Sofia, essa grande querida, não vai ao Arraial.

Sofia Vala Rocha, militante do PSD e apreciadora de Joana Vasconcelos, escreveu no Twitter que o nome Arraial Lisboa Pride é “pimba e ofensivo”, para depois construir um arco narrativo que acabou com uma crónica no Sol em que defende o famoso direito ao armário. Pelos vistos, existe uma Pide LGBTIQ que nos obriga a sair do armário – e a nossa cronista não acha isto nada bem.

Quem tem acompanhado as intervenções de SVR, sabe o que a casa gasta – estamos a falar da cronista-queque que ficou muito maçada com a subida do consumo interno (Governo de Costa) porque o mecânico demorava mais tempo a arranjar-lhe o carro e os centros comerciais estavam muito cheios. E as casas de banho ficavam a cheirar mal. Não é de admirar que uma sociopata ela tenha um problema com Arraial Lisboa Pride – (digo eu), não por ser Pride… mas por ser Arraial.


Entre as festas populares portuguesas, o Arraial ocupa um lugar de destaque, com características muito próprias e complementando outra festa recorrente: a Procissão. São dois opostos: Procissão, é transportar um objecto sagrado à volta de um povoado para o abençoar – desenhando um círculo mágico à sua volta, as pessoas ficavam seguras com o escudo que iria protegê-las. O arraial, pelo contrário, é o momento de Festa em que se suspendem as regras sociais, e se abre a porta aos excessos – da comida e da bebida, da alegria – que pode levar à perda dos sentidos e da decência, à violência, ao sexo e, finalmente, à morte. O arraial é uma fusão, aliás uma con-fusão (como con-fluência) de pessoas muito diferentes, num ambiente altamente instável, precário. Assim, ao longo de séculos, o arraial tornou-se símbolo de uma coisa confusa, e as pessoas que o fazem – a arraia a.k.a. Arraia-miúda…

A Burguesia (classe média-alta, mercantil, detentora de meios de produção) tem uma longa história de ansiedade de status, da obsessão com “manter as boas aparências” – o bom-tom – e isto não é conciliável com a experiência do Arraial Mítico; o espaço da liberalidade onde as fronteiras entre grupos se diluem, onde todos se tornam, nas belas palavras de Pierre Sanchis, “o ‘Nós’ gratuito”. Pessoas como Sofia Vala Rocha, e seus amigos, serão mais de procissões do que de arraiais.


É óbvio que os amigos gay de SVR não se revêem no Arraial Lisboa Pride e que ela acha o nome foleiro – liberdade de opinião – mas gostava que tivesse sido sincera quanto ao motivo. Não tenho garantido que seja homofóbica, mas seguramente, o ambiente pé-rapado popularucho de qualquer arraial, não será a sua praia nem dos amigos.

Não sei como será a sua festa ideal, mas talvez faça lembrar os “clubes de charuto” do Estado Novo, à porta fechada, onde só entravam homens e por convite… Mas!, a cada um, o que é seu, e só desejo que Sofia Vala Rocha e os amigos se divirtam, e que bebam um copo por mim – de Veuve Clicquot, claro.

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