Entrevista A Miguel Agramonte: “A homofobia tem as suas raízes enterradas na estupidez mais boçal”

Passou praticamente um ano certo desde a última vez que conversámos com o Miguel Agramonte, um autor que partilha a vida entre Portugal e o Brasil e que se deu a conhecer aquando o lançamento do seu romance de estreia, “Quando Tu Nos Mentes”. Voltamos agora à conversa quando o Miguel está em plena promoção de um novo livro, “Amar De Olhos Fechados”, que terá pré-lançamento no Porto, no dia 6 de abril, e lançamento em Lisboa, no dia 8.

Na conversa falámos obviamente dos seus livros, mas também de Amor, do Brasil e de Evans, uma personagem Trans que, embora secundária, tem recebido muita da atenção sobre o novo livro. Calha pois bem ler a entrevista, hoje que é Dia Internacional da Visibilidade Trans:

Passou um ano desde o lançamento do livro de estreia, “Quando tu nos mentes”, do Miguel Agramonte, o que te trouxe a este novo livro?

É verdade, um ano, que passou muito rápido! Quando o “Quando tu nos mentes” foi lançado, já estava a escrever o “Amar de olhos fechados” (geralmente, quando estou a terminar um projeto, já tenho outro iniciado). Portanto, durante o último ano continuei a exercer a minha profissão e a escrever nos tempos livres, de onde resultou o lançamento, agora, do “Amar de olhos fechados”.

E que trata este teu segundo romance, “Amar de olhos fechados”?

Trata-se de um outro romance de temática LGBT, mas que em nada tem a ver com o primeiro. Gosto bastante de variar, quer nos estilos de escrita, quer nos ambientes (sociais, geográficos, temporais, etc.) em que as histórias acontecem. Esta aborda a história de duas personagens principais que um dia se conhecem através de um acontecimento improvável, que leva ao crescimento de ambos. Ao redor delas vão orbitando uma série de personagens secundárias que permitem o desenvolvimento de histórias paralelas com maior ou menor profundidade.

A história centra-se em Henrique e em Junior, fala-nos um pouco destas personagens, quem são elas?

São as personagens principais deste livro. Henrique é um homem a quem nunca faltou nada, herdeiro de uma imensa fortuna que começou a ser criada pelos seus avós, “barões do café”, mas que teve sempre medo de levar as suas relações mais adiante. O seu grande drama era saber em que é que os seus potenciais namorados estariam interessados: Nele, ou no seu dinheiro? Junior, por outro lado, é um rapaz nascido no interior do Brasil, numa terra paupérrima, esquecida pelo mundo. Foi criado no seio de uma família humilde e que, um dia, decide ir morar para a grande e impiedosa cidade (São Paulo), onde o mundo é completamente diferente daquilo que sempre conheceu. E são estes extremos que permitem fazer com que a história vá avançando, fazendo com que as personagens, que vivem em mundos totalmente distintos (financeiros, sociais, geográficos, etc.), evoluam.

Eles os dois acabam por ser o reflexo de muitos de nós ou, até, o nosso próprio reflexo em ambas as personagens, já que a complexidade delas é suficiente para nos identificarmos com características das duas em simultâneo. Por se irem desenvolvendo ao longo da história, permitem agregar uma série de outras histórias e reflexões sobre o que ainda são muitas das nossas realidades e relações. Uma vez mais, são os opostos que se complementam sem, muitas vezes, disso se aperceberem. São os extremos de muita coisa que garante, para o bem e para o mal, o equilíbrio do nosso mundo. São, por vezes, eles mesmos uma metáfora.

Existe igualmente, e pela primeira vez num livro teu, um personagem Transgénero. Foi um desafio?

