A Heróica Ellen Page e o Assédio a Vítimas LGBT

Desde que me lembro de mim enquanto pessoa que admirei uma personagem de comics chamada Kitty Pryde. Nos anos 80 a Marvel sofria uma revolução que espelhava os tumultos sociais que se viviam na altura e o aparecimento da então adolescente Pryde foi disso sintomático. Ao contrário de grande parte das histórias anteriores com os denominados mutantes, que viviam pelas suas diferenças à margem da sociedade, esta acompanhou com detalhe e minúcia o crescimento de uma miúda inteligente normal e com uma vida pacata antes de se descobrir. E viu-a transitar rapidamente e dolorosamente para a idade adulta, não só devido às pressões das batalhas campais mas principalmente quando enfrentava as difíceis circunstâncias da sociedade intolerante em que vivia. Na metáfora da comunidade LGBT que os X-Men desde sempre representavam e ainda representam, Kitty Pryde (ou “orgulho” mal-escrito) era símbolo da inocência da juventude perdida demasiado cedo.

Não deixa de ser irónico que, desde o anúncio do elenco do terceiro filme da saga X-Men lançado em 2006, não parecesse, para mim, existir ninguém mais perfeito que Ellen Page para encarnar o papel Kitty Pryde. Na altura não entendia bem porquê, mas tal foi-se tornando mais óbvio para mim com o crescimento da actriz em Hollywood e a forma inspiradora e comovente como fez o seu coming out há apenas três anos. Mas na semana passada, numa época em que o mundo está a acordar para o mundo obscuro do assédio sexual no meio artístico, Page cometeu mais um ato de coragem e grandeza à altura da personagem que interpretou: num longo, incisivo e intenso post no seu Facebook revelou nesse mesmo filme, em que se estreava como Kitty Pryde, foi publicamente humilhada pelo seu realizador Brett Ratner num dos primeiros encontros do elenco e da equipa. Ratner, numa piada grotesca, aconselhou outra mulher “a foder (Page) para ela perceber que era lésbica”.

Page tinha apenas 18 anos na altura e estava ainda no armário, e, sem perceber ainda quem era, foi abusada verbalmente de forma jocosa por um homem adulto que era o seu superior. Não há nada mais violento para uma pessoa LGBT do que alguém faça o coming out por elas, ainda para mais não tendo elas o feito para si mesmas. Este ato não é só homofóbico claro. É misógino também, não fossem as acusações de outros abusos de Ratner chovendo nas últimas semanas. Mas este tipo específico de assédio com laivos de homofobia é um caso que deve ser explorado por si próprio e que Page fez de forma sublime, enquanto recordava também as agressões feitas a mulheres negras, trans e/ou queer, muitas delas consideradas socialmente aceites. O post completo pode (e merece ) ser lido mais abaixo, porque explora estes e outros assuntos que têm urgentemente de ser debatidos e integrados socialmente.

Há que aproveitar este momento de caos para refletir sobre a política de armário ainda reforçada por muitas empresas e indústrias e nas suas consequências. Mas acima de tudo perceber que o assédio sexual levado a cabo contra vítimas LGBT merece ser analisado sobre uma perspectiva totalmente diferente. Tenhamos em conta o caso de Anthony Rapp. O actor de 46 anos e agora abertamente bissexual, tinha apenas 14 anos quando foi vítima de assédio por parte de Kevin Spacey. Certo que é preciso ponderar a referida imposição de armário pela sociedade e pela própria indústria neste caso particular de Spacey. Mas não é de forma alguma uma atenuante. Armariado ou não, foi, repetidas vezes, um predador. Um predador identifica fragilidades numa presa. Explora-as a seu favor para as minorar e violar, fisicamente ou mentalmente. E não há presa mais fácil que um adolescente como Rapp, a debater-se com a sua própria identidade e a ser abordado de forma tão explícita e inadequada por um adulto que deveria perceber o seu dilema e tortura interiores e não usá-los contra ele. O silêncio destas vítimas adolescentes, das quais Rapp é apenas um exemplo, é tóxico e pode muitas vezes fazer com que elas nunca recuperem ou aceitem a sua identidade que então estava a formar-se. Porque foi ela que fez transparecer aquela atitude por parte do abusador. Porque se sentem culpadas de terem a origem e motivação por detrás daquelas violações. Muito raramente ouvimos as suas histórias. Porque ou ganham a capacidade de se tornarem intangíveis como a Kitty Pryde de Ellen Page ou perdêmo-las para sempre.

 

 

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