E você, já comeu Privilégio hoje?

Eu sou um tipo atento às modas, e tenho reparado na quantidade de activistas que, para falar de uma injustiça social contra certo grupo, põem à mostra o seu próprio privilégio; auto-denunciam-se.  Geralmente o tom é “Eu, com o meu privilégio de pessoa branca, binária, classe-média, denuncio e reprovo a discriminação de que são alvo as pessoas trans, não-brancas, não-binárias”. Privilégio e discriminação são a mesma face da mesma moeda: diferenças no acesso à saúde, educação, trabalho, bens e serviços; diferença no tratamento recebido por outrem. Com base na cor de pele/orientação sexual/identidade de género/dinheiro na conta do banco, etc. No fundo, de acordo com as características de cada um.

Eu vejo as melhores intenções nesta auto-denúncia, mas creio que sofre de alguns males.


Começando pelo acumular de títulos; é certo que pretende indicar um segmento específico da população. Infelizmente as pessoas são complexas, e por mais categorias usadas, há outras tantas que ficam de fora. E quanto mais especificamos um dado segmento, mais o isolamos de outros, que podem ter muito em comum; as lésbicas anãs coxas-da-perna-direita podem ter imenso a partilhar com as lésbicas anãs coxas-da-perna-esquerda, mesmo não sendo iguais. A etiquetagem faz-se em décimas de milímetros: demasiado abrangente, não abarca as particularidades importantes do Indivíduo; mas, demasiado fechada, não contém os traços comuns do Grupo. Além disso, acumular etiquetas é um trabalho inútil: somando todas elas, o sentido esvazia-se, porque a anterior é esquecida assim que surge a seguinte.

E embora haja causas sociais que partilhem objectivos comuns, há que ter tacto. Os homens que clamam e gritam contra a invisibilidade lésbica não sabem resolver essa questão: porque não são lésbicas! Podem e devem ajudar na luta, mas tem de ser quem sente a injustiça a abrir caminho. A ideia de que podemos vestir a pele de Outra pessoa e lutar pela mesma luta, como se fôssemos Ela – isto tem laivos de arrogância,  de condescendência. É óptimo que diferentes grupos se unam – através da empatia e da solidariedade, não do açambarcamento, da lambança geral; como se todas as causas tivessem o mesmo caminho e o mesmo destino – isto é fazer sopa de restos com o activismo. Quando se quer defender tudo, defende-se nada.

Parece também que há um masoquismo neste discurso – como nas tragédias gregas, em que os filhos sofriam pelo pecado dos pais. @s auto-denunciador@s do privilégio parecem pensar ter poder sobre as más decisões dos antepassados e que os contornos com que nasceram foram uma escolha tola, pela qual têm de se desculpar. Quanto a mim, posso dizer que não pedi para nascer com genitais em forma de arma de contusão, nem disse aos meus antepassados para invadirem terras que não eram deles. O racismo existe, e a xenofobia, e o heterosexismo – mas eu não peço desculpa por isso. Porque a culpa não é minha (e eu não pago dívidas de mortos); minha, é a responsabilidade de respeitar e valorizar quem me rodeia, como seres humanos de valor intrínseco que são.

Finalmente (e para aligeirar): esta auto-denúncia das privilegiadas não acaba, ironicamente, por ser uma gabarolice? No fundo, o que dizem é, “Nós somos o pior dos piores [se for homem branco cis hetero, Deus o acuda], fizemos todos os horrores, descendemos de uma linhagem de monstros… e mesmo assim continuamos à frente.” As famosas etiquetas  são os títulos desta Nobreza – que, como qualquer nobreza, não fez nada para chegar onde está, e nada pode fazer para de lá sair. @s profissionais da insatisfação costumam brindar os seus textos e posts com frases como “Tanto trabalho por fazer”, “Ainda há tanto por fazer”, “Denunciar sempre!”; nunca nada é bom que chegue, nada está bem para el@s. Cada pequena vitória é celebrada com a lembrança de outra grande injustiça… Imagino que tenham alguém que lhes limpe a casa – o dia só tem 24 horas para tanto activismo, e sete são para dormir.


E é verdade que existe muito por fazer – mas é online que estes pecadores se maltratam, chicoteiam-se com palavras. E as sub-minorias que el@s defendem não ligam pevide; inteligentemente, devem estar a tratar dos seus problemas. Mas eu pergunto-me se a seguir a denunciar o privilégio chegam a renunciar ao privilégio? Ou terão apenas (como escreveu lindamente Pascal Bruckner) “uma solidariedade sem conteúdo, do tipo sou solidário e pronto, ponto final, tal um amor imaculado e místico flutuando, etéreo, no céu azul”(O Remorso do Homem Branco) A renúncia ao privilégio – que é real, caso ainda restem dúvidas – faz-se passando das palavras aos actos. Passar da co-miseração tépida de “like no face“, passar da denúncia na blogosfera ao gesto defensor no meio da rua, à solidariedade com quem nos cruzamos; à humildade no diálogo – humildade para dizer “Eu não estou dentro deste tema, desculpa-me se disser asneira…”.

 

 

 

 

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