E que desafio! Desde o início, e já lá vão pelo menos dois anos, que tinha na cabeça abordar o universo transgénero. Talvez isso tenha acontecido pela visibilidade crescente que sentia que o tema tinha na sociedade (algo que, hoje em dia, é muitíssimo mais claro). Mas acho que o que, realmente, me fez decidir optar por avançar com a personagem foram aquilo a que costumo chamar de “gritos de alerta” que, cada vez com maior frequência, vinha ouvindo e lendo de pessoas trans. Fosse através de notícias (a maioria chocantes), fosse por contacto direto com amigues próximes (aproveitando o “amigues próximes”, também decidi abraçar o desafio de colocar o narrador a utilizar a chamada linguagem neutra, sempre que se refere a essa personagem. Sei que não é consensual, mas já está consideravelmente bem estruturada, em diversos documentos, apesar de ter uma ou outra falha. Acredito que este aspeto traz ainda mais colorido ao livro).

Apesar de ser uma personagem secundária, deu-me mais trabalho a construir Evans (é esse o seu nome) do que qualquer outra personagem do livro, incluindo os já mencionados Henrique e Junior, pelo facto de ter tido a necessidade de conhecer muito bem uma realidade com a qual, até então, lidava socialmente, em círculos de amigos. Porque uma coisa é lidar com uma realidade e outra é ficar o suficientemente por dentro dela para criar uma personagem verosímil, que faça o leitor sentir alguns dos seus dramas e dificuldades, por exemplo.

Por outro lado, também não pretendia escrever algo muito académico, profundo ou enfadonho sobre o tema (apesar de ter sempre a preocupação com a correção do exposto). A solução foi a inclusão desta personagem, com os seus defeitos e as suas virtudes, bem como com a sua forma muito própria de pensar, de ver e interpretar o mundo. Com isto espero trazer um pouco mais de luz sobre este tema tão vasto e complexo.

A questão trans continua a ser extremamente problemática no Brasil e em Portugal continuam ainda por ser dados os passos derradeiros sobre políticas de identidade de género. Como pessoa que tem partilhado ambos os países como a sua casa, como vês o ponto de situação em ambos? O que pode um aprender com o outro?

Se me permites, um aparte: é um facto muito curioso a atenção que uma personagem trans tem levantado, apesar de, como disse, ser uma personagem secundária. Quem já teve a oportunidade de ler a história, acaba por desenvolver um carinho especial por ela (por exemplo, o Alberto Jorge, da ILGA, que prefacia o “Amar de olhos fechados” e que, nesse mesmo texto, afirma algo semelhante). É algo que me deixa muito satisfeito.

Quanto aos “passos derradeiros” que consideras faltar serem dados, não resisto a citar o Nuno, uma personagem do meu livro “Quando tu nos mentes”, que, a certa altura, diz: «Afinal, o racismo e a homofobia, como qualquer outro tipo de preconceito, têm sempre as suas raízes enterradas no medo e na insegurança, na estupidez mais boçal». Acredito que é exatamente o que se passa com a transfobia e que, por esse motivo, faz com que as pessoas tenham, de uma forma geral, muito medo, por não entenderem o que é diferente. Uma pessoa trans desperta profundos sentimentos de insegurança em muita gente, precisamente porque, antes de mais, não é entendida.

Lamentavelmente, a sociedade como um todo, está longe de as entender, o que me leva a temer que, antes dos “passos derradeiros”, ainda faltem muitos outros, seja em Portugal ou no Brasil. Portanto, quanto ao ponto de situação entre os dois países, vejo-o com ainda muito por fazer.

O resultado direto do exposto que mais me choca é a violência física para com as pessoas trans. E, sendo o Brasil um país muito mais violento do que Portugal, infelizmente é neste país que as pessoas trans são vítimas de uma muito maior violência (aterradora, em vários casos, como se viu, recentemente, num vídeo que se tornou viral nas redes sociais).

Portanto, acho que em ambos os países ainda há muito por fazer, na educação da sociedade em geral, começando pela sensibilização dos meios políticos, em particular. Creio que ambos podem aprender um com o outro, porque, bem ou mal, um e outro vão avançando e, na era da partilha da informação, a interação internacional entre grupos “ativistas”, tipicamente na frente de batalha, é muitíssimo facilitada.

