A verdade de Ellen Page

O nome não deverá ser estranho a ninguém. A actriz canadiana, que já expressou várias vezes o seu amor por Portugal, desde cedo encantou o mundo com o seu rosto doce e uma familiaridade inexplicável que podemos sentir com alguém que não conhecemos fora dos grandes ecrãs.

O seu talento desde logo foi reconhecido em “Hard Candy“, o filme-sensação do cinema independente americano de 2005, onde aos 18 anos desempenhava o papel de alguém muito mais jovem, “vítima” de pedofilia. Ganhou notoriedade com a sua interpretação em “Juno“, que lhe valeu a primeira nomeação ao Óscar.

No início do ano passado, aos 26 anos, parecia destinada ao sucesso, com uma carreira bem gerida e profícua que já incluía participações em blockbusters como “Inception” e “X-Men” e liderando o elenco de outros filmes independentes como “Whip It“. Mas Ellen Page carregava nela um segredo que mais tarde descreveu como “tóxico”. Não estava a existir na plenitude da sua identidade e entrou numa espiral de depressão e repressão criativa e pessoal. Era gay e não conseguia continuar a viver com a dor da mentira por omissão.

Foi então que a 14 de Fevereiro de 2014 fez, numa gala da famosa organização de intervenção social Human Rights Campaign, um discurso que não só transformou a sua vida como abalou alguns dos pilares mais conservadores de Hollywood, ainda intrinsecamente discriminatória. As suas palavras, inicialmente de apoio à causa, tornaram-se intensamente pessoais quando assumiu a sua homossexualidade perante o Mundo, enquanto implorava que este se tornasse um pouco, apenas um pouco, mais tolerante com as nossas diferenças e apreciar a beleza em cada uma delas.

Pouco mais de um ano depois, em que o progresso da causa dos direitos homossexuais foi tremendo, foi galardoada com o prémio Vanguarda da mesma Human Rights Campaign e discursou novamente com outro monólogo poderoso e arrebatador. Mostrava-se uma mulher nova, feliz e vivendo a sua verdade, clamando por Amor por todos e para todos.

O seu activismo vai, no entanto, muito mais longe. Produziu e protagonizou “Freeheld“, a estrear no início do ano que vem em Portugal, um filme que relata um caso histórico de 2005 que impulsionou a necessidade de igualdade nos direitos dos casais homossexuais, quando uma tenente policial, interpretada por Julianne Moore, diagnosticada com cancro terminal viu-se impotente ao aperceber-se que a sua parceira não iria receber todos os benefícios que os seus colegas tomavam como garantidos.

Está também a acabar a pós-produção de “Gaycation“, para o novo canal televisivo da Vice encabeçado pela direcção criativa do realizador Spike Jonze, onde andou pelo mundo a explorar como a cultura e experiência gay muda e se cruza nos países que visitou – e que, conforme se explicita no trecho abaixo, pode ser assustadora – e que também estreará no início de 2016.

Mais do que uma figura crucial do actual combate pelos direitos da comunidade LGBT, Ellen Page é um símbolo da revolução desencadeada pelo momento marcante da vida de qualquer pessoa gay ou trans que é a saída do armário. A sua visibilidade continua, visível e invisívelmente, a dar esperança a jovens que parecem não ver saída na mesma espiral de desespero que esta mesma mulher – agora plena, activa e apaixonada pela sua namorada Samantha – sofreu antes de decidir expor a sua verdade.

Por estas e tantas outras razões, obrigado Ellen Page.

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