, uma vida ceifada sem dó nem piedade, com tanto ainda para nos dar. Deixou grande parte dos seus bens a Mary Austin, assegurou o futuro dos filhos dela e partiu triste e desanimado. Que injustiça de doença que o atacou. Sucumbiu a uma pneumonia que, associada à doença maior, SIDA, lhe retirou todas as defesas. E assim se apagou aquele animal de palco, aquela fera que não queria ser amansada.

As saudades são imensas e tremendas e o baixista deixou a banda, como sinal de respeito pelo amigo de longa data. Este britânico de origens indianas extraordinário soube superar todos os seus males pessoais e encetar uma vida de grandeza e de muita alegria. Nada mais havia a fazer por ele e deixou-nos no dia seguinte a assumir a sua doença. Chorámos copiosamente a sua ida mas ouvimos a sua música e celebramos a sua vida.

É impossível esquecer a sua imagem, a sua potência em palco e as vibrações que emanava. Tornou-se intemporal e, como diria um grande poeta, atingiu o patamar maior, libertou-se da lei da morte. Este homem maravilhoso que nos levava a lugares únicos, que nos fazia voar por mundos estranhos, nunca conduziu um automóvel. Contudo tal não foi impedimento para que o seguíssemos até onde ele nos quisesse levar.

Como lhe agradecer a sua magia, a sua loucura perfeitamente saudável e a sua voz que nunca poderá ser superada? Como? Ele foi, de facto o campeão, aquele que só parou quando já não tinha mais forças para continuar. Sabemos que nos amou incondicionalmente e que nós, os seus seguidores iremos passar a sua mensagem. Os anos avançam mas a sua voz nunca se irá calar.

I want to break free, love of my life!

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