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Uma Catrefa De Livros LGBT

uma catrefa de livros LGBT

Por Daniela Viçoso

A ficção LGBT é cada vez menos uma realidade de nicho; nos últimos anos, a ficção inclusiva tem vindo a furar a crosta e a fazer-se ouvir, fruto do esforço de storytellers que trabalham para que estas histórias sejam cada vez mais contadas, difundidas e reconhecidas.

E não há melhor altura para trazer estes trabalhos à luz da ribalta do que o Mês do Orgulho. Para quem quer começar a ler ficção LGBT, mas não sabe por onde começar, ou até para os versados que precisam de mais umas sugestões, eis alguns dos meus livros LGBT preferidos:

Aristotle and Dante Discover the Secrets of the Universe de Benjamin Alire Sáenz

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Aristotle e Dante são dois rapazes latinos de personalidades completamente antagónicas, que o destino acabou por juntar numa amizade de infância. E, como a maior parte das amizades que se transportam para a adolescência, vão presenciar o crescimento um do outro, cada um com os seus próprios dilemas em crescer e se descobrirem a si próprios – e também em aprender a lidar um com o outro.

Aristotle and Dante é, inegavelmente, um dos livros mais queridos que já li. As personagens em volta deles e o próprio enredo demonstram uma paciência e um amor enorme para com eles e o seu desenvolvimento, ainda que muitas vezes façam coisas estúpidas ou tomem decisões obviamente erradas.

Socialmente, os adolescentes e os seus problemas e dilemas são vistos como birras e manhas e é-lhes dado muito descaso. Aristotle and Dante, muito subtilmente, mostra-nos que há melhores maneiras de os tratar: que os seus problemas são válidos, que as suas ansiedades não são dignas de desprezo, mas de ajuda e compreensão.

É um livro que pega naquele arquétipo de “o enredo castiga as personagens pelos seus erros”, e o reverte totalmente. As personagens podem cometer erros – e recebem as consequências desses erros – mas não são martirizadas. A grande mensagem é que ser-se jovem e crescer é um processo difícil – e que todas as dificuldades são válidas.

The Song of Achilles de Madeline Miller

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Porque todos sabemos que o passado não é tão heterossexual como nos querem fazer acreditar.

The Song of Achilles é um retelling da Ilíada de Homero, a história da Guerra de Tróia em que os Gregos tentavam resgatar Helena de Páris e dos Troianos. Mas aqui é-nos contada do ponto de vista de Pátroclo, o companheiro do semideus Aquiles.

Este retelling interpreta, assim, a relação entre Pátroclo e Aquiles como amantes, e não como primos ou irmãos adotivos, como alguns estudiosos gostam de fazer.

Não que eles serem primos ou até irmãos invalidasse alguma coisa – como todos os portugueses que tiveram de ler Os Maias, ou até os milhares de fãs de Game of Thrones, vos podem dizer.

O ponto mais forte de The Song of Achilles é a prosa, que é absolutamente avassaladora. Pronto, aqui admito: eu li em inglês (ainda que agora já exista tradução para português), e a minha primeira língua não é o inglês, portanto o meu deslumbramento pode ser fruto de eu não conhecer um espetro alargado do que se pode fazer com a língua inglesa em termos líricos, como conheço com o português.

Mas mesmo assim, é um texto que prima por ter uma prosa ao mesmo tempo com alguns floreados, alguns romanticismos, mas sem cair naquela da purple prose e do “complicar por complicar”. É bonita, pronto.

The Captive Prince por C. S. Pacat

The Captive Prince por C. S. Pacat.png

Agora, eu vou tentar não transformar isto num ataque ou uma indireta a romances mainstream, por todos os romances LGBT que li até agora terem, consistentemente, uma preocupação inacreditável com a qualidade da escrita, a qualidade dos diálogos, o pacing da relação e como esta se desenvolve sem colocar em causa a personalidade de um ou mais dos envolvidos – e como as end lines, quando são dadas como “finais felizes”, são verdadeiramente felizes, e não relações tóxicas, abusivas ou que colocam um dos envolvidos em submissão para com o outro, mas…

Pronto. Tentar nem sempre é lograr.

É que Captive Prince é uma história que se passa entre um príncipe, Damien, que foi vítima de traição e feito escravo do príncipe do reino inimigo, Laurent. A história é um constante power play de intriga e manipulação entre, basicamente, um príncipe e o seu escravo – e mesmo assim consegue ter uma dinâmica mais equilibrada que certas histórias de amor em que é suposto as personagens estarem em igualdade de circunstâncias.

Onde é que eu ia com isto? Ah, Captive Prince é muito bom. Se gostarem de fantasia histórica misturada com intriga política e personagens complexas de moralidades questionáveis a gladiarem-se por poder, é o vosso livro. Se gostarem ainda mais de fantasia que não se baseia só nos arquétipos históricos recorrentes, e que em vez disso bebe também da cultura francesa e grega… pronto, está cá.

O Infante de Daniela Viçoso

O Infante de Daniela Viçoso.png

Deixo o melhor para o fim: era criminoso eu propor-me a falar de boa ficção LGBT e não referir um dos primeiros, senão o primeiro, livro de ficção LGBT que li.

O Infante é um livro de banda desenhada que conta a história da relação entre um Infante e o seu Escudeiro. Foi o primeiro boy’s love português e é, como já se tornou óbvio, um livro profundamente baseado na cultura portuguesa. Além de um marco na ficção LGBT portuguesa, é uma história arrebatadora contada através de um trabalho artístico lindíssimo.

Imagem de destaque por Daniela Viçoso.


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