Apetecia-me citar outra personagem, agora Evans, a personagem transgénera deste livro, mas já seria demais (para além de estragar algumas surpresas). Porém, posso adiantar que Evans tem umas reflexões muito interessantes a esse respeito.

A sessão de lançamento do livro em Lisboa, no dia 8 de Abril, será seguida de uma tertúlia, onde participará a Daniela Bento, coordenadora do GRIT (Grupo de Reflexão e Intervenção em Transexualidade). Diria ser uma excelente ocasião para se aprofundarem temas como os presentes nesta questão de resposta complexa.

Não queria deixar de frisar que as pessoas trans também acabam por ser vítimas de preconceito vindo de grupos também eles vítimas de preconceito (o preconceito dentro do preconceito), o que torna tudo ainda mais difícil.

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Muitos desses preconceitos podem ser expostos precisamente em obras como as tuas, para além de todo o gozo da história em si, sentes que estas obras acabam por desempenhar o papel de dar a conhecer estas pessoas, humanizando-as?

Sim, sem dúvida! Ao idealizar e, posteriormente, criar as personagens, tenho o cuidado de as tornar coerentes, ou seja, as suas formas de pensar e agir devem estar de acordo com os seus perfis. Com isso posso fazer com que as personagens toquem em assuntos mais ou menos delicados, em função das suas sensibilidades (e estas têm a ver com muitos fatores). Portanto, se assim for pretendido, é uma oportunidade muito interessante para trazer à baila problemas reais através de personagens fictícias. Ou, por outras palavras, é possível, de uma forma ligeira (mas não simplista nem didática, porque esta última palavra tem um peso que não se enquadra no espírito do livro), tenho a possibilidade de fazer o leitor deparar-se com “pessoas” e situações com as quais, possivelmente, não se depararia na vida real. Dessa maneira é possível fazê-lo pensar acerca dos temas que pretendo. Mas tudo de uma forma sem ser forçada, perfeitamente integrada na ação – aliás, tal como acontece connosco, quando vivemos essas mesmas situações nas nossas vidas. Mas nota que a opinião e as ações das personagens não têm que ser, necessariamente, as minhas. Aliás, por vezes fico “zangado” com determinadas atitudes que algumas das minhas personagens tomam. O que, imagino, faça delas boas personagens, porque estão a desempenhar bem o seu papel. Curiosamente, é com alguma frequência que os leitores confundem a opinião e atitudes do Miguel Agramonte com a de algumas personagens o que, por vezes, dá direito a receber comentários interessantíssimos.

Mesmo assim adivinho que a maioria dos comentários sejam positivos, não? Existe algum episódio curioso que nos possas partilhar?

Só posso responder em relação ao ‘Quando tu nos mentes’, uma vez que o ‘Amar de olhos fechados’ ainda não está publicado.

Uma coisa são os comentários ao livro, que são muito positivos (o mais comum é do tipo “comecei a ler e não consegui parar”). Imagino que haja negativos (é impossível agradar-se a toda a gente) mas esses, possivelmente por educação de quem os faria, não me chegaram. O menos positivo veio de um leitor que comprou o livro pensando que o tema era outro (poliamor) e que, portanto, teve uma desilusão. Mesmo assim, a partir daí tenho mantido com ele algumas conversas muito agradáveis, através da minha página – gosto muito dessas interações.

Vários episódios que me vêm à cabeça, relativos ao ‘Quando tu nos mentes’: um leitor ficou de tal forma “perturbado” (a palavra é dele) com a história, que me disse que sonhou algumas vezes com a mesma. Principalmente com Marco. Aliás, Marco é a personagem que creio ter mexido mais com os leitores, pelo menos a avaliar pelos comentários. Desde confissões de desejos sexuais pelo mesmo (o que nos levaria a longas conversas), a me dizerem que é a personagem menos coerente (um psicólogo afirmou-o). No entanto, a esmagadora maioria diz-me ser a mais fascinante (e traçam perfis psicológicos para justificar a sua maneira de ser, outros sugerem continuações para a história, etc.).

