O que significa um Arraial

Costumo dizer que nasci em 2011. Dois-mil-e-onze: o malfadado ano da vinda para Lisboa, da saída do armário, da saúde mental a testar limites, das inseguranças em alta e da certeza absoluta e inabalável de que iria ser infeliz e ficar sozinha para o resto da minha vida.

Esta era eu: Ana Aresta, segura do meu nome e das minhas capacidades académicas, moça de boas piadas, roqueira convicta, macho-alfa nas noites de copos. Ana Aresta, a miúda recém-chegada daquela cidade a que @s lisboetas chamavam de província (não interessa o nome, qualquer uma serve), imbuída de uma grande vontade de viver, mas incapaz de articular para si própria aquelas letrinhas maliciosas que de vez em quando se descolavam do mais remoto cantinho do cérebro para despoletar as maiores das ansiedades: L-É-S-B-I-C-A.

No fundo, no fundo, eu sabia que não iria conseguir fugir durante muito mais tempo a este conjunto silábico que não queria sair da minha boca quando tentava pronunciá-lo e que tão bem definia o medo que eu tinha de assumir – para mim e para o mundo – a minha orientação sexual. Então pronto, respirei coragem e lá fui.

A 25 junho de 2011 aterrei no Terreiro do Paço em pleno Arraial Pride. Aquele dia pareceu-me um ato falhado: tive de agarrar várias vezes no mapa porque me perdi no caminho; fui à tarde porque tinha medo do que poderia encontrar à noite; não fui capaz de passar do Pride Village porque havia pessoas semi-nuas a dançar nos bares; queria fingir que ia comprar uma pulseira, mas era tudo arco-íris e eu tinha repulsa às cores; queria ver se me apaixonava por alguém, mas os olhos não descolavam do chão; dançar pop não podia ser, claro: punha em causa o meu estatuto musical; e depois queria muito ter dito àquela amiga minha que me disse que foi ao Arraial que “sim, fixe, eu também lá estive!” – mas pronto, não fui capaz. Foi uma desgraça.

Hoje, a umas dezenas de horas de caminhar novamente para o Terreiro do Paço, relembro com alguma nostalgia esse meu primeiro Arraial [Lisboa] Pride.

Soubesse eu que viria meses mais tarde a fazer voluntariado e tirar cervejas com demasiada espuma no bar do Centro LGBT. Soubesse eu que iria cantar e ser muito feliz no coro que atuou essa tarde numa das tendas. Soubesse eu que iria aprender (quase) tudo sobre a música pop e até dar uns passinhos de dança bem ousados com várias das pessoas que se atreveram naquela noite a levantar o pó da praça. Soubesse eu que anos mais tarde viria a fazer parte da equipa orgulhosa e fantástica que organiza este evento. Soubesse eu que iria sentir na pele os arrepios frenéticos das vitórias políticas na conquista dos nossos Direitos Humanos. Soubesse eu que iria marchar pelas ruas de Lisboa com a bandeira arco-íris às costas e em conjunto com milhares de pessoas. Soubesse eu que nessa tarde também lá estava a mulher com quem eu me vou casar.

Soubesse eu isso tudo e teria nascido bem mais cedo. Ter-me-ia chegado bem perto do palco, misturado no barulho das luzes, libertado das amarras opressoras, gritado “Lésbica, Lésbica, Lésbica!” a toda a hora, amado todas as mulheres do mundo… pronto, vocês percebem. Pisar as pedras cada vez mais soltas daquela Praça, mesmo que timidamente, foi uma das melhores decisões da minha vida.

Este sábado, 23 de junho, há mais Arraial Lisboa Pride. A história repete-se para mim, mas noutros moldes. E outras histórias mais ou menos atrapalhadas começarão ali. No final, valerá sempre a pena. Venham, que ainda temos muito para viver.

21 de junho de 2018
Ana Aresta, Vice-Presidente da Direção da ILGA Portugal

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