Em Defesa do Drag e da Fluidez de Género

Todos nascemos despidos, o resto é drag”. Palavras daquela que é actualmente a (drag) queen mais reconhecida do planeta, RuPaul, que catapultou para um novo milénio a arte e porto-seguro promovidos pela comunidade LGBT desde há décadas. Fá-lo com o seu legado construído nos anos 90 como pioneira absolutamente transversal no mundo da moda. Fá-lo, nos dias de hoje, com a promoção de novos talentos com a subversão do que é um reality-show que é o cada vez mais célebre RuPaul’s Drag Race, que finalmente quebrou a barreira do mainstream e começou a ser exibida no VH1.

Mas afinal que fascínio é este dos homens gay por drag queens? Para não termos de ir à Grécia Antiga, vamos recuar “apenas” ao berço do movimento LGBT: a revolta de Stonewall na Nova Iorque de 1969. Entre a multidão estavam Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, duas drag queens que se viram transformadas em ativistas numa época em que tal estatuto dava direito a (mais) umas noites na prisão. Era ativismo de reação direta, nascido nas ruas e nelas incendiado. Nelas, nas ruas, onde ambas viveram e chegaram a recorrer à prostituição para sobreviver. E fazer drag era para elas um lugar seguro. Um oásis. A História queria forçosamente deixá-las marcadas como vítimas de uma sociedade que não as queria aceitar, mas elas nunca deixaram. Rivera fundou a Gay Liberation Front e a Gay Activists Alliance. Johnson fez parte do ACT UP, o primeiro movimento de luta contra o VIH. Juntas formaram a Street Transgender Action Revolutionaries (STAR), um grupo de apoio para jovens drag queens e mulheres trans.

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Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera

A sobreposição entre estes dois grupos sempre existiu. No entanto as duas coisas jamais podem ser confundidas. Tal equívoco levou a uma estigmatização das mulheres trans junto da comunidade LGBT, nomeadamente a comunidade gay, que muitas vezes valoriza mais a ridicularização ou subversão das leis de género por parte das drag queens do que a assunção real e necessariamente sofrida do verdadeiro género identitário por parte das mulheres trans. Isto leva a um contra-ataque das mulheres trans contra o drag em si e aquilo que representa, acompanhadas muitas vezes por mulheres cis e lésbicas, que consideram-no sexista, racista e, no limite, homofóbica. Um refugo da sociedade patriarcal em que vivemos, onde os homens continuam a ser mais visíveis que as mulheres, mesmo quando se vestem como elas e fingem, ainda que apenas enquanto os bares estão abertos, ser elas. Outros dos argumentos utilizados por ativistas feministas contras as novas drag queens é que perderam totalmente a veia reacionária que marcou pioneiras como Sylvia Rivera. Exemplos como a maravilhosa Panti Bliss, a drag queen que recentemente liderou a luta pela igualdade no acesso ao casamento na Irlanda, parecem ser cada vez mais raros.

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Panti Bliss

Por outro lado, não é o próprio ato de fazer drag suficientemente revolucionário? Recordêmo-nos que fora da comunidade um homem vestir-se de mulher numa época que não o Carnaval ou o Halloween é ultrajante. Uma vergonha completa para o estandarte masculino que se quer envergar como pináculo da perfeição social. Claro que uma mulher pode vestir calças e blazers, mas um homem andar de saias e batom carregada é suficiente para ser insultado, humilhado e até agredido em plena rua em cidades tão ‘avançadas’ como Lisboa.

Ainda que muitas vezes o argumento do sexismo seja pertinente, a realidade é que o drag é quase sempre uma homenagem às mulheres. Versões idílicas, exageradas e muitas vezes perfeitamente disparatadas do que é ser. Mulher. Esta difração e desentendimento entre fações da comunidade LGBT não se resume a este debate sobre a validade das drag queens. Desde o início dos movimentos pelos nossos direitos civis que nos deixamos segregar por interesses que consideramos superiores. Aos dos outros. Por isso é que os homens gay ignoraram inicialmente a luta das mulheres pela igualdade de género porque julgavam não ser a eles pertinente. Por isso é que mulheres lésbicas não perceberam imediatamente que a pandemia do VIH também lhes dizia respeito.

A realidade é que só quando existe entendimento que a batalha contra a discriminação, seja ela qual for, é de todos é que a nossa verdadeira força se manifesta. Una e incolapsável. O mesmo acontece com o drag. Voltando ao início e ao mediatismo de RuPaul’s Drag Race, esta nona temporada marcou a primeira mulher trans a integrar o programa desde a sua entrada e não só durante e depois dele, como aconteceu e continua a acontecer com muitas ex-concorrentes. O casting para a próxima temporada já começou e pela primeira vez as regras explicitam a necessidade de incluir mais mulheres, cis e trans, no concurso. Esta tentativa louvável de inclusão é um testamento ao poder transgressor do drag e da necessidade da indefinição da fluidez de género ser a definição. Quanto temos um homem como Donald Trump na Sala Oval nada é mais premente do que este absoluto rasgar de convenções. Que nunca se quer levado muito sério enquanto despreza as regras sociais e cospe na cara dos que insistem que o género é uma questão binária e completamente polar. Can I get an amen up in here?

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