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Quem Tramou Britney Spears?

Desde a sua ascensão meteórica no virar do milénio que Britney Spears foi tudo: celebrada, odiada, respeitada, menosprezada, glorificada, vilipendiada. E houve uma altura em que chegou a ser livre. Já não o é há pelo menos 13 anos, como mostra Framing of Britney Spears, um documentário apresentado pelo The New York Times, realizado por Samantha Stark, com investigação da jornalista Liz Day. O título, e a própria palavra “framing”, tem aqui duplo significado: propõe-se a “enquadrar” a persona pública de Britney ao mesmo tempo que pergunta quem “tramou” a cantora. E tal questão tem múltiplas respostas, cada uma mais incriminatória que outra.

O que fica claro é que Britney Spears sempre ia ser uma estrela. Desde criança que tinha ela própria uma vontade gargantuana de pisar o palco e mostrar o seu talento. Talento esse que a levou ao programa Star Search, no qual também se estreou Beyoncé, e depois ao Mickey Mouse Club. Aqui conheceu Justin Timberlake, Christina Aguilera e Ryan Gosling, antes de se tornar uma estrela maior que todos eles quando lançou “Baby One More Time” e efetivamente mudou o panorama da pop contemporânea. E continuou a fazê-lo. Single após single. Álbum após álbum. Digressão após digressão. Foi elevada ao estatuto de queridinha da América, e parte de um dos primeiros power couples de Hollywood com Timberlake. Até crescer e tornar-se numa mulher, com virtudes e fragilidades, e foi aí que tudo começou a descarrilar.

Talvez o momento da gota de água tenha acontecido aquando da separação de Justin Timberlake, e este começou uma cruzada bem pública de difamação contra Britney com o seu primeiro verdadeiro sucesso fora dos NSYNC, “Cry Me a River”. No videoclipe mostrava-o a vingar-se de uma ex-namorada, interpretada por uma sósia de Spears, que o traiu com outro homem. A perceção pública de Britney mudou completamente graças a uma apropriação da narrativa (e da verdade) por parte de Timberlake, tornando-a na puta que partiu o seu coração. Narrativa essa que continuou a usar anos depois com “What Goes Around (Comes Back Around)”, em que, no videoclipe, Scarlet Johansson fazia as vezes de Britney apenas para sofrer o castigo derradeiro de trair o pobre Justin: morrer num acidente de automóvel. Timberlake é assíduo em partir os pedestais de mulheres famosas, basta perguntar a Janet Jackson, e logo a seguir limpar as suas mãos.

Desde aqui que Britney teve o seu destino traçado e passou a ser o alvo preferencial dos paparazzi durante todos os anos que se seguiram. Os fotógrafos cheiravam sangue na água e iam cercando cada vez mais uma Britney que estava lentamente a perder o controlo da sua própria história e, consequentemente, da sua vida. Seguiu-se o casamento falhado com Kevin Federline, a gravidez e posterior batalha de custódia pelos dois filhos, culminando no colapso público de 2008. Não havia qualquer preocupação, no meio do julgamento público e humilhação, pela saúde mental de Britney Spears nesta altura, era apenas uma louca e histérica, totalmente fora de si. Uma narrativa bem simples e eficaz para demolir qualquer mulher. 

O movimento #FreeBritney esteve em discussão no Podcast dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈

E assim foi começando um penoso processo em tribunal que colocou Britney numa conservadoria, uma espécie de tutela normalmente aplicável apenas a pessoas idosas incapazes de cuidarem de si próprias. Essa conservadoria foi levada a cabo pelo pai, Jamie Spears, e por um advogado por ele contratado. Passaram a tomar conta de todos os seus bens, posses e controlo criativo de tudo o que Britney fazia fora do estúdio. E isso acontece até ao dia de hoje. Inicialmente, Britney queria apenas voltar a ganhar força e saúde mentais para reaver a custódia dos filhos, mas várias vezes demonstrou que esta conservadoria é agora totalmente contra a sua vontade, tendo levado o pai a tribunal no final do ano passado com o juiz a ignorar a vontade de quebrar essa decisão. Conservadoria essa que, dada a alta capacidade de Britney trabalhar, depois do período inicial mais crítico, foi descrita em tribunal por um dos seus conservadores como um “modelo de negócio híbrido altamente rentável”. Não deixa de ser irónico também que todas as despesas em tribunal, da conservadoria e dos recursos contra a mesma, são inteiramente pagos por Britney, a “galinha de ouro” de um conjunto de homens que nunca a respeitaram. 

Pessoalmente, foi um visionamento bem intricado e desolador. Porque, apesar de Britney Spears ser desde o início um ícone cultural gigantesco e uma diva aliada dos direitos LGBTI, existia — principalmente antes do esgotamento — um certo desdém da minha parte com a sua figura e com o questionamento contínuo do seu talento. Uma mob mentality à qual me deixei sucumbir, timidamente celebrando cada lançamento musical, mas sempre preparado para lhe tirar o pedestal ao mínimo deslize. Afinal de contas, era para isso que ela existia, certo? Para trazer alegria às massas, quer ela se traduzisse em música ou no seu colapso. O entretenimento estava garantido de qualquer forma. Podemos procurar culpa em Justin Timberlake e Jamie Spears, mas não há maior culpa que a ‘nossa’, a do grande público que se alimentou das suas desventuras e questionou o seu talento enquanto dançava alegremente ao som do mesmo. Por isso agora, mais que nunca, #FreeBritney.

ATUALIZAÇÃO: Hoje, dia 12 de fevereiro de 2021, um tribunal na Califórnia rejeitou o pedido de Jamie Spears em ser o único conservador da fortuna de Britney, mantendo a conservadoria partilhada com um banco anteriormente apontado pelo tribunal.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.

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O sexagésimo sexto episódio do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙️ 🏳️‍🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Entramos logo a matar com comentários (nossos e vossos) à segunda semi-final do Festival da Canção e também à parte II da novela do novo presidente do Tribunal Constitucional, João Caupers. Passamos para falar de relações e relacionamentos amorosos (e não só) em contexto pandémico, aos novos números da percentagem de pessoas LGBT nos Estados Unidos da América, com a Gen Z a marcar terreno. Terminamos com um repescar das queixas de discriminação segundo o género a propósito do 8 de Março e com o nosso Dar Voz A… dedicado ao Assassin's Creed e à falta de etiqueta trans. Para participarem e enviar perguntas que queiram ver respondidas no podcast contactem-nos via Twitter e Instagram (@esqrever) e para o e-mail geral@esqrever.com. E nudes já agora, prometemos responder a essas com prioridade máxima. Podem deixar-nos mensagens de voz utilizando o seguinte link, aproveitem para nos fazer questões, contar-nos experiências e histórias de embalar: https://anchor.fm/esqrever/message 🗣 – Até já unicórnios 🦄  Música por BenSound e Lúcia Moniz ; Jingle por Hélder Baptista  🎧 Este Podcast faz parte do movimento #LGBTPodcasters 🏳️‍🌈
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