RTP promoveu documentário sobre “pessoas que menstruam” e transfóbicas queixaram-se da expressão inclusiva

Parece que J.K. Rowling já encontrou apoio de uma colega em Portugal, com Inês Pedrosa a criticar a expressão “pessoas que menstruam” utilizada pela RTP para a promoção do documentário “O Meu Sangue”, onde várias e variadas pessoas – homens e mulheres trans incluídas – falam da sua relação com a menstruação.

“A COVID ataca os neurónios” foi a expressão que a autora e comentarista encontrou para descrever a promoção ao documentário de 2019 com autoria de Tota Alves que questiona se “ser mulher é menstruar?“, concluindo que “há homens que menstruam e mulheres que não menstruam.” Depois, Pedrosa partilhou uma série interminável de tweets que tentam defender as posições transfóbicas de Rowling. Contra essas, recomendo a leitura da carta aberta a J.K. Rowling que serve aqui que nem uma luva a Pedrosa.

“O Meu Sangue” é um documentário sobre menstruação para todas as idades, com o objetivo principal de mostrar pessoas “serem elas próprias e isso ser bonito por si só. E mostrar aos homens o quão natural é tudo o que envolve os corpos, o sangue, a vida. No fundo, mostrar ao mundo imagens reais do que é real.” Porque, ao contrário do que a maioria dos anúncios a pensos ou tampões possa fazer crer, o sangue é vermelho e metálico e não azul e brisa.

No entanto, aparentemente, há quem, perante este documentário que fala com mulheres de várias idades, cisgénero (a maioria), mas também homens e mulheres trans, jovens, crianças, seniores de diferentes contextos sociais, vê um problema na utilização da expressão abrangente “pessoas que menstruam”. A RTP esteve, aliás, bastante bem na linguagem da sua promoção, não traindo o conteúdo do mesmo. Esperemos agora que não haja queixas como aconteceu com a série juvenil Destemidas e a RTP se mantenha firme na sua escolha de palavras, porque estas importam.

Li alguém perguntar se custava assim tanto dizer simplesmente “mulheres que menstruam?” Custa tanto como dizer “pessoas que menstruam”, mas só numa das opções existe verdadeira inclusão que é precisamente abordada no documentário de três episódios (a questão trans tem foco especial no segundo). Esse poderá ser sempre um custo politizado, mas ganharmos consciência sobre as várias realidades, e não apenas o padrão, é meio caminho andado para percebermos o que realmente é a menstruação e como ela se revela e celebra.

Este foi, aliás, um fenómeno bastante curioso que ocorreu nos últimos dias no Twitter, com histórias virais sobre o hábito secreto de mulheres beberem o próprio sangue menstrual num ritual feminista de empoderamento, a quem a maioria da população, nomeadamente homem, estava alheada. Um ritual cujos indícios, ao que parece, remontam desde o Paleolítico Médio até aos dias de hoje.

A parte mais interessante de toda esta paródia é que houve, efetivamente, pessoas a questionar se esse ritual de beber e partilhar o sangue menstrual não seria mesmo verdade. A dúvida é bastante reveladora da ignorância que ainda existe sobre o corpo da maioria da população e o seu funcionamento. Esta dúvida, por mais irrisória que possa parecer, “é apenas uma prova de que os homens estão pouco informados sobre o tema” e, se servir para alguma coisa, será para “reforçar o quão necessária é educação sexual em TODAS as faixas etárias.

Curiosamente, antes de surgirem as polémicas em torno da ignorância e do preconceito contra o corpo de mulheres cis e trans e homens trans, questionei-me se a paródia chegaria a J. K. Rowling e a obrigaria a ‘enterrar-se’ ainda mais. Afinal sonhei alto demais, Portugal já tem, com Inês Pedrosa, a sua autora TERF de serviço assumida.


A mitologia menstrual e a saúde sexual esteve em destaque em dois episódios do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈, oiçam:

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