“Strike A Pose”: A Emancipação De 7 Bailarinos

Luís Camacho, Oliver Crumes, Salim Gauwloos, Jose Guitierez, Kevin Stea, Gabriel Trupin e Carlton Wilborn são os nomes dos sete bailarinos que, em 1990 e sem na altura terem plena consciência do que estavam a viver, mudaram para sempre a população LGBTI. Com eles o público viu pela primeira vez dois homens beijarem-se. Com eles o público viu a luta interna de aceitação e amizade entre um dos bailarinos, o único heterossexual, e os restantes, todos homossexuais. E com eles Madonna lançou uma das mais revolucionárias digressões e posteriormente o documentário “Na Cama Com Madonna”. Com a vida deles e com a pujança dela assim mudaram o mundo.

25 anos passados, surge por fim um documentário que se foca precisamente nos sete bailarinos e, sem nunca a esquecer, mas sem permitir a fixação na figura de Madonna. “Strike A Pose” apresenta-nos os bailarinos no presente em que partilham memórias sobre aquele tempo das suas vidas em que, ainda jovens, se tornaram ícones da luta pela visibilidade das pessoas LGBTI.

Convém lembrar, há 25 anos não era fácil defender a população LGBTI e os seus direitos na comunicação social, nem era cool alguém fazê-lo, mesmo dentro do meio pop. Há 25 anos era social e politicamente aceite ver-se a homossexualidade como uma aberração e um ato criminoso. Há 25 anos éramos invisíveis e armariadas. E há 25 anos a maior estrela do mundo, no pico da sua popularidade, decidiu criar uma plataforma que permitisse o mundo conhecer estas 7 pessoas. E assim humanizou-as, imperfeitas, mas unidas pela amizade.

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E o mundo viu pela primeira vez o beijo entre dois homens no grande ecrã. E o mundo viu pela primeira vez o que era uma marcha do Orgulho LGBT. São momentos e posições que marcaram um virar de mentalidades pelo impacto e alcance que tiveram no público à escala global.

Da mesma forma, há 25 anos Madonna voltou a apostar em campanhas de prevenção contra o VIH/SIDA, oferecendo nos seus concertos panfletos com informação sobre formas das pessoas se protegerem. Em palco não era diferente, com interlúdios educativos, recordemos que a pandemia do VIH/SIDA no Ocidente era uma realidade que atingia largos milhares de homossexuais só nos Estados Unidos.

“Strike A Pose” traz esse assunto para cima da mesa. É que não bastava o especialmente brutal estigma que a população LGBTI enfrentava na altura, a este juntava-se um outro. Precisamente o estigma do VIH/SIDA. E enquanto os bailarinos se empoderavam com mensagens de orgulho e força, alguns deles sofriam escondidos e sós com o VIH/SIDA. Gabriel faleceu em 1995 por complicações da doença. Mas não se pense que, passados 25 anos, a pressão não persiste sobre as pessoas seropositivas. É precisamente com “Strike A Pose” que Salim confessa pela primeira vez em público ser seropositivo, desde os anos 1990, num jantar de reunião com os restantes colegas.

É esta a força do documentário, pois acaba por ser uma segunda e improvável nova emancipação destas 7 pessoas que há 25 anos fizeram parte de um movimento que influenciou a forma como a sociedade olha para as pessoas LGBTI hoje em dia. E isso é absolutamente libertador, porque nunca é tarde para voltarmos a ser livres, mais livres, mais iguais. É isso que, com eles, somos todos e todas hoje.

“Strike A Pose” está disponível na Netflix.

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