(Extra)ordinárias Pelo Arco-Íris

Hoje é dia de dar voz à Ana Domingos, uma aliada do dia-a-dia e uma amiga deste espaço. Tudo começou com uma pequena batalha no Facebook acerca do símbolo do arco-íris agora disponível como reacção em celebração do Mês do Orgulho LGBT. Há quem ache invasivo e desnecessário. A Ana achou outra coisa:

Com a idade passei a ser mais selectiva nas guerras que travo. No entanto passei a não aceitar e calar-me perante barbaridades que leio e oiço todos os dias. Sim, que nem aos dias santos os meus olhos têm folga. Sempre que alguém começa uma frase com “eu isto e aquilo, maaaassss…” é sinal que vem bujarda.

Vamos lá ver: o pequeno ícone de reacção com a bandeira do arco-íris que o Facebook lançou está muito bem feito. Se tens interesse no ícone, gostas de uma página e tens acesso ao mesmo. Se não tens interesse, manténs-te quieto e tadaaaaaaaaaaaa nada acontece ao teu Facebook. Por isso deixa-me sempre surpreendida (não devia, já sei) que haja quem fique incomodado com o raio do ícone. Mas há, e uma amiga minha teve a sorte de lhe calhar uma fava dessas no Facebook dela (eu nem sei se ela gosta de bolo rei).

Portanto a pessoa em questão não percebe para que serve o botãozinho, porque esta pessoa conhece gays e eles são uns brincalhões e até gozam com o botão, tal como ela goza com o 8 de Março… Hein?????? Pois, isto foi um salto brutal, mas um salto para o abismo. Goza com o 8 de Março como gaja branca europeia e hetero – com um bocadinho de sorte cristã e tudo – não sofre discriminação (mentira, sofre mas não a deve conseguir identificar na tristeza de vida que leva) para ela está tudo bem, por isso não faz sentido lutar a favor dos direitos das mulheres. As miúdas de 10 anos que são obrigadas a casar com homens de 40 agradecem claramente o apoio desta pessoa; as mulheres que são vendidas, espancadas, exploradas também. As raparigas que são proibidas de usar calções numa escola porque os colegas podem não se conter também devem assinar o cartão de agradecimentos. Mas isto foi um aparte, voltemos aos gays, ela não se choca (ao contrário de mim que cada palavra lida é como se metesse os dedos na tomada), cada um faz o que quiser, e agora vou ser cabra e vou citar a pessoa, porque eu não conseguiria transmitir aquela mensagem de outra forma:

Mas se é igualdade que pretendem (eu acho que já a têm, mas pronto) não me parece que sejam com estas celebrações porque não vejo ninguém a celebrar o orgulho hetero.

Ponto um: é … um… botão… no… facebook, não está propriamente na vanguarda da luta pela igualdade, tem a sua importância, num cantinho do grande esquema do universo da luta pelos direitos humanos. Porquê tanto stress por causa de um botãozinho, em que é que isto afecta as pessoas hetero? Não vês a celebração do orgulho hetero? POR FAVOR!!!!! Rácio dos casais hetero para os casais gays nas nossa TVs, por exemplo, se isso não é uma celebração então o que é?

Ponto dois: já têm igualdade? O QUÊ? ONDE?? QUANDO??? COMO? Alunos de uma escola em Portugal foram punidos por serem LGBT e outros por terem exigido igualdade para @s coleg@s. Estamos em 2017 e duas pessoas do mesmo sexo não podem mostrar o seu amor num liceu em Portugal. Existem campos de concentração para gays, eu repito, CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO. Só esse conceito em 2017 deixa-me arrepiada, esse conceito deveria ter sido erradicado com o armistício, ser gay é crime é N países do mundo, gays estão banidos de doar sangue (em Portugal julgo que esta situação já se alterou mas não tenho a certeza) em N locais, casamento entre pessoas do mesmo sexo é ilegal em mais países do que os dedos que esta pessoa tem… nas mãos e nos pés. Ao contrário do que ela pensa as pessoas LGBT+ são activamente discriminadas profissionalmente. Há demasiados casos de miúdos espancados por amarem de uma forma diferente. Há demasiados pais a falharem como seres humanos decentes, quando colocam na rua miúdos que deveriam proteger só porque amam “diferente”. Portanto não, não existe igualdade para as pessoas LGBT+.

Estas pessoas vivem dentro da sua bolhinha e não procuram nunca abrir um pouco a sua mente, são ignorantes profissionais, conhecem a realidade do seu umbigo e tornam-na universal. Estas pessoas são desprezíveis e um desperdício de oxigénio.

(Vou fechar o texto, mas pérolas desta personagem continuam a brotar no Facebook  da minha amiga que garanto não merece pessoas destas.)

Ana Domingos

Isto resultou na “pessoa em questão” pensar que insultava a Ana ao chamá-la de ordinária. Ao que ela responde: “Não, não, eu sou extraordinária!”. E, conhecendo-a pessoalmente já há algum tempo, posso aferir por completo a afirmação. Obrigado, Ana.

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