Limpeza! Decência!

A Hepatite A, como todas as epidemias (reais ou inventadas), é um circo mediático. Disso não restam dúvidas – aquilo que a torna especial é o julgamento moral da opinião pública. Podemos formar já duas equipas (com linguagem inclusiva): @s info-certinh@s (bem informad@s, séri@s e sem sentido de humor; não interessa se são LGBTIQ ou não) e @s analfabrut@s (mal informad@s, reaccionári@s, e de uma brejeirice galopante).

Mary Douglas descreve (Pureza e Perigo) a forma como a Doença é um agente de diferenciação social (tal como a cor da pele, o dinheiro, etc.). A decisão daquilo que é poluído e daquilo que é puro, define e mantém normas sociais. “Quando tivermos abstraído a patogenia e a higiene das nossas ideias sobre a [doença], ficaremos com a velha definição nas mãos: qualquer coisa que não está no seu lugar.”. A Doença torna-se Impureza – e a forma de evitá-la é excluir os impuros, e submete-los ao ridículo; porque a melhor arma da exclusão é o riso. A Hepatite A não é séria que chegue, comparada com o outro surto que afectou os HSH, e que vinha com uma ameaça de morte. Saber que a transmissão da Hepatite A é Oro-Anal foi o fim da seriedade: fazer piadas sobre a Morte é difícil, mas piadas sobre cocó é do mais fácil que há. E não requerem oro-análise. (É fácil, viram?)

A Hepatite A junta dois tabus: as Fezes, que já mencionei, e a Orgia. As pessoas adoram remexer na esterqueira, têm um interesse mórbido nos tabus – quando se misturam dois, @s analfabrut@s ficam no Céu! Este “sexo sujo” e escondido, esta ideia de uma realidade debaixo de outra – são coisas que repelem mas fascinam.  Bastaria o contágio estar ligado a sexo para ganhar uma dimensão sinistra no imaginário colectivo – o Oro-Anal deu um tempero misterioso de sordidez (tudo o que seja vagamente anal é o cúmulo da poluição) e o factor Orgia veio adensar a história. A Orgia é o momento da Festa, da total perda de controlo, em que as convenções sociais vão para o galheiro. Orgia é a anarquia sem Líder; e a ausência de Líder é a porta aberta ao Caos. A melhor imagem do Caos é o emaranhado de Vermes: “As coisas que rastejam e não têm chefe”, um ninho que fervilha sem ordem possível. Quem fala num emaranhado de vermes, fala na imagem mítica do Bacanal, e na mêlée do rugby. Este Bacanal ganhou um nome estrangeiro que soa a Armageddon: chemsex.

Mas não nos iludamos: o que há a extrair daqui não é o choque perante o chemsex, mas pensar o porquê de comportamentos que só pecam pelo excesso. Creio que esta vivência do sexo, compulsiva e despegada do Real, este prazer na auto-destruição é um dos muitos frutos da baixa auto-estima e da procura constante do Eu no Outro. Diria que o chemsex revela um grupo que está sob pressão e sob depressão. E tanto uma como outra devem ser encaradas com coragem e sem “escapes”. Mas não é meu trabalho pôr ninguém no divã, a menos que peçam. E afinal, o que mata não é o veneno, é a dose.

Finalmente, vale a pena olhar para as reacções d@s analfabrut@s LGBTIQ. Há uns meses, quando se falava da PrEP, a Brigada Monogâmica sacudiu a água do capote e apontou o dedo à promiscuidade como causa de todos os males… A promiscuidade e a Impureza não matam ninguém, o que mata são as doenças e as práticas sexuais de risco. E essas não se combatem com monogamia e muito menos com abstinência – para tristeza, bastam os impostos – As práticas sexuais de risco tratam-se com bolos e carinhos, sem juízos moralistas, e acima de tudo com boa informação e comportamentos correctos; muito bem explicados pelo Dr. Diogo Medina – info-certinho com sentido de humor, que merece ser oro-analisado.

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