Uma vez, um amigo começou a ler o livro em minha casa e fechou-o repentinamente, após passar pela cena inicial do Marco no barracão com a barra de ferro. Olhou para mim e exclamou: “Mas tu não és assim!!”. Outra vez, recebi uma mensagem de alguém que me dava os parabéns por mostrar que uma coisa é amor e outra é sexo, precisamente o “segredo” para a longevidade da relação que essa pessoa mantinha com o seu namorado. Também já me perguntaram se eu era segurança privado (não sou), porque descrevia muito bem o mundo daqueles que, sendo gays, exercem essa profissão (este comentário foi um desabafo e, uma vez mais, mantenho contacto regular com o leitor que o fez, sem nunca nos termos conhecido pessoalmente).

E depois, há sempre a tentativa, por parte de quem me conhece pessoalmente, de me “encontrarem” nas personagens. “Qual delas é o Miguel?”. Há outros que vão mais longe: tentam encontrar amigos comuns nas personagens.

Dá para rir e pensar bastante, porque são interpretações que nunca me passaram pela cabeça, quando escrevi a história. E com o ‘Amar de olhos fechados’ não será diferente, aposto.

É agora a vez deste “Amar De Olhos Fechados”, portanto, onde é que as pessoas o podem descobrir e onde poderão também encontrar-te pessoalmente?

Onde as pessoas poderão descobrir o livro e, simultaneamente, encontrar-me pessoalmente será nos eventos de promoção do ‘Amar de olhos fechados’. Desta vez, a editora optou por promover dois eventos em dois locais distintos, para facilitar uma maior aproximação e interação com o público. Confesso que gosto bastante dessa interação e claro que estão todos/as convidados/as. Quem quiser ir aos dois, também pode ir!

O pré-lançamento acontecerá no Porto, no dia 6 de abril, às 22h00, no Café Lusitano, e o lançamento será em Lisboa, no dia 8 de abril, às 21:30, no Centro LGBT da ILGA Portugal. Ambos os eventos estão criados no Facebook, com todas as informações.

Mas posso adiantar que, como já aconteceu anteriormente, quisemos ir mais além e fazer dos eventos algo que permita falarmos um pouco uns com os outros. Por isso, após a sessão propriamente dita, acontecerão duas tertúlias, ou conversas entre todos, como lhe queiras chamar, com temas que estão, de alguma forma, relacionados com o livro. O mote para a do evento do Porto é “O politicamente correto potencia o preconceito?“, e terá a participação dos convidados João Paulo, proprietário e editor do PortugalGay.pt e Vítor F. / Natasha Semmynova, drag performer e cantor ao vivo. Para o evento de Lisboa, foi escolhido o tema “Os rótulos sociais são necessários?“, e participarão, como convidados, Alberto Jorge, jornalista e ativista LGBT (que também prefacia este livro) e Daniela Bento, coordenadora do Grupo de Reflexão e Intervenção em Transexualidade (GRIT).

Depois disso, o livro poderá ser encontrado nos locais habituais, com destaque para os sites da wook.pt (em Portugal) ou da amazon.com.br (no Brasil), para além das outras amazon de vários países, feiras do livro, etc.. Quanto a mim, vou andando entre Portugal e Brasil e o local mais fácil para ser encontrado é na minha página do Facebook, onde tenho sempre muito prazer em ir falando com os meus leitores ou no Instagram, onde recentemente criei uma conta para ir partilhando algumas das minhas vivências, aquelas coisas que, seja por que motivo for, me vão chamando a atenção no dia-a-dia.

Espero, sinceramente, que gostem deste ‘Amar de olhos fechados’, que nos divirta e faça refletir um pouco, e aguardo os comentários dos leitores, esperando que me venham fazer companhia nos próximos eventos de Lisboa e Porto. É a eles, acima de tudo, que tenho que agradecer o prazer desta aventura.

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