A Madonna de Madame X é guerreira, amante e… Portuguesa

Ainda parece meio surreal colocar Madonna e Portugal na mesma frase sem um “ela nunca cá vem“. Falo claro dos tempos antes de 2004 em que o ícone da cultura pop ainda não tinha cá colocado os pés para atuar ao vivo. 15 anos depois temos uma residência exclusiva com seis datas esgotadas em poucas horas no Coliseu dos Recreios, só com Londres e Paris a juntarem-se para a porção europeia da tour. É insólito pensar em Madonna como uma cidadã nacional e por cá fizemos questão de receber as suas (inúmeras) idiossincrasias de celebridade à escala global com o habitual desdém Português a fazer capas de jornalismo mixuruca. A audácia de uma americana viver em Lisboa e, ainda para mais, nem sempre estar satisfeita. Vá queixar-se para o Michigan, onde nem a porcaria de Sagres há. Malandra.

Foi também com desdém que a maioria do público Português recebeu as declarações de Madonna quando afirmou que Madame X, o seu décimo quarto álbum de originais, era fortemente inspirado pela sua mudança para Lisboa por causa do seu filho David e da sua formação como futebolista. Madonna, a soccer mom glorificada que passa diariamente a 25 de Abril para ir para o Seixal? Longe disso. O manifesto de Madame X é o seguinte:

A capacidade de reinvenção de Madonna é a única constante da sua carreira enquanto artista. Um camaleão inquieto que nunca se deixou contaminar pela nostalgia dos seus sucessos anteriores. Mas só numa outra ocasião Madonna decidiu assumir uma identidade diferente, um papel diferente do de Madonna: foi em 1992 com Erotica, em plena libertação sexual com o nome de Dita Parlo, cujas mazelas e polémicas, particularmente do seu livro de fantasias sexuais SEX, ainda se sentem nos dias de hoje. Não deixa de ser interessante que Madame X se aproxime muito de Erotica na sua inquietude: define-se de uma forma e na faixa seguinte essa definição já mudou completamente. Madonna sempre foi uma mulher de muitas caras, muitas identidades, e esta Madame X – atribuída a ela pela própria lenda da dança Martha Graham quando com ela estudava – é a personificação disso tudo.

E se Madonna por várias vezes se queixou da solidão nos tempos iniciais da sua vivência de Lisboa, bem vincados na primeira metade do disco, não deixa de ser curioso que Madame X seja indubitavelmente o seu álbum mais global e expansivo de todos. De Lisboa a Nova Iorque, passando pela Paris, Medelín, Londres e Rio de Janeiro. E também Cabo Verde, de onde recrutou as Batukadeiras para o hino de elevação espiritual que é Batuka, um dos pontos mais altos e inventivos de Madame X. E não deixa novamente de ser insólito ouvir Madonna experimentar a língua de Camões em inúmeras canções do disco. É o caso de Extreme Occident, onde a guitarra portuguesa tão bem ilustra a sua dor. Canta, em português: “o que mais me magoa é que eu não estava perdida“.

Enquanto portugueses pensamos que a influência musical que se vive hoje no nosso país ainda é muito assente no fado e exclusivamente na nossa génese identitária enquanto povo. A realidade é que Lisboa é, hoje mais do que alguma vez foi, uma cidade do Mundo. E a música que aqui se ouve tão depressa desponta das nossas próprias raízes, como as dos nossos irmãos e irmãs da América Latina e África. Não é obviamente acidental a versão que Madonna decidiu fazer de Blaya: deve tê-la ouvida tantas vezes quanto qualquer um de nós e decidiu dar-lhe um bilhete de avião para onde ela quisesse ir, acompanhada pela estrela em ascensão de Anitta. É o resultado da oposição consciente à reclusão inicial de uma estranha numa terra estranha. A de contrariar a vida de eremita para viajar por cá e por lá, aterrando inclusivamente em Medellín, de onde surgem três colaborações com o talentoso (e gostoso) rapper Maluma, duas neste álbum (o single de apresentação Medellín e Bitch I’m Loca) e uma no do próprio (a deliciosa e insana Soltera).

Mas antes da festa em que Madame X desemboca vemos uma Madonna mais combativa que nunca. Se conceptualmente Madame X se aproxima de Erotica, no conteúdo é uma evolução de American Life. Não é coincidência que tenha escolhido colaborar novamente com o produtor desse disco (e também do seu predecessor Music), Mirwais, um génio maior da eletrónica francesa. Existe nestas canções um fervilhar profundo no sangue de Madonna, fruto do cansaço, frustração e raiva com que olha para a situação política do seu país de origem e do Mundo em geral: na já mencionada Batuka pede a prisão de Donald Trump no cerne da sua revolta espiritual; em God Control implora que acordemos deste estado de letargia profundo e nos insurjamos contra estes insidiosos poderes vigentes; na morna lenta de Killers Who Are Partying afirma que vestirá a pele de todos os se sentem marginalizados para os defender: “O mundo é selvagem, o caminho é solitário“.

Madame X chega numa altura em que Madonna volta a encabeçar o movimento pelos direitos LGBT nos Estados Unidos: foi nomeada embaixadora dos 50 anos da revolta de Stonewall pelo próprio The Stonewall Inn, onde tudo começou, e ganhou o raro prémio Advocate for Change da GLAAD pelo seu trabalho pioneiro junto da comunidade desde os anos 80. E essa sua luta de sempre está bem presente nas faixas mais politizadas de Madame X. I Rise, que fecha o disco, é um hino sóbrio sobre as batalhas das pessoas LGBT, empoderando-as e incentivando-as a erguerem-se depois de serem derrubadas. Vezes sem conta. E em Dark Ballet, a canção mais esquizofrénica de todo o disco, é bem patente a sua revolta: “I can dress like a boy, I can dress like a girl; keep your beautiful words, ‘cause I’m not concerned“. O vídeo que ilustra Dark Ballet, filmado em Portugal no Capo Espichel e no Mosteiro da Batalha, é um dos mais acutilantes da sua carreira: mostra Mykki Blanco, ativista negro, queer e seropositivo e forte impulsionador do movimento pelos direitos trans nos Estados Unidos. É queimado na fogueira pela Inquisição (passada ou futura?), perante a delícia dos homens do clero e a impavidez das mulheres que lhe fazem o luto.

Existe novamente um fogo nos olhos e na voz de Madonna que há muito não se fazia sentir. Aos 60 anos de idade poderia ter desistido de combater o idadismo latente dos artigos que lhe são dedicados. Todos. Sem excepção. Mas em lugar de se deixar vencer ela está pronta para a batalha. Mas a guerreira já não está vestida de soldado, em camuflagem e pronta para fazer explodir bombas. Nos tempos que correm a guerra voltou a ser medieval. Precisamos de punhais e não de metralhadoras. E precisamos de armaduras para nos protegerem no caminho. E Madame X é essa armadura